quarta-feira, 28 de setembro de 2011
quinta-feira, 22 de setembro de 2011
SpokenSong
Para quem não sabe... João Negreiros agora também canta!!! O projecto chama-se SpokenSong. Mistura spokenword, covers e originais. A voz é de João Negreiros e a guitarra do músico Júlio Fachada.
sábado, 6 de agosto de 2011
Luto
Luto
Lembras-te de ontem? Lembras-te. Lembras-te porque foi há pouco tempo mas… lembras-te mesmo de ontem? Dos pormenores de ontem? Do que te doeu ontem? Do que perdeste ontem? Da temperatura em que tiveste frio ontem? De quem tiveste medo ontem? Se calhar não te lembras tão bem. E se pedisse ao supervisor que te mostrasse a câmara de vigilância provavelmente nem te reconhecias porque, de ontem para hoje, fizeram-se grandes mudanças, enormes mudanças, e a maior foi aquela que te fez esquecer, e como esqueceste os pormenores esqueceste-te também do resto, e como não te lembras bem do que te fez mal deixas que o mal de ontem exista outra vez. E pior… e o pior é que hoje vais deixar que os que hoje são iguais a ti ontem sofram como tu sofreste.
Não tens dedos para contar as cicatrizes porque foram com os anéis… e sente-las no corpo… e sabes que são tuas mas não vais fazer nada para que o teu filho não fique com umas iguais porque achas que é natural que todos passem pelo mesmo, mesmo que o mesmo seja mesmo o que tu quiseste esquecer porque te rasgava por dentro como um verme gigante a quem deram licença para comer os órgãos internos.
E a tua vida já passou, e a dos teus amigos está quase, e agora vais para o alpendre, sentas-te na cadeira de praia que sonha com o mar e ficas a ver tudo outra vez, com o mesmo cheiro, a mesma humidade no corpo, os mesmos gritos, a mesma esperança e o mesmo desespero. E há momentos em que estás quase, quase a levantar-te da cadeira mas tens o rabo tão pesado como a consciência, a voz tão presa como a imaginação, o olhar tão frio como o almoço no frigorífico.
E vendeste a televisão porque do alpendre vê-se tudo com melhor imagem que a digital. É uma imagem com relevo, com vozes que nos arrepiam a espinha, com nomes que percebemos nas entrelinhas por serem filhos dos nossos amigos. E é este o programa da manhã… e o da tarde também… e de certeza que, à noite, também deve haver concursos mas é demais para mim. O dia é longo demais para mim por isso deito-me cedo, com os olhos abertos e o corpo no escuro, a pensar que amanhã será um dia diferente para os novos que eu não quero ajudar e o mesmo para mim, o mesmo para mim. Será sempre o mesmo para mim porque nunca o quis diferente para os outros. E como a felicidade nunca me bateu à porta agora já não a quero. E se ela um dia chegar e subir ao meu alpendre, por engano, e perguntar a direcção de mim… mais novo… que não sou eu… não afastarei os cardos que tapam a campainha.
Aqui sentado, aqui morto e taciturno luto pela igualdade, luto preservando tudo o que o mundo oferece para que todos recebam o que eu recebi, nada.
poema do livro "luto lento" de João Negreiros, à venda em livrarias e em https://www.buknet.pt/?op=pesquisa&pesquisa=jo%E3o+negreiros&t=2
domingo, 17 de julho de 2011
Botão de campainha
Interpretação do poema "Botão de campainha", do livro "o cheiro da sombra das flores" de João Negreiros, pelo actor do Teatro Universitário do Minho Agostinho Silva.
Não há flores na campa do Narciso
não há flores na campa da Margarida porque morreu a florista
não há quem os regue com o sal das lágrimas
não há quem os lave com a água dos olhos
não há quem afaste os cardos com esse ancinho ancião que coçava as costas dos finados
a Rosinha morreu
a Rosinha morreu e a irmã mais velha chora de secura a sua lápide
o seu jazigo de suores frios
e todas as flores estão secas mortas salgadas
e nada podem fazer pelos mortos que estão moribundos
a florista morreu e o cemitério está vivo
os mortos levantaram-se para consolar as flores
Poema do livro "o cheiro da sombra das flores" à venda em livrarias
segunda-feira, 11 de julho de 2011
épico como o teu rosto
épico como o teu rosto
Poema do livro "a verdade dói e pode estar errada", de João Negreiros, à venda em livrarias e em www.saidadeemergencia.com
quero o gozo de quem chora por amor
quero já como quem recebe um favor
rasga-me a camisa para não falar para os botões
e não ouças que eu não sou de opiniões
encurta-me a espera
entra-me no corpo já
lambe-me como quem se esmera
vou fingir que até estou cá
é que às vezes vou p’ra longe
p’ra uma terra que tu não sabes
fico lá a fazer de monge
e és tão linda que não cabes
adio-nos o encontro
dedilho-te um adeus
esses beijos todos meus
vais fazê-los com outro
rasgas-me o sangue
de um rubro negro que vai ter fim
e hei-de ficar exangue
quando morrer juntas-te a mim
iremos juntos à morte
a bordo de um cavalo cego
ver se nos querem na corte
estou vivo mas às vezes nego
Poema do livro "a verdade dói e pode estar errada", de João Negreiros, à venda em livrarias e em www.saidadeemergencia.com
quarta-feira, 6 de julho de 2011
o interruptor
Interpretação do poema "o interruptor", do livro "a verdade dói e pode estar errada" de João Negreiros, pela actriz do Teatro Universitário do Minho Ana Catarina Miranda.
o interruptor
Poema do livro "a verdade dói e pode estar errada", de João Negreiros, à venda em livrarias e em www.saidadeemergencia.com
o interruptor
hoje quando estava a sair de casa olhei para o relógio e percebi que devias estar p’ra chegar
e então deixei a luz da cozinha acesa porque é a que gasta menos para que não encontrasses a casa às escuras na chegada
mas depois pensei melhor
ao chegares vendo a luz acesa podias pensar que eu estava em casa a fazer-te uma sandes de atum ou um cachorro e ias ficar desiludida
porque eu estou a sair
e quando chegares já me fui
e vais sentir a mostarda ou a maionese no canto da boca mas vai ser mentira
por isso para não te desiludir saio deixando atrás de mim a casa escura
para não te magoar
Poema do livro "a verdade dói e pode estar errada", de João Negreiros, à venda em livrarias e em www.saidadeemergencia.com
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