quarta-feira, 18 de março de 2015

João Negreiros apresenta o seu mais recente projecto "O Manual da Felicidade", acompanhado pelos excelentes músicos Edgar Ferreira e Pedro Lima, no Teatrinho da Régua, dia 19 de Março, às 15h. Apareçam!


domingo, 15 de março de 2015

O mar que a gente faz

Era um menino que não sabia nadar e o mar feito à tona e à medida para gente que boiava sem esforço.
O menino chama-se Sargo e o mar não tem nome por ser grande e o que tem está esquecido no mapa. Sargo é nome de peixe e aí começa a história.
A família estava junta, como os irmãos quando se entendem, com o menino enrugado no meio. E esse menino ria e sorria como nunca um recém-nascido fizera. E a família ria e sorria, mas era um sorriso engelhado e um riso nervoso.
Porque ria tanto aquele bebé? Não tinha saudades do cordão? Não tinha saudades do útero mole e húmido como as alforrecas? Não, não tinha. Tinha um ar redondo e feliz e a família afeiçoava-se aos risos pequeninos. E de noite, quando os pais novos não podem dormir, ele embalava-os com sonos profundos e soninho às gargalhadas. 

Excerto do livro "O mar que a gente faz" de João Negreiros


domingo, 8 de março de 2015

felicidade por defeito


"felicidade por defeito" in "livro de canções" de João Negreiros

Letra e voz - João Negreiros
Guitarra - Edgar Ferreira
Composição - Benjamim Vaz

Co-produção: Bolor Teatro e Teatro Universitário do Minho
Apoios: Intituto Português da Juventude; Universidade do Minho; Centro de Pesquisa e Interacção Cultural


felicidade por defeito

respirar é o ritual
que não sabes fazer mal
é uma técnica que funciona até adormecida
o mentecapto decora
é p’ra dentro e para fora
como tudo na vida

no nascimento está a razão
para se andar aqui
ando a estudar essa emoção
desde o dia em que nasci

quando esqueces ofegante
quando te perdes de ti
se estrebuchas louco e errante
inspira-te que eu já sabia quando nasci

no nascimento está a razão
para se andar aqui
ando a estudar essa emoção
desde o dia em que nasci

se te disserem que o fazes mal
diz nasci a saber
se te disserem que o fazes bem
diz que foste lá atrás ver

se o que tinhas à partida
não estava estragado
manda embora quem te mandou fora
e te pôs em nenhum lado

no nascimento está a razão
para se andar aqui
ando a estudar essa emoção
desde o dia em que nasci

diz lá
gostas de respirar?
estás cansado de respirar?
tens vergonha de respirar?
não me digas que tens saudades
mesmo saudades da falta de ar
saudades da cabeça dentro d’ água
saudades da culpa e do sofrimento e da mágoa
se quiseres mesmo vou ali e trago-a

no nascimento está a razão
para se andar aqui
ando a estudar essa emoção
desde o dia em que nasci

tens saudades do que está longe?
a sério?
nesse convento és o único monge
essa clausura é p’ra mim mistério
saudades só sei ter do que está bem perto
abraçar o que está à mão é o único vício certo

no nascimento está a razão
para se andar aqui
ando a estudar essa emoção
desde o dia em que nasci

in "livro de canções" de João Negreiros

quarta-feira, 4 de março de 2015

as pessoas que quero p'ra mim


"as pessoas que quero p'ra mim" in "livro de canções" de João Negreiros

Letra e voz - João Negreiros
Guitarra - Edgar Ferreira
Composição - Benjamim Vaz

Co-produção: Bolor Teatro e Teatro Universitário do Minho
Apoios: Intituto Português da Juventude; Universidade do Minho; Centro de Pesquisa e Interacção Cultural

as pessoas que quero p’ra mim

quero primeiro quem mais eu queria
quero primeiro quem eu mais queria
quero primeiro como a mãe faz à cria

as pessoas que gostam de mim
são as pessoas que quero p’ra mim
isto é mágico como compota sem aditivos
isto é básico como elogios com adjectivos

