terça-feira, 17 de fevereiro de 2015
domingo, 1 de fevereiro de 2015
Entrevista na SIC Mulher
Entrevista de João Negreiros no programa "Mais Mulher" do canal SIC Mulher apresentado por Ana Rita Clara (19/01/2015).
Texto dito no final da entrevista:
"Dizes o que pensas de quem amas?"
Sabes o que pensas de quem amas.
Dizes o que pensas de quem amas?
Sabes o que dizes de quem amas.
Amas o que dizes de quem amas?
Pensas o que dizes de quem amas?
Não precisas de pensar quando dizes o quanto amas.
O amor traduzido para palavras dá ao amor voz e às
palavras utilidade.
Para a violência há gestos que chegue.
Para o amor são precisas palavras exactas que não
confundam os amados com gestos dúbios.
Se amas diz para ser mais forte.
Se gostas… gosta com sons que a tua língua sempre teve
para ti.
Pega em palavras escolhidas. São as mesmas que todos
usam mas têm a combinação particular da tua voz e da tua mente.
E, para além disso, vê o bom em tudo porque em tudo há
o bom. Sabes que vendo o bom vês o início da bondade? Mudas uma letra e tens
caminho aberto para fazeres a vida melhor. Queres a vida melhor?
Então se queres diz. Diz alto. Diz com palavras
perfeitas que são exactamente aquelas que te vêm à cabeça no primeiro impulso.
O teu primeiro impulso sempre foi bom.
Sabes que nasceste com a certeza do que estava certo.
E certo… certo é seres feliz e gritares isso… ou murmurares isso… ou urrares
isso… ou celebrares isso.
Se nasceste a chorar foi porque te bateram, não porque
fosse impulso verdadeiro. Ninguém te bate agora. Agora querem-te como estavas
para nascer. Querem-te rindo e esperneando por um ar melhor que enche os
pulmões de algo que é a vida. A vida és tu e nós queremos ouvi-la como ela é.
Como tu és.
Dá abraços que fazem falta a quem anda perdido e em
busca de ser amarrado. Dá beijos a quem for seco. Diz carinhos a quem já os tem
porque demais é só a tristeza… felicidade em demasia é como calor a mais quando
está frio, lume a mais quando apagou, sol a mais quando é Inverno, Lua a mais
quando é de noite, certezas a mais quando se hesita, cola a mais quando não
pega, força a mais quando não podes, coragem a mais quando tens medo.
Tu nasceste a sorrir e a dizer coisas lindas. Se
choraste e se começaste a falar tarde foi porque não te deixaram. Agora
deixo-te eu para fazeres aquilo a que estavas destinada.
Sorri como vinhas para fazer. Diz o doce que tinhas
preparado e nas palavras serás a pessoa que já és no resto. No resto és a vida…
nas palavras és agora tudo o que falta.
Fala agora o amor que andaste a adiar e que vem no
momento certo.
Este é o momento certo.
Diz coisas lindas que a bondade sem ti não tem piada
nenhuma.
