sexta-feira, 13 de maio de 2011

tu messias mais



tu messias mais

se ninguém te quiser ouvir grita
escala um arranha-céus e diz tudo
até que as entranhas se esvaiam em acordeões
até que sejas impossível de ignorar
e se te baterem bate a mais portas
e se te baterem mais usa a testa como aríete e entra-lhes nos pensamentos
tu sabes que tens razão
tu tens sempre razão
tu vais salvar toda a gente de si própria
tu sabes o segredo que lhes vai mudar as vidas
tu és o sopro que lhes falta quando assobiam
o som da trombeta
o guizo do chapéu
o rasgo do papel
o mago da magia
o marco do correio
o pico do cume
a água do dromedário
tu vieste para ajudar
tu só queres ajudar
então porque não te deixam?
porque não te sopram carinho ao ouvido e te chamam nomes feios que tu sabes não serem da tua família          nem da afastada
a sociedade também foi feita para ti
um bocadinho foi
um buraquinho foi
porque não te deixam entrar lá?
porque não te deixam estar lá?
querem-te à chuva e ao frio
sem amigos
sem calor
sem pão
sem sal
não te dão nem um naco da tua própria carne
nem a luz do teu quarto
nem o silêncio da tua mente
e tu aceitas?
e tu ficas-te?
e tu não protestas?
seu banana
seu falhado
seu funcionário sem sindicato
sua mulherzinha que nunca votou
sua criancinha que limpa o prato
seu homossexual não assumido
seu cão sem pulgas
seu cabrão sem cornos
seu tronco sem pau
seu pau mandado
seu arado sem terra
seu dinossauro radioactivo sem cidade japonesa
seu lamparina sem petróleo que foi inundar uma gaivota
seu cabeça sem capacho
seu diamante
seu bruto
seu papa-açorda
seu caramelo
seu lambe-cus
seu
seu
seu
seu és tu
seu és tu           
ouviste?
seu é contigo
seu é para ti
acorda
já é noite
já foi dia
amanhã vai ser tudo isso outra vez e tu estás ao relento
não tens onde ficar
não tens lugar na terra e ninguém to vai dar se não esgravatares
procura
pede
come
ataca
implora
arrasta-te
resvala
escorrega
assusta-os
ignora-os
tu sabes que tens razão
e a tua razão é respirar
se respiras tens direito à vida
se tens direito à vida tens direito a chorar
se tens direito a chorar tens direito a voz
se tens direito a voz tens direito a que te ouçam
se tens direito a que te ouçam tens direito a dizer algo que lhes mude as vidas
se tens direito a dizer algo que lhes mude as vidas tens direito a mudar também a tua
não peças respeito
nasce respeitado
não implores por dignidade
apregoa a dignificação do Homem
não mendigues comida
acaba com a fome
não protejas os teus filhos
protege todos os filhos
não procures uma religião
faz o que um Deus bom faria
não ouças tudo o que te dizem
ouve todos os que falam
tens direito ao teu canto
e o teu canto é o de mudar tudo
tu podes mudar tudo
tu deves mudar tudo
tu sabes mudar tudo
repara nas pessoas e muda-as para melhor se elas quiserem
aproveita para ires melhorando também
dá-te como se fosses de borla
não peças nada em troca mas dá com um sorriso mais rasgado a quem te der um beijo no fim
não tenhas medo que te interpretem mal
aliás          não tenhas medo que te interpretem
aliás          não tenhas medo
guarda o melhor para os outros e o pior para ti
mas não sejas cruel contigo que és o único que tens
tens que ter noção do teu papel
e o teu papel é duro como se embrulhasse pregos ou cacos que não queremos nas mãos do senhor da recolha nem nos dentes do gato vadio
o que tu vais fazer agora porque é o único tempo que te pertence é mudar
mudar até que nada fique igual
até que esteja mesmo do agrado de todos
mas se         por acaso         no meio do teu percurso de conflito e mudança
no meio da tua jornada de luta pelo bem encontrares algo de profundamente belo
não lhe mexas
não lhe toques
pega numa cadeira de praia         monta-a          e senta-te calmamente a apreciar

Poema do livro "a verdade dói e pode estar errada", de João Negreiros, à venda em livrarias e em http://www.saidadeemergencia.com/index.php?page=Books.BookView&book_id=535

terça-feira, 26 de abril de 2011

Espectáculos de apresentação da 2ª edição de "luto lento"


Espectáculos de apresentação da 2ª edição do livro "luto lento" levados a cabo pelo Teatro Universitário do Minho.

Coimbra | 29 de Abril | 18h | Livraria Leya, Rua Ferreira Borges, 79
Matosinhos | 30 de Abril | 17h | Fnac Marshopping

terça-feira, 12 de abril de 2011

Actuação no Coliseu do Porto

Actuação de João Negreiros no COLISEU DO PORTO, dia 16/04 às 21h.
50% da receita reverte a favor da AMI. 
Apareçam e apoiem uma grande causa.
Inscrições em 
www.lifetraining.com.pt
Fica uma amostra daquilo que poderão ver.

sexta-feira, 25 de março de 2011

Espectáculos de apresentação da 2ª edição de "luto lento"


Espectáculos de apresentação da 2ª edição do livro "luto lento" levados a cabo pelo Teatro Universitário do Minho.

