terça-feira, 10 de junho de 2014

O emprego das palavras

gosto de trabalhar
faz bem
a mim e aos outros           que também trabalham            até que se apaixonam

as pessoas gostam de paixão no trabalho
pena que não trabalhem com paixão


mal empregado amor


poema do livro "o cheiro da sombra das flores" de João Negreiros

quinta-feira, 5 de junho de 2014

Texto d' "O Manual da Felicidade"

Sabes o que pensas de quem amas.
Dizes o que pensas de quem amas?
Sabes o que dizes de quem amas.
Amas o que dizes de quem amas?
Pensas o que dizes de quem amas?
Não precisas de pensar quando dizes o quanto amas.
O amor traduzido para palavras dá ao amor voz e às palavras utilidade.
Para a violência há gestos que chegue.
Para o amor são precisas palavras exactas que não confundam os amados com gestos dúbios.
Se amas diz para ser mais forte.
Se gostas… gosta com sons que a tua língua sempre teve para ti.
Pega em palavras escolhidas. São as mesmas que todos usam mas têm a combinação particular da tua voz e da tua mente.
E para além disso vê o bom em tudo porque em tudo há o bom. Sabes que vendo o bom vês o início da bondade? Mudas uma letra e tens caminho aberto para fazeres a vida melhor. Queres a vida melhor?
Então se queres diz. Diz alto. Diz com palavras perfeitas que são exactamente aquelas que te vêm à cabeça no primeiro impulso.
O teu primeiro impulso sempre foi bom.
Sabes que nasceste com a certeza do que estava certo. E certo… certo é seres feliz e gritares isso… ou murmurares isso… ou urrares isso… ou celebrares isso.
Se nasceste a chorar foi porque te bateram, não porque fosse impulso verdadeiro. Ninguém te bate agora. Agora querem-te como estavas para nascer. Querem-te rindo e esperneando por um ar melhor que enche os pulmões de algo que é a vida. A vida és tu e nós queremos ouvi-la como ela é. Como tu és.
Dá abraços que fazem falta a quem anda perdido e em busca de ser amarrado. Dá beijos a quem for seco. Diz carinhos a quem já os tem porque demais é só a tristeza… felicidade em demasia é como calor a mais quando está frio, lume a mais quando apagou, sol a mais quando é Inverno, Lua a mais quando é de noite, certezas a mais quando se hesita, cola a mais quando não pega, força a mais quando não podes, coragem a mais quando tens medo.
Tu nasceste a sorrir e a dizer coisas lindas. Se choraste e se começaste a falar tarde foi porque não te deixaram. Agora deixo-te eu para fazeres aquilo a que estavas destinada.
Sorri como vinhas para fazer. Diz o doce que tinhas preparado e nas palavras serás a pessoa que já és no resto. No resto és a vida… nas palavras és agora tudo o que falta.
Fala agora o amor que andaste a adiar e que vem no momento certo.
Este é o momento certo.

Diz coisas lindas que a bondade sem ti não tem piada nenhuma.

Texto do livro "O Manual da Felicidade" de João Negreiros

segunda-feira, 12 de maio de 2014

"a cidade dos tristes" de João Negreiros

Texto vencedor do Prémio Nuno Júdice 2009



a cidade dos tristes

a cidade dos parvos
não tem muito para rir
os burros e os asnos
só sabem carpir

e é tão longe
tão longe a saída
deixo o cérebro à chegada
e a beleza à partida

já nem sei bem o nome
que me deram meus pais
de ouvir os queixumes
já decorei os ais

e é tão longe
tão longe a saída
deixo o cérebro à chegada
e a beleza à partida

estou velho e comido
desde que estou aqui
e este bolso descosido
é um buraco negro nazi

mas estes escolhos
não me fazem tropeçar
e invento comboios
para partir a voar

e caio em mim
como quem se encontra
querem-me um manequim
mas eu parto a montra

na cidade dos tristes
só dá mesmo para rir
no começo desistes
do que vais conseguir

e é tão longe
tão longe a saída
deixo o cérebro à chegada
e a beleza à partida

e já sentes o cancro
caminhar-te no bucho
e vocês são o caroço
que com bisturi puxo