Texto d' "O Manual da Felicidade" de João Negreiros
domingo, 11 de janeiro de 2015
os olhos de uma luz diferente
lambe o dorso de um cavalo e
o dorsal de um triatleta
para perceberes a distância
que vai da crina ao suor
toma o corpo do jogador a
contar as ripas do banco
e ouve o hálito da
prostituta a quem veio o período
para perceberes a distância
que vai da tristeza ao purgatório
veste o sono do segurança
das horas mortas da morgue
e come a terra do cadáver
que acordou vivo
para perceberes a distância
que vai do pesadelo à falta de ar
descalça-te e sente entre os
dedos a rua pintada a sangue
depois unta-te a mel e viola
uma flor
para perceberes a diferença
entre o podre que permites e o podre que praticas
apanha um autocarro
caminha lá por dentro até
bateres no fundo
e depois volta na chuva do
regresso
para perceberes a diferença
entre o bicho que morre na jaula e o que bate com os chifres
à porta do matadouro
arranha os dias com uma
guitarra
e come um pulha ao jantar
para perceberes a diferença
entre tocares viola e tornares-te útil
arremessa pedras a uma
multidão
e em seguida faz o mesmo
contra o mar encapelado
para perceberes a diferença
entre a raiva dos homens e a natureza da tolerância
aproxima-te de um
forasteiro aquece-lhe as mãos
com as mãos que levas nas luvas
e depois chama-lhe a cor
dele com a entoação que damos quando parecemos valentes
para perceberes o tempo que
vai do carinho ao cobarde
agarra uma oportunidade e
depois inventa outra
para que distingas o
oportuno do oportunista
ameaça fazer o bem a um
homem mau e promete fazer o mal a um homem bom
para perceberes que a
diferença é mínima
dá um nome a uma cor que já
existe
e em seguida vê-a pelos
olhos de uma luz diferente
para perceberes a diferença
entre um charlatão e o Sol
arrebata um coração e
trespassa outro
e vai do amor ao assassino
poema do livro "o acaso é um milagre" de João Negreiros
quinta-feira, 1 de janeiro de 2015
O presente
Pega no presente
como se nascesses no Natal e não sofras com o que foi… que o que foi está longe
como o que só foi agora uma vez.
Pega no presente
e envolve-o lasso suficiente para caber quem gostas.
Pega no presente
e começa de novo usando tudo para trás como informação tua noutra vida em que
eras o mesmo… mas não tão perfeito.
Pega no presente
e percebe que é o momento.
Pega no presente
e sabe de cor interiormente, sem cábulas, tudo o que te aconteceu porque tudo o
que te aconteceu fez sentido, e o sentido foi o que te trouxe até aqui, e aqui
é perfeito para dar início a mais um momento áureo.
Pega no presente
até ao infinito e perpetua o instante como o especial.
Pega no presente
e torna-o tão único como a água e faz dele a pujança inequívoca de estar tão
vivo como tudo o que é impressionante.
Pega no presente
e pulsa o ritmo cadente de um músculo novo que nasce sem esforço porque se
inventa como o vento e as marés.
Pega no presente
e faz tudo de novo como se respirasses a coragem.
Pega no presente
e acende-o como a luz faz ao escuro.
Pega no presente
e mata o medo do teu vocabulário como se só tivesses cheta para um dicionário
de bolso.
Pega no presente
e faz dele o que virá. E do que foi soubeste ver tudo, gostaste de ver tudo,
precisaste de ver tudo.
Pega no presente
e sabe que o que se passou foi para te fazer e o que há-de vir há-de ser sempre
já.
Texto d' "O Manual da Felicidade" de João Negreiros
sexta-feira, 26 de dezembro de 2014
Aprende a falhar
Falha um sonho e acorda de vez.
Falha um objectivo e corre com o cansaço.
Falha por muito e fica mais perto.
Falha por pouco para ficares quase onde queres.
Falha muito como faz quem percebe que ser alguma coisa passa por quase ser.
Falha a concretização como quem dá valor ao que constrói.
Falha um compromisso e encontra outra pessoa.
Falha o que está longe e cresce como quem se estica.
Falha como conseguem os outros.
Falha e saberás o valor todo quando deixares de o fazer.
Falha e diverte-te à distância.
Falha, falha, falha, falha.
Falha como quem aprende que tudo no Mundo precisou de tentativas para existir.
Texto d'"O Manual da Felicidade" de João Negreiros
quinta-feira, 25 de dezembro de 2014
Jesus além revisitado
Belém azeda como açúcar sem
cana
os reis magros estacaram
frente à cabana
a estrela perdeu-os e
confundiu-se com a Lua
o menino sem presentes mama
a verdade nua
e prostrada nas palhinhas
está a esperança que tu
tinhas
prostrada nas palhinhas
estão as tuas e as minhas
luziu tanto até ser dia
surge à noite a crença clara
faz-se gente em palha fria
e a esperança ninguém ampara
este Natal não tem ouro
o incenso paira no estrume
à vaca arrancaram o couro
e a Senhora deu luz sem lume
poema do livro "o acaso é um milagre" de João Negreiros
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