O romance “O Sol Morreu Aqui”
venceu o prémio literário internacional Dias de Melo de 2012. O júri,
constituído por personalidades de reconhecido mérito literário, foi unânime em
considerar a obra de João Negreiros merecedora do prestigiado galardão, tendo
decidido também apoiar a sua edição. Os membros do júri consideraram que o
romance vencedor será “um marco importante na literatura portuguesa", sendo uma obra de “inegável valor literário
muito superior à maior parte das que se vão publicando em Portugal”. “O
originalíssimo narrador auto reflexivo e subversor da própria narrativa que
controla, embora finja muitas vezes que ela se lhe escapa; o desconcertante
clima surrealista num livro de sabor realista; a lúcida dimensão ética
que assume; a forma como, a partir de várias histórias que correm em
paralelo, acaba por as tornar numa unidade narrativa; a ironia de uma eficácia
rara”; foram algumas das razões apontadas pelo júri, para declarar a
obra como vencedora do concurso.
sábado, 19 de abril de 2014
sexta-feira, 18 de abril de 2014
"O que eu sou é a felicidade de estar viva" - O Manual da Felicidade
Gostava de
sair à rua com um decote até ao chão. Um decote que mostrasse tudo, o cu, as
mamas, o resto, tudo, até ao chão, até estar nua se não estivesse frio. Se
estivesse frio podia estar quentinha vestida com meia-calça mas toda nua por
dentro da meia-calça e da camisola interior.
Gostava de
poder andar nua na rua no Verão e poder olhar para os homens sem precisar de
ter medo de eles olharem para mim.
Gostava de
me chamar “o que é que foi, nunca viste?”.
Gostava que
a rua fosse minha e que na minha rua os homens fossem cavalheiros paternos que
não aprenderam o paternalismo.
Gostava de
me poder rir como as adolescentes, nunca me ri como uma adolescente. Adoro o
riso das adolescentes. Nunca fui adolescente, tenho saudades. Acho que passei
da infância à idade adulta durante a noite… para a próxima faço directa para
rir toda a noite enquanto mando sms a um puto giro que anda um ano à frente e
que já repetiu duas vezes…
Quero
desfilar com lantejoulas até cegar quem pede esmola e quero ser a melhor amiga
das mulheres.
Eu não me
visto linda por causa do sexo dos homens. Eu visto-me linda por mim. Eu dou-me
aos homens por mim se eles forem bons e ternos e sãos e puros e sábios e
sinceros e honestos e lindos e príncipes encantados com bom feitio e ogres
malvados com bom coração.
O medo não
me deixa vestir o que quero e o medo não me deixa despir quando quero mas a
partir de agora… a partir de agora mato o medo do meu guarda-roupa e visto a
cor que me ficar melhor. A partir de agora vou vestir o mais ousado que a minha
prudência quiser e o mais recatado que a minha coragem deixar.
Eu sou uma
mulher. Não sou mulher para fazer inveja às outras mulheres. Sou mulher para
ser vossa irmã. Eu sou uma mulher. Não sou uma mulher para provocar o homem. Eu
compreendo-me só e dou-me aos outros só para partilhar o que sou com eles.
O que sou é
isto. O que sou é a felicidade de estar viva. O que sou é a capacidade infinita
de amar todos os que me rodeiam como se tivessem sido feitos para mim e para me
entenderem.
Eu sou a
mulher. Vivo para ti e tu és todos. Não faço nada de propósito mas se a minha
felicidade e a minha beleza te inspirarem podes dizer-me bom dia e até podes
amar-me incondicionalmente. Eu farei o mesmo.
Eu sou a
mulher e visto-me a mim própria todos os dias para mim… e para ti.
