terça-feira, 25 de novembro de 2014
domingo, 23 de novembro de 2014
"Isso mesmo"
Isso mesmo
Não posso pensar no que os outros
pensam.
Posso então não pensar no que os
outros pensam?
Não, porque quando penso em não
pensar no que os outros pensam acabo por pensar no que os outros pensam… ou no
que eu penso que os outros pensam de mim.
Pensar no que os outros pensam de
mim sem ouvir os outros deve ser o que acho de mim… ou então o que acho que
ouvi de mim… quando os outros estavam calados.
Os outros são muita gente porque
os outros são todos os outros e deve haver outros para todos os gostos. E os
gostos deles devem gostar e não gostar de mim, perceber e não me perceber,
conhecer-me e não me conhecer.
Os outros que não me conhecem não
sabem quem sou… mas penso neles como se os conhecesse.
Pensar numa coisa faz a coisa
existir e não pensar faz não existir. Se uma coisa não existe passa a existir
no passado ou na imaginação e isso dá no mesmo, o mesmo sou. Eu sou sempre eu
porque sou muito parecido com quase tudo o que sei.
Sair à rua é um processo passível
de apresentar inúmeras conjecturas e dissertações e isso é profundamente… isso
é profundamente… isso é profundamente… isso é profundamente uma merda.
A profundidade do que não sei é a
mais fútil verdade, a profunda mentira.
A sabedoria de quem não sabe do
que fala é a estupidez traduzida para gambuzinos.
Quem não me conhece pode pensar
no que sou mas não tem acesso à informação porque o único detentor da
informação sobre a minha pessoa sou eu, que sou a única pessoa que pode ser
minha.
Pensa de mim o que quiseres, não
existe.
Faz de mim o que for, não serei.
Diz de mim o que achares, não me
conheces.
Olha para mim como se soubesses,
não me vês.
Define-me… não há palavras.
Ilustra-me… sou um livro sem
bonecos.
Pinta-me… sou um livro de colorir
que passou por todas as mãos do jardim-de-infância.
Apresenta-me… só eu sei o meu
verdadeiro nome.
Marca-me… só eu tenho acesso à
minha pele.
Explora-me… sou deserto.
Penso de mim o que quero e sou
isso mesmo.
Penso de mim o que quero e sou
isso mesmo.
Penso de mim o que quero e sou
isso mesmo… isso mesmo… isso mesmo… isso mesmo…
Texto d' "O Manual da Felicidade" de João Negreiros
quarta-feira, 12 de novembro de 2014
Há espaço para mim no cume
Há espaço para mim no cume
Se escalasses o maior pico da
maior montanha serias capaz de parar três metros antes e voltar para o
quentinho?
Se fosses à Lua preferias ficar
dentro da cápsula espacial a ver desenhos animados ou a jogar paciências sem
gravidade?
Se fosses campeão do Mundo preferias
ser do Mundo todo ou abdicavas de parte dele só para deixar países de fora da
tua excelência?
Se estivesses quase quase, eras capaz
de dizer “pronto, pronto”?
Se estivesses quase a chegar eras
capaz de dizer “pronto, já chega”?
Se fosses mesmo crente numa coisa
serias só crente na intempérie, na borrasca, na adversidade, na procela, no
desespero?
Não eras capaz de crer também no
céu mais claro a cheirar a terra molhada, no chá para a garganta roufenha, no
sorriso e na vitória?
Ganhar é desconfortável? Faz-te
comichão? Dá-te vontade de voltar para o quentinho e de não espetar a bandeira
no cume mais improvável?
Ganhar abre o problema da
habituação. Se começas a ganhar e a vencer, que é a mesma coisa, tornas-te
repetitivo e depois não sabes fazer outra coisa. E vais ter menos coisas em
comum com quem perde.
Queres um comprimido? Queres um xanax para te acalmar esse punho no ar a
brandir vitórias? Queres um cobertor? Um programa de sábado à noite gravado
para não pensares mais nisso? Queres um cérebro de um babuíno para não veres
mais do que um banana?
Ó pá! Deixa-te de merdas e ganha!
Ganha agora, ganha depois, ganha ontem, ganha sempre.
E se perderes… ganha. E se te
custar ganha. E se não gostarem de ti ganha. E se gostarem ganha. E se
continuarem a gostar ganha. E se te admirarem ganha. E se te desprezarem ganha.
E se fores feio ganha pela beleza. E se fores bonito ganha para ficares feio, e
a cheirar mal e cheio de inimigos, mas vencedor como aquele que faz o seu
destino ao mesmo tempo que faz o resto.
Ganha até que não saibas nada
para além disso. Ganha até que não seja ganhar. Ganha até que seja andar,
respirar ou outra coisa tão real como estar.
E quando te disserem o que quer
que seja tu responderás o que for porque a vitória não tem significado, é
apenas aquilo para que te levantas todos os dias.
E se o sucesso for menos
interessante e enigmático que o falhanço e a tristeza, tens razão. O sucesso é
um sítio simples como tudo o que se percebe… e tu só percebes isto: ganha
sempre até que a vitória seja o início.