as pessoas que gostam de mim
são as pessoas que quero p’ra mim
isto é sincero como a luz do dia
e ao meu lado só quero a gente que mais eu queria

as pessoas que gostam de mim
são as pessoas que quero p’ra mim

as pessoas que gostam de mim
são as pessoas que quero p’ra mim

não são pessoas reles
juntos trocamos peles
riem-se do que eu digo
e não do que eu penso
seguem-me por onde sigo
e o caminho nem é tão denso

essa gente que me amolece o muro
que tenho que quebrar na missão
estão comigo e eu  juro
que nunca lhes vou largar da mão

a não ser para endireitar os óculos
ou coçar o nariz
e os dedos grudam-se em ósculos
e estou com eles até à raiz

as pessoas que gostam de mim
são as pessoas que quero p’ra mim 

in "livro de canções" de João Negreiros

terça-feira, 17 de fevereiro de 2015


Poema do livro "o amor és tu" de João Negreiros

domingo, 1 de fevereiro de 2015

Entrevista na SIC Mulher


Entrevista de João Negreiros no programa "Mais Mulher" do canal SIC Mulher apresentado por Ana Rita Clara (19/01/2015).

Texto dito no final da entrevista:

"Dizes o que pensas de quem amas?"

Sabes o que pensas de quem amas.
Dizes o que pensas de quem amas?
Sabes o que dizes de quem amas.
Amas o que dizes de quem amas?
Pensas o que dizes de quem amas?
Não precisas de pensar quando dizes o quanto amas.
O amor traduzido para palavras dá ao amor voz e às palavras utilidade.
Para a violência há gestos que chegue.
Para o amor são precisas palavras exactas que não confundam os amados com gestos dúbios.
Se amas diz para ser mais forte.
Se gostas… gosta com sons que a tua língua sempre teve para ti.
Pega em palavras escolhidas. São as mesmas que todos usam mas têm a combinação particular da tua voz e da tua mente.
E, para além disso, vê o bom em tudo porque em tudo há o bom. Sabes que vendo o bom vês o início da bondade? Mudas uma letra e tens caminho aberto para fazeres a vida melhor. Queres a vida melhor?
Então se queres diz. Diz alto. Diz com palavras perfeitas que são exactamente aquelas que te vêm à cabeça no primeiro impulso.
O teu primeiro impulso sempre foi bom.
Sabes que nasceste com a certeza do que estava certo. E certo… certo é seres feliz e gritares isso… ou murmurares isso… ou urrares isso… ou celebrares isso.
Se nasceste a chorar foi porque te bateram, não porque fosse impulso verdadeiro. Ninguém te bate agora. Agora querem-te como estavas para nascer. Querem-te rindo e esperneando por um ar melhor que enche os pulmões de algo que é a vida. A vida és tu e nós queremos ouvi-la como ela é. Como tu és.
Dá abraços que fazem falta a quem anda perdido e em busca de ser amarrado. Dá beijos a quem for seco. Diz carinhos a quem já os tem porque demais é só a tristeza… felicidade em demasia é como calor a mais quando está frio, lume a mais quando apagou, sol a mais quando é Inverno, Lua a mais quando é de noite, certezas a mais quando se hesita, cola a mais quando não pega, força a mais quando não podes, coragem a mais quando tens medo.
Tu nasceste a sorrir e a dizer coisas lindas. Se choraste e se começaste a falar tarde foi porque não te deixaram. Agora deixo-te eu para fazeres aquilo a que estavas destinada.
Sorri como vinhas para fazer. Diz o doce que tinhas preparado e nas palavras serás a pessoa que já és no resto. No resto és a vida… nas palavras és agora tudo o que falta.
Fala agora o amor que andaste a adiar e que vem no momento certo.
Este é o momento certo.
Diz coisas lindas que a bondade sem ti não tem piada nenhuma.

Texto d' "O Manual da Felicidade" de João Negreiros