Texto d' "O Manual da Felicidade" de João Negreiros
domingo, 2 de março de 2014
quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014
"O Espelho" d' "O Manual da Felicidade"
Co-produção: Teatro Universitário do Minho e Bolor Teatro
quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014
"É o que tem de bom" - O Manual da Felicidade
ser amigo não é ser educado
ser educado não é ser bom
mas ser bom é ser amigo
ser cordial não é ser atencioso
ser amigo não é ser cordial
mas ser amigo é ser atencioso
sorrir sem vontade pode ser educação ou não
sorrir sem vontade pode ser cordialidade ou não
sorrir sem vontade
não pode ser amigo
conhecer uma pessoa nova é convidá-la a entrar ou não
a um amigo convida-se a entrar se se quiser que ele entre
convidar um amigo a ficar lá fora é perder a oportunidade de
fazer o amigo
ser formal não é falta de educação
ser formal não é falta de cordialidade
ser formal com um amigo só é falta de inteligência
ser formal com um amigo que ainda não se conhece é perder a
oportunidade de existir
é perder a oportunidade de dar uso à casa
à lareira
ao tapete
aos talheres
aos ímans do frigorífico
ao quadro impressionista
à vista impressionante
ao álbum de casamento
ao livro de curso
ao Polystar de ‘82
aos vestidos que uso pouco
ao vinho bom
aos abraços
ao presunto com melão
aos animais de estimação
aos peluches
à aparelhagem que ainda tem gira-discos mas que não tem
agulha
às camisolas
às palavras meigas
às coisas todas que
já nem me lembra
à estatueta que trouxe de São Tomé
à cartola de finalista
à bengala também
e ao passe-partout em que estou com o meu afilhado
ser formal com um amigo que ainda
não o é é ser distante com uma pessoa que podia eventualmente dar razão à nossa vida e a todas as coisas que
nela existem
direi bom dia de sorriso franco de hora em diante porque sei
que isso é essencial para dar uso ao que sou
darei conversa fácil
marcarei encontros rápido
trocarei telefones mesmo que goste muito do meu
darei beijos repenicados para que o barulho inspire outros
e se calhar de ele não querer entrar sorrio até encontrar
outro
e se calhar de entrar sem respeito pela minha casa peço-lhe
que saia sem o sorriso e abro a porta com outro sorriso para o seguinte
e se calhar de entrares tu faço-te uma tosta mista ou um pão
com manteiga
faço assim
pergunto antes Queres uma
tosta mista ou um pão com manteiga?
e tu dizes
Pode ser um pão com manteiga
eu percebo pela tua voz que tu disseste pão com manteiga porque não querias dar trabalho e faço-te uma
tosta mista
é assim que fazem os amigos
é assim que se fazem amigos
come antes que fique frio que eu vou ver se ainda tenho cerveja
Texto d' "O Manual da Felicidade" de João Negreiros
"Ode ao homem bom" - O Manual da Felicidade
Eu gostava
de gostar dos homens que gostam de mim mas os filmes e as amigas que me põem
triste disseram-me que os homens a sério são os que não gostam.
Li uma vez
numa revista ou vi numa fotografia dessa revista que os homens maus eram
charmosos. Eu nessa altura não sabia o que queria dizer charmoso mas pela
fotografia acho que era um homem que usava um cigarro como uma arma e que tinha
um carro grande muito difícil de estacionar.
Eu gostava
de gostar de um homem bom que me amasse incondicionalmente. Um homem que me
desse atenção que não soubesse jogar ao amor, nem jogar ao sexo, nem jogar às
paixões, nem jogar ao “vamos ver quem ama mais e vamos ver quem ama menos e
quem ama menos ganha e quem ama mais perde”.
Eu quero um
homem, não precisa de ser bonito para as revistas, nem precisa de ser bonito
nos outdoors, nem precisa de ser bonito para as minhas amigas tristes, só
precisa de ser bonito para mim.
Eu antigamente
achava que não conseguia controlar o amor. Achava que o amor não se escolhia e
que se me calhasse um cabrão para amar teria que ser infeliz com ele porque era
um bom partido. Tive o coração partido à conta do bom partido. Agora prefiro um
homem por inteiro.
Não vai ser
a vida a escolhê-lo para mim, nem a revista a escolhê-lo para mim, nem as
amigas tristes a escolheram-no para mim. O meu homem vou ser eu a escolhê-lo,
não vai ser amor à primeira vista, vai ser amor à primeira festa.
Vou escolher
o que souber sorrir, vou escolher o que me fizer rir, vou escolher o que me
fizer crescer, vou escolher o que me escolher ao mesmo tempo, vou escolher o
que for perfeito, não por ser perfeito, mas por me dar aquilo de que preciso.
Pela
primeira vez quero exactamente aquilo de que preciso. Preciso de um
companheiro, não preciso de um amante. Preciso de um porto, não preciso da
tempestade. Preciso de companhia, não preciso de ver filmes ruins sem ter quem goze
com eles.
Pode
conduzir um Fiat Punto, um Renault Clio, ou um Fiat Panda que comprou por 780
euros a uma tia solteira.
Eu quero um
homem bom. Os homens bons têm charme. Ainda não sei o que o charme é mas o meu
homem bom vai tê-lo.
Amo-te, meu
amor. Não sei quem és mas vejo-te com nitidez. Conheço-te como a mim e amo-te
para sempre com a certeza de quem percebeu finalmente que o amor só pode ser
uma coisa boa.
Texto d' "O Manual da Felicidade" de João Negreiros
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