Texto do livro "O Manual da Felicidade" de João Negreiros
terça-feira, 11 de novembro de 2014
quinta-feira, 6 de novembro de 2014
Amo-te por fim e isto é só o início
Ontem abracei a minha mãe enquanto ela remexia o estrugido para
não queimar a cebola e ela disse:
- Deixa-me, filha que agora estou a fazer o jantar.
E eu disse:
- Não tenho fome.
E ela disse:
- Olha que queima.
E eu disse:
- Gosto do cheiro a cebola queimada nos teus braços. Amo-te
de cebolada, mãe.
Ontem abracei a minha filha e ela disse que a deixasse em
paz.
Deixei-a em paz e esperei em paz por um segundo melhor em
que ela quisesse mais e precisasse mais de outro abraço.
Olhei com atenção e o segundo chegou rápido. Abracei-a então
com mais carinho ainda e com um abraço que escolhi à medida do corpo que ela
trazia na altura.
Eu gosto de dar o que os outros pedem, e querem, e precisam,
e sentem, e merecem.
Para a minha filha, para a minha mãe dou o que sinto como
sentiria se fosse este o último segundo de a ver.
Se estivesse a ver a minha pela última vez, se estivesse a
ver a minha pela última vez dizia:
Gosto de ti para sempre porque um segundo é coisa pouca.
Mas sei que esta não é a última e isso é bom.
Esta vez não é a última mas é como se fosse porque na última
posso não ter oportunidade.
Vou amar-te quando não estiveres mas amar-te-ei mais quando
estiveres comigo.
Porque não sei como será o fim e porque não quero saber, a
partir deste dia, direi o amor a quem amo como faço a mim própria quando gosto
muito de mim.
Gostar de quem está perto e é bom para mim é a segunda
melhor maneira de ser bom para mim.
A primeira é gostar de mim como um beijo no espelho.
Nunca digo à minha mãe que a amo porque sei que ela sabe,
mas como sei que ela gosta de ouvir digo à mesma como se não soubesse.
Nunca digo à minha filha que a amo porque sei que ela sabe,
mas como sei que ela gosta de ouvir digo à mesma como se não soubesse.
O amor só se sabe quando se tem a certeza e para se ter a
certeza é preciso dizê-lo e repeti-lo muitas vezes até se saber de cor.
O amor só sabe bem quando se sabe de cor.
Decorei isto para ti, mãe… espero que gostes.
Decorei isto para ti, filha… espero que gostes.
Texto do livro "O Manual da Felicidade" de João Negreiros
domingo, 2 de novembro de 2014
a terra da verdade
eu
só queria que o mundo fosse de toda a gente
de
todos
dos
bons
dos
maus
e
dos outros
gostava
que o mundo pertencesse aos vivos
mas
que os mortos também o pudessem visitar
não
em dias marcados
mas
nos dias em que lhes apetecesse aparecer
que
o dia de finados é muito curto para lembrar os que foram para a terra da
verdade
eu
queria que o mundo fosse de toda a gente
de
todos
dos
belos
dos
feios
e
dos outros
dos
outros que tu só sabes se são se os conheceres bem até lá adivinhas-lhes a
[beleza espreitas-lhes a fealdade
e
depois há aqueles que nos poupam o trabalho são feios à partida ou belos
[à
partida
e
aí é muito fácil
não
temos que perder tempo a ouvir o que dizem e a ver o que fazem
são
bonitos e pronto
são
feios e pronto
e
aos bonitos damos tudo
abrimos-lhes
a porta da nossa casa
as
casas da nossa camisa
e no fim casamos com eles
e
depois percebemos que já é tarde demais
e
que ficaram pançudos
e
perderam o cabelo e a moral
se
bem que isso é um pormenor
os
feios também nos poupam trabalho
mas por outro lado dão-nos muito
e
quando os dizemos dizemos eles
porque são todos iguais
quando
batemos batemos neles porque são
todos iguais
quando
matamos matamos neles o que é nosso
e
eles depois já não voltam
vão
para a terra da verdade
e
quando nos perguntam se fomos nós
mentimos
e
o mundo é de todos mas tem dias
o
mundo é nosso e dos outros também
e
é bem melhor ser dono de alguma coisa do que também ser dono de alguma coisa
o
também significa que nos deixam estar
que
até nem lhes causa qualquer tipo de transtorno o facto de respirarmos
mas
o facto de respirar faz-me ficar aflito porque o ar que me inunda as narinas
não é
[meu é deles
e
eles são belos e eu não
e
o meu ar é emprestado
e
é só por uns dias porque um dia vou ter que o devolver
e
a minha vida vai ficar mais rarefeita
e
vou ser um asmático no topo de uma montanha com muito frio
com
muito sono
e
recosto-me
e
abraço o boneco de neve que me jurou fidelidade eterna
e
adormeço no quente do gelo e
pronto
e
agora o mundo tem dias em que posso voltar e fazer uma visita
e
todos são bons para mim
e
todos dizem que eu não merecia o meu destino mas o ar está caro
o
mundo devia ser de todos mas a
verdade é que foi feito apenas para os que
[respiram
e
só os outros conhecem a verdade
a
verdade está e estará sempre na boca de um defunto que nunca esteve para nascer
poema do livro "luto lento" de João Negreiros
Subscrever:
Mensagens (Atom)



