domingo, 2 de março de 2014
quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014
"O Espelho" d' "O Manual da Felicidade"
Co-produção: Teatro Universitário do Minho e Bolor Teatro
quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014
"É o que tem de bom" - O Manual da Felicidade
ser amigo não é ser educado
ser educado não é ser bom
mas ser bom é ser amigo
ser cordial não é ser atencioso
ser amigo não é ser cordial
mas ser amigo é ser atencioso
sorrir sem vontade pode ser educação ou não
sorrir sem vontade pode ser cordialidade ou não
sorrir sem vontade
não pode ser amigo
conhecer uma pessoa nova é convidá-la a entrar ou não
a um amigo convida-se a entrar se se quiser que ele entre
convidar um amigo a ficar lá fora é perder a oportunidade de
fazer o amigo
ser formal não é falta de educação
ser formal não é falta de cordialidade
ser formal com um amigo só é falta de inteligência
ser formal com um amigo que ainda não se conhece é perder a
oportunidade de existir
é perder a oportunidade de dar uso à casa
à lareira
ao tapete
aos talheres
aos ímans do frigorífico
ao quadro impressionista
à vista impressionante
ao álbum de casamento
ao livro de curso
ao Polystar de ‘82
aos vestidos que uso pouco
ao vinho bom
aos abraços
ao presunto com melão
aos animais de estimação
aos peluches
à aparelhagem que ainda tem gira-discos mas que não tem
agulha
às camisolas
às palavras meigas
às coisas todas que
já nem me lembra
à estatueta que trouxe de São Tomé
à cartola de finalista
à bengala também
e ao passe-partout em que estou com o meu afilhado
ser formal com um amigo que ainda
não o é é ser distante com uma pessoa que podia eventualmente dar razão à nossa vida e a todas as coisas que
nela existem
direi bom dia de sorriso franco de hora em diante porque sei
que isso é essencial para dar uso ao que sou
darei conversa fácil
marcarei encontros rápido
trocarei telefones mesmo que goste muito do meu
darei beijos repenicados para que o barulho inspire outros
e se calhar de ele não querer entrar sorrio até encontrar
outro
e se calhar de entrar sem respeito pela minha casa peço-lhe
que saia sem o sorriso e abro a porta com outro sorriso para o seguinte
e se calhar de entrares tu faço-te uma tosta mista ou um pão
com manteiga
faço assim
pergunto antes Queres uma
tosta mista ou um pão com manteiga?
e tu dizes
Pode ser um pão com manteiga
eu percebo pela tua voz que tu disseste pão com manteiga porque não querias dar trabalho e faço-te uma
tosta mista
é assim que fazem os amigos
é assim que se fazem amigos
come antes que fique frio que eu vou ver se ainda tenho cerveja
Texto d' "O Manual da Felicidade" de João Negreiros
"Ode ao homem bom" - O Manual da Felicidade
Eu gostava
de gostar dos homens que gostam de mim mas os filmes e as amigas que me põem
triste disseram-me que os homens a sério são os que não gostam.
Li uma vez
numa revista ou vi numa fotografia dessa revista que os homens maus eram
charmosos. Eu nessa altura não sabia o que queria dizer charmoso mas pela
fotografia acho que era um homem que usava um cigarro como uma arma e que tinha
um carro grande muito difícil de estacionar.
Eu gostava
de gostar de um homem bom que me amasse incondicionalmente. Um homem que me
desse atenção que não soubesse jogar ao amor, nem jogar ao sexo, nem jogar às
paixões, nem jogar ao “vamos ver quem ama mais e vamos ver quem ama menos e
quem ama menos ganha e quem ama mais perde”.
Eu quero um
homem, não precisa de ser bonito para as revistas, nem precisa de ser bonito
nos outdoors, nem precisa de ser bonito para as minhas amigas tristes, só
precisa de ser bonito para mim.
Eu antigamente
achava que não conseguia controlar o amor. Achava que o amor não se escolhia e
que se me calhasse um cabrão para amar teria que ser infeliz com ele porque era
um bom partido. Tive o coração partido à conta do bom partido. Agora prefiro um
homem por inteiro.
Não vai ser
a vida a escolhê-lo para mim, nem a revista a escolhê-lo para mim, nem as
amigas tristes a escolheram-no para mim. O meu homem vou ser eu a escolhê-lo,
não vai ser amor à primeira vista, vai ser amor à primeira festa.
Vou escolher
o que souber sorrir, vou escolher o que me fizer rir, vou escolher o que me
fizer crescer, vou escolher o que me escolher ao mesmo tempo, vou escolher o
que for perfeito, não por ser perfeito, mas por me dar aquilo de que preciso.
Pela
primeira vez quero exactamente aquilo de que preciso. Preciso de um
companheiro, não preciso de um amante. Preciso de um porto, não preciso da
tempestade. Preciso de companhia, não preciso de ver filmes ruins sem ter quem goze
com eles.
Pode
conduzir um Fiat Punto, um Renault Clio, ou um Fiat Panda que comprou por 780
euros a uma tia solteira.
Eu quero um
homem bom. Os homens bons têm charme. Ainda não sei o que o charme é mas o meu
homem bom vai tê-lo.
Amo-te, meu
amor. Não sei quem és mas vejo-te com nitidez. Conheço-te como a mim e amo-te
para sempre com a certeza de quem percebeu finalmente que o amor só pode ser
uma coisa boa.