Guimarães | 26 de Março | 21h | Livraria Book.it
Barcelos | 2 de Abril | 18h | Livraria Book.it
Viana do Castelo | 3 de Abril | 18h | Livraria Book.it

domingo, 20 de março de 2011

a menina da pastelaria


a menina da pastelaria

conheci uma menina que trabalhava numa pastelaria e os bolos          de tão secos          faziam-lhe o sorriso mais doce

e eu estava tão guloso dela que contraí um desarranjo intestinal p’ra ninguém desconfiar

e nunca lhe levei trocado para ela me tocar a mão junto com o frio das moedas          ou p’ra dizer quase
indignada de tão risonha          não tem mais pequeno?

ao que eu respondia que não

e ela dizia          então vou ver ao porta-moedas          porque o pai dela era o dono e ela às vezes metia do dela p’ra depois tirar do dele

e ela voltava-se

e esticava-se até ao cimo do frigorífico

e resgatava o porta-moedas dos coelhinhos

e no acto de esticar eu via-lhe as costas e a barriga melhor por causa do top que só tapava o de cima

e          quando ela estava tão esticada como a cortina que fechou p’ra ninguém conseguir ver          eu parei o tempo

é isso          agora parei o tempo e vou ficar          no mínimo dos mínimos          três séculos a ver-lhe a barriga e o fundo das costas

e a língua no canto da boca como quem esperneia por felicidade

e vou-lhe fazer juras de amor

e gritar alto o nome que lhe pende da etiqueta do uniforme

e vou-me despir completamente

e masturbar-me respeitosamente porque o tempo parou

e a terra já não gira porque gira és tu

e as plantas já não crescem

e a única flor que desabrocha és tu          que mesmo estática          tens o movimento de quem não precisa de se mexer para ser bela

de quem não precisa de falar para ser bela porque a tua beleza não está contigo mas dentro de mim

como o troco que nunca tens mas que eu imploro que me dês


e um dia vou ter que tornar à vida e fazer o mundo girar de novo          mas não me apetece nada

e um dia vou ter que deixar as pessoas seguirem com a sua vida          mas não me apetece nada

e um dia vou ter que te esquecer

vou ter que te deixar envelhecer com um monstro que te trate mal

e te chame nomes feios

e não te respeite

e não te saiba o nome          nem com a ajuda da etiqueta

e não te pague os doces porque diz sempre que estão secos

e não me apetece nada

e não me apetece nada deixar-te seguir p’ra que deixes de ser

e saio

e soube-me mal

e estico a língua quase até à bochecha para resgatar o açúcar          a farinha e a lágrima ao mesmo tempo

tudo ao mesmo tempo

 
e nunca mais vou voltar a ver-te porque nunca mais te reconhecerei

a não ser que um dia me esqueça dos trocos de novo e te dê uma nota grande que tu trocarás por miúdos que são os nossos filhos

Poema do livro "luto lento" à venda nas livrarias e em

quarta-feira, 2 de março de 2011

O único bem precioso

Dá-me um beijo como se fosse na boca, dá-me um beijo como se fosse na tua. Dá-me um beijo como eu te dou porque quero sentir na pele o incondicionalismo do meu amor, só para saber quanto custa o que não tem preço mas que, para ti, estará eternamente na prateleira das promoções com o desconto do infinito e uma menina a dar amostras, às quais te fazes cara para que te dê o valor. E o valor sei-o de cor como os lápis de cera que derreti à Santa, pedindo-lhe para interceder junto do teu olhar para que me visses com outros olhos, os gentis que não tinham graduação… por não serem oficiais e não precisarem de óculos.
Dá-me o virar da cara para te conhecer melhor a face esquerda. Dá-me o virar da cara para te conhecer melhor a face direita. E à terceira dás-me os lábios para que eu te mostre o que tenho andado a praticar às escondidas com as tuas bochechas.
Sabes, eu e algumas partes do teu corpo somos cúmplices e não sabes mas conheço-te como não imaginas porque te vês mal… com a rudeza de quem julga o belo como a um filme mau que era preciso ver em boa companhia, com o maior dos intervalos e com o enredo que só as carícias sabem engrossar.
E agora conheço-te completamente como o fruto que me escorrega no sumo até ao queixo, mas que eu resgato com cuidado para que nada se desperdice. É importante que o amor não se desperdice porque o amor, nos dias que correm, é o único bem precioso.

Poema do livro "luto lento" à venda em livrarias e em https://www.buknet.pt/?op=pesquisa&pesquisa=jo%E3o+negreiros&t=2