domingo, 14 de novembro de 2010

Tempo morto



Poema do livro "luto lento" à venda nas livrarias e em https://www.buknet.pt/?op=pesquisa&pesquisa=jo%E3o+negreiros&t=2

Tempo morto

Às vezes tenho a impressão de que os sítios de onde venho não existem. Ou melhor, existem quando lá estou mas, mal saio, tenho a sensação de eles já não estarem lá só porque eu não estou lá. E ando a praticar toda a minha rapidez para ver se consigo apanhar o espaço desprevenido, mas o espaço é muito atento. O tempo não, o tempo, às vezes, engana-se e anda mais devagar… que já tenho reparado, mas o espaço é mesmo inteligente. No outro dia fui da sala à cozinha e, quando parecia que estava completamente decidido a ficar pela cozinha, corri da forma mais inadvertida e espontânea que consegui de novo para a sala e, naquele momento, tive… juro que tive quase a sensação de que a mesa e as cadeiras ainda não estavam completamente refeitas do choque, não estavam completamente materializadas. E então fui até à porta que estava lá e gritei para as pessoas que não estavam lá… para mim… para virem ver a minha… julgo que… sensação de desmaterialização espontânea da minha sala-de-estar. Mas a única pessoa que consegui cativar para a minha jornada de luta contra o espaço foi o meu vizinho que estava bêbado e em roupa interior. E então eu e o meu vizinho, que se chama Joaquim e que não tinha nada para fazer naquela tarde a não ser estar bêbado e de roupa interior, passámos três horas a tentar apanhar o espaço desprevenido, mas ele não deixou. E nunca mais jurei que tive aquela sensação, mas o Joaquim teve-a, a sensação, disse que quando chegava aos sítios tudo estava branco… e que quando olhava para trás, de repente, o sítio de onde vinha tinha ido para o espaço porque o espaço não teve tempo... porque o tempo é incompetente e, às vezes, anda devagar e o Joaquim, por estar constantemente bêbado, adquiriu super-poderes e consegue ver sempre o que não está lá. Vou fazer como o Joaquim e afogar-me no fundo de uma garrafa de conhaque, como aquele barco que o meu avô guardava na biblioteca que se perdeu com a inundação. E bebo, e trago, e mais outro trago comigo para me ajudar, e cambaleio, e tropeço, e entorpeço mas o espaço está sempre lá, o cabrão está sempre lá e o tempo está feito com ele, abranda-me o relógio que tenho na cabeça para que eu não veja que isto é uma ilusão. É uma sensação de julgo que eterna e eu tento não julgar mas julgo muito… que acho que tenho a sensação que alguma coisa aqui não está bem… que este mundo tem alguma coisa por trás a mexer os cordelinhos, a meter uma cunhazita, a orquestrar-me a banda sonora das enxaquecas.

E eu acho que estão todos feitos com o gajo atrás do espaço e do tempo, estão todos feitos com ele… menos o Joaquim que é meu amigo. E só é meu amigo porque está bêbado e de roupa interior, quando estiver sóbrio nem os bons dias me vai dar porque os meus dias são maus. E tenho a certeza que podia contar isto a todos os milhões e milhões de pessoas que não existem (porque eu não as conheço) que elas não acreditariam em mim (porque não me conhecem). Logo, não existo apesar de me verem se eu estiver lá. E lá está, é infalível, este plano é absolutamente eficaz porque as pessoas nunca vão estar onde não estão e por isso o não estar desaparece.
E o impostor do espaço, irmão do tempo que corre como quem soletra, vai dominar-nos sempre, vai ter-nos sempre nas suas mãos que vão estar sempre atrás das costas, a fazer figas para nós não vermos.
E eu não tenho tempo porque o cabrão para mim andou depressa demais, foi a maneira que arranjou de se vingar. E não tenho espaço porque o espaço levou a mal eu dizer estas coisas e escorraçou-me para um sítio que não existe. E eu agora tenho provas mas no sítio que não existe não há ninguém para me ouvir. E eu podia esperar mas lá também não há tempo. E não tenho corpo, nem alma, nem nada… não, nada tenho, tenho nada e tenho-me a mim… e vocês podem achar que é pouco mas, para mim, chega para vencer, basta-me nada e eu, eu e mais nada… e é tudo.
in luto lento, de João Negreiros

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

Sereia se quiseres


 
Para adquirir o livro (portes gratuitos) - http://www.saidadeemergencia.com/index.php?page=Books.BookView&book_id=535
 
Sereia se quiseres
Anda depressa dormir que eu prometo que vou fingir que não adormeço. Entras-me a meio do sonho como a sereia que fez do início das escamas a cintura… para se fazer mais fina, mais estreita, mais estreito que sou eu… que até cabo em ti com o mar à volta… como um mau português que se afoga na salitre das tuas vogais parasitas que nunca me soam a mais.
E tenho a mania que te amo só porque não conheço ninguém melhor… ou melhor… até conheço, ou conheceria se tivesse a imaginação mais fértil… para te imaginar como a irmã feia e burra da mulher mais que perfeita que não existiu no passado. Mas como não me sai da cabeça a imagem… nem com shampoo… e, como a mulher mais que perfeita nunca vai dar à costa, tenho de me contentar contigo que és só a perfeição.
És tu, és só tu.
E tu:
- Serei… sereia… serei a … se tu quiseres.
E eu… à falta de melhor… quero.

in a "verdade dói e pode estar errada", de João Negreiros (Camões & Companhia, 2010)

sábado, 30 de outubro de 2010

4º Prémio Internacional de Poesia ao Vídeo

"o Outono visto pela janela" - vídeo classificado entre os 10 melhores
Poema faz parte do livro galardoado com o Prémio Nuno Júdice.



Para adquirir o livro "a verdade dói e pode estar errada" - http://www.saidadeemergencia.com/index.php?page=Books.BookView&book_id=535&genre=

domingo, 24 de outubro de 2010

4º PRÉMIