sábado, 5 de novembro de 2011

V Prémio Internacional de Poesia ao Vídeo

"A tristeza" - poema de João Negreiros premiado.



A tristeza

A tristeza é uma irmã mais velha
que vive no quarto dos fundos           dos bolsos
sempre que não tenho trocos para lhe comprar uma cama de hotel
para poder vê-la feliz

as calças estão para lavar
as moedas tocam tambor
ou o leito de um rio que fica entre as almofadas do sofá

mana
vai-te embora que tenho saudades do meu quarto
quero dormir na minha cama

sabes
o sofá da sala tem um vale que me afunda as costas

mana
vá lá
pinta-te            sai à rua e arranja namorado

e tristeza partiu mesmo antes da morte chegar
o meu quarto está vazio              para sempre´

poema do livro "o cheiro da sombra das flores" de João Negreiros
à venda em livrarias e através de repeticao@gmail.com

sexta-feira, 21 de outubro de 2011

o nadador




o nadador


foi visto um burocrata morto por não saber nada
a boiar de bruços com a cabeça enterrada na água
a exercitar as guelras do ar podre que lhe construiu as palavras sinceras com
[que enganou quem conheceu ao longe          da janela do avião
e          de longe          acenou a todos os que conhecia levando na mão a mala
[que tinha as esperanças que todos tinham em si
bóia um ladrão morto e o estilo é pouco ortodoxo
não mexe braços nem pernas
não respira nem ergue a cabeça
não faz rotações de tronco
não se mexe nem um milímetro
foi já ultrapassado por todos os concorrentes
e a água vai ficando escura da tinta que vai na mala          onde se escreveram
[os nomes dos que lhe confiaram as vidas
na pista sete bóia um burocrata rico que fugiu com a esperança
e ninguém se atreve a resgatá-lo
é que dá medo de olhar
dá medo de saber a expressão que levava quando percebeu que não ia ganhar
todos os nadadores já saíram da água
todos os nadadores já secaram o cabelo
todos os nadadores já receberam as medalhas
todos os nadadores já vestiram os fatinhos-de-treino
todos os nadadores já choraram a bandeira
e um chorou ranho também com o hino
ele continua lá
a piscina vai fechar
as luzes apagaram-se
e o da pista sete não tem direito a medalha
nem pode ir às olimpíadas porque já ninguém confia nele
nem sequer para conseguir os mínimos
a pista sete está a transbordar com as palavras que lhe disseram os amigos
[que ele iludiu para depois desiludir
e foi o dono de um molhe delas
um dos donos dos molhos de palavras que lhe fez a folha
que lhe levou o ar emprestado para compensar o papel
foi um deles que lhe deu as mais exigentes aulas de natação
aquelas em que é impossível levantar a cabeça e em que temos que nadar
[sempre submersos até bater com a cabeça desesperada na parede que sabe a cloro

o burocrata bóia morto e quem o fez perder a prova foi um nome na pasta
há um nome a vermelho na pasta que está a esbater-se no mesmíssimo momento 
                                                                                                                     [da culpa

o melhor amigo matou-o
o que lhe fez mais festas
o que lhe gabou mais as notas dos filhos
o que mais lhe respeitou a esposa
o que mais brindes lhe fez em delicados reveillons
o melhor amigo matou-o
o melhor amigo matou-o
foi o único que não aguentou perdê-lo
percebê-lo
conhecê-lo
era o único que não sabia
era o único que estava quase a meter os papéis para se promover a irmão
o melhor amigo matou-o porque a maior tristeza só nos pode ser dada por
[quem amamos mais          e mais          e mais          neste infinito que termina desafiando 
[a lógica que nos disseram os livros e os filmes de domingo à tarde que vemos amparando [meninos

o burocrata bóia morto e está na boca do mundo defunto porque levou para longe          
                                             [numa pasta          as boas acções que se trocam agora por                                                                           [brinquedos que só dão aos filhos dos pobres

o burocrata bóia morto e afoga o melhor dos amigos


poema do livro "a verdade dói e pode estar errada" de João Negreiros,
à venda em livrarias e em http://www.saidadeemergencia.com/

quarta-feira, 28 de setembro de 2011

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

SpokenSong

Para quem não sabe... João Negreiros agora também canta!!! O projecto chama-se SpokenSong. Mistura spokenword, covers e originais. A voz é de João Negreiros e a guitarra do músico Júlio Fachada.