Texto d' "O Manual da Felicidade" de João Negreiros
quarta-feira, 8 de janeiro de 2014
"dedadas de lábios à janela"
toma o beijo da despedida como vinho do Porto
deixa-me correr ao lado da tua janela pelas águas e pelo ar como se fosses de comboio
e lanço-te os mais ardentes contra o vidro do avião
e o juntar dos lábios só perde pressão e querer com o fim do oxigénio
encosta-te ao vidro
ouve-os como o salmão a quem roubaram a nascente
e dedica-lhes o olhar da angústia
respeita os meus beijos que descolam
e faz um quase choro ciciante e fungado de quem era suposto ficar mais três meses
não te voltes logo para a voz do capitão
deixa o carrinho das sandes bolorentas
não ouças as instruções porque a emergência é agora
mais tarde vais ter memórias e vais querer mais esta para juntar
chora pelos meus beijos pára-quedistas kamikazes que soletram o teu nome à falta de ar
e pede à senhora do lado que faça um minuto de silêncio a cada intervalo do pânico
é que não sei se sabes mas os beijos que deram tanto e que se esforçaram tanto não são reutilizáveis
mesmo que os resgate cá em baixo das mãos dos telhados à volta dos aviões não posso fazer nada com eles
os beijos são inúteis como eu
os meus lábios desperdiçam-se por ti
o meu resto já o havia feito
boa viagem
espero que tenhas ficado do lado da janela
do livro "o acaso é um milagre" de João Negreiros
deixa-me correr ao lado da tua janela pelas águas e pelo ar como se fosses de comboio
e lanço-te os mais ardentes contra o vidro do avião
e o juntar dos lábios só perde pressão e querer com o fim do oxigénio
encosta-te ao vidro
ouve-os como o salmão a quem roubaram a nascente
e dedica-lhes o olhar da angústia
respeita os meus beijos que descolam
e faz um quase choro ciciante e fungado de quem era suposto ficar mais três meses
não te voltes logo para a voz do capitão
deixa o carrinho das sandes bolorentas
não ouças as instruções porque a emergência é agora
mais tarde vais ter memórias e vais querer mais esta para juntar
chora pelos meus beijos pára-quedistas kamikazes que soletram o teu nome à falta de ar
e pede à senhora do lado que faça um minuto de silêncio a cada intervalo do pânico
é que não sei se sabes mas os beijos que deram tanto e que se esforçaram tanto não são reutilizáveis
mesmo que os resgate cá em baixo das mãos dos telhados à volta dos aviões não posso fazer nada com eles
os beijos são inúteis como eu
os meus lábios desperdiçam-se por ti
o meu resto já o havia feito
boa viagem
espero que tenhas ficado do lado da janela
do livro "o acaso é um milagre" de João Negreiros
sexta-feira, 25 de outubro de 2013
É tudo meu
Um sítio é um sítio.
Um sítio terá eternamente o mesmo
paradeiro.
Um sítio não pode comprar bilhetes
de comboio ou tirar carta de condução porque um sítio não tem vontade de estar
noutro lado.
Os sítios não são piores por eu
estar lá nem fazem algo para me receber.
Quando eu chego a um sítio ele
recebe-me permanecendo.
A maneira que um sítio tem de me
saudar é ser a mesmíssima coisa.
Um sítio tem o significado que eu
lhe dou. Um sítio não sabe o que é um significado porque um sítio não pensa.
Eu escolho o que representam os
sítios por onde passo. Eu escolho o que significam os locais por onde vou e por
isso escolho, a partir de hoje, estar em casa para todo o sempre.
A partir de hoje respirarei em
todos os lugares como respiro em casa. A partir de hoje vou sorrir, e falar, e
comer, e gostar, e vencer, e existir como faço em casa.
O que um sítio me diz sem falar é isto:
- Põe-te à vontade. Faz como se
estivesses em casa. É como for melhor para ti. Faz como te der mais jeito… e se
precisares de alguma coisa já sabes… estou à tua disposição. Queres que te vá
buscar umas pantufas?
No outro dia pensei em sítios que
me fizeram mal e depois percebi a tremenda injustiça, a tremenda mentira. Nunca
uma árvore me lançou um sorriso irónico. Nunca uma vedação insultou a minha
mãe. Nunca um caixote do lixo me disse que estava feio. Nunca um poste me disse
que devia desistir. Nunca uma linha pintada no chão se riu de mim e nunca uma
rede me disse que eu não seria capaz.
Fui toda a vida tremendamente cruel
com alguns sítios por onde fui mas agora chega. Agora tenho os ouvidos
preparados para ouvir os verdadeiros significados e os sítios falam comigo e
dizem-me a verdade. A verdade é a que eu decido, a verdade é a que eu escolho,
a verdade é a que eu quero.
E de um momento para o outro todos
os locais do mundo por onde passo torcem por mim… e até se mexem por mim quando
a Terra gira. E quando chego ouço o que a minha cabeça mandou aos ouvidos.
E os galhos da árvore aplaudem-me
com o vento. E a vedação chia um elogio daqueles que nos fazem inventar forças.
E o caixote do lixo olha para mim e fica mudo com a admiração. E o poste diz-me
que lute. E a linha pintada no chão indica-me o caminho certo. E a rede diz que
é possível tudo o que eu quiser… e eu quero tudo… e tudo é muita coisa.
E a partir deste momento todos os
sítios são casas, e todos os lugares são o meu mundo, e todas as coisas, e
objectos e espaços são testemunhas do meu caminho que só pode ser de triunfo
porque é escolhido por mim.
Para mim escolho o melhor e até
mudar de planeta é tudo meu. Para mim escolho o melhor e até mudar de planeta é
tudo meu.
Texto d' "O Manual da Felicidade" de João Negreiros
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