e é tão longe
tão longe a saída
deixo o cérebro à chegada
e a beleza à partida

qual notícia de médico
o teu caminho é triste
como um cego amnésico
esquece tudo o que viste

e vai de novo ao teu encontro
como quem beija um gémeo
que o destino já está pronto
e o amor-próprio é um prémio

e é tão longe
tão longe a saída
deixo o cérebro à chegada
e a beleza à partida

deixo o cérebro à chegada
e a beleza à partida

deixo o cérebro à chegada
e a beleza à partida

João Negreiros 

sábado, 26 de abril de 2014

Excerto d' "O Sol Morreu Aqui"

"Pedir ajuda a quem não está é a maneira que o ser humano arranja para adiar ajudar-se a si próprio. Chamar por alguém que não está é o que se faz quando temos batalhas interiores para travar."

in "O Sol Morreu Aqui" de João Negreiros

segunda-feira, 21 de abril de 2014

Excerto d' "O Sol Morreu Aqui"

Há pessoas sãs que acreditam em cada coisa! E há pessoas desvairadas que acreditam em coisas lindas e exactas. E há pessoas sãs de cabeça e de corpo que não acreditam em nada, nem no ar, nem nos bichos, nem nos corpos, nem em nada. Todos têm medo da estranha por estar a começar a deixar de o ser, mas o contrário é a tristeza. É melhor a desgraça ou a tragédia que a tristeza. Na tristeza não acontece nada. Na desgraça ou na tragédia ainda a gente se entretém.
A Lúcia filha, que é para todos Lu, diz juntando-se à festa:
- Se a Dona Noémia não se importa eu não me importo e se a Vera quer tanto acho que devíamos tratar dos papéis para termos a Dona Noémia como avó.

E agora está também a Lu senil e a senilidade em idades tão jovens é a verdade e, por isso, todos se tranquilizam e entram na festa apesar de só haver chá preto, bolacha Maria, bolacha torrada e compota a compor tudo aquilo.


Excerto do livro “O Sol Morreu Aqui” vencedor do prémio literário internacional Dias de Melo de 2012. 

domingo, 20 de abril de 2014

Excerto d' "O Sol Morreu Aqui"

A casa tem saudades dos que lá estiveram mas tenta não se lembrar deles. Foi a maneira que arranjou de evitar um sentimento que desmoronasse. A casa é muito inteligente. Tenta encolher as arestas onde se possa esconder maldade. Tenta arredondar bicos de mobília, tenta comer borbotos que piquem em almofadas fofas, tenta engolir o pó que faça as pessoas tossir impropérios. A casa é muito inteligente e faz tudo para evitar o destino, o destino é destituído e não quer saber mas a casa há-de manter-se de pé, lutando por um futuro melhor. Se as pessoas e os bichos e as plantas que são a vida não evitam a maldade, porque não hão-de os objectos inanimados tentar a sua sorte? Porque não? Porque não? Porque não? Porque não? Os colchões em roupa interior vão para as varandas já secas e apreciam a vista que o pudor permite. A Primavera tosse um líquido viscoso por todos os orifícios e vê-se morrer e a secar para dar lugar a algo melhor e mais radiante. As escadas descem-se melhor sem poeiras. Tapetes feitos de muito tempo conversam pendurados numa corda de estendal e copos de pé que estão por decoração são lavados com o detergente a tomar as vezes do álcool. Passarinhos pousam no recheio lá fora e tecem considerações pelo progresso não ter vindo por aquelas bandas dar conta deles e de tudo o resto. Depois as almofadas, lençóis, fronhas, colchas e toalhas fazem uma viagem em filas de cestos até à lavandaria e nela conversam sobre a actualidade. Como passaram a vida em gavetas, as conversas são curtas e inexistentes. Cheira a lavado. O cheiro a lavado, para quem é da cidade, pode ser facilmente confundido com Primavera, natureza, ar puro, felicidade ou algo muito bom para sobremesa.



Excerto do livro “O Sol Morreu Aqui” vencedor do prémio literário internacional Dias de Melo de 2012.