sábado, 6 de agosto de 2011

Luto



Luto

Lembras-te de ontem? Lembras-te. Lembras-te porque foi há pouco tempo mas… lembras-te mesmo de ontem? Dos pormenores de ontem? Do que te doeu ontem? Do que perdeste ontem? Da temperatura em que tiveste frio ontem? De quem tiveste medo ontem? Se calhar não te lembras tão bem. E se pedisse ao supervisor que te mostrasse a câmara de vigilância provavelmente nem te reconhecias porque, de ontem para hoje, fizeram-se grandes mudanças, enormes mudanças, e a maior foi aquela que te fez esquecer, e como esqueceste os pormenores esqueceste-te também do resto, e como não te lembras bem do que te fez mal deixas que o mal de ontem exista outra vez. E pior… e o pior é que hoje vais deixar que os que hoje são iguais a ti ontem sofram como tu sofreste.
Não tens dedos para contar as cicatrizes porque foram com os anéis… e sente-las no corpo… e sabes que são tuas mas não vais fazer nada para que o teu filho não fique com umas iguais porque achas que é natural que todos passem pelo mesmo, mesmo que o mesmo seja mesmo o que tu quiseste esquecer porque te rasgava por dentro como um verme gigante a quem deram licença para comer os órgãos internos.
E a tua vida já passou, e a dos teus amigos está quase, e agora vais para o alpendre, sentas-te na cadeira de praia que sonha com o mar e ficas a ver tudo outra vez, com o mesmo cheiro, a mesma humidade no corpo, os mesmos gritos, a mesma esperança e o mesmo desespero. E há momentos em que estás quase, quase a levantar-te da cadeira mas tens o rabo tão pesado como a consciência, a voz tão presa como a imaginação, o olhar tão frio como o almoço no frigorífico.
E vendeste a televisão porque do alpendre vê-se tudo com melhor imagem que a digital. É uma imagem com relevo, com vozes que nos arrepiam a espinha, com nomes que percebemos nas entrelinhas por serem filhos dos nossos amigos. E é este o programa da manhã… e o da tarde também… e de certeza que, à noite, também deve haver concursos mas é demais para mim. O dia é longo demais para mim por isso deito-me cedo, com os olhos abertos e o corpo no escuro, a pensar que amanhã será um dia diferente para os novos que eu não quero ajudar e o mesmo para mim, o mesmo para mim. Será sempre o mesmo para mim porque nunca o quis diferente para os outros. E como a felicidade nunca me bateu à porta agora já não a quero. E se ela um dia chegar e subir ao meu alpendre, por engano, e perguntar a direcção de mim… mais novo… que não sou eu… não afastarei os cardos que tapam a campainha.
Aqui sentado, aqui morto e taciturno luto pela igualdade, luto preservando tudo o que o mundo oferece para que todos recebam o que eu recebi, nada.

poema do livro "luto lento" de João Negreiros, à venda em livrarias e em https://www.buknet.pt/?op=pesquisa&pesquisa=jo%E3o+negreiros&t=2

domingo, 17 de julho de 2011

Botão de campainha

Interpretação do poema "Botão de campainha", do livro "o cheiro da sombra das flores" de João Negreiros, pelo actor do Teatro Universitário do Minho Agostinho Silva.


Não há flores na campa do Narciso
não há flores na campa da Margarida                       porque morreu a florista
não há quem os regue com o sal das lágrimas
não há quem os lave com a água dos olhos
não há quem afaste os cardos com esse ancinho ancião que coçava as costas dos finados

a Rosinha morreu
a Rosinha morreu e a irmã mais velha chora de secura a sua lápide
o seu jazigo de suores frios

e todas as flores estão secas               mortas             salgadas
e nada podem fazer pelos mortos que estão moribundos

a florista morreu e o cemitério está vivo

os mortos levantaram-se para consolar as flores
   
Poema do livro "o cheiro da sombra das flores" à venda em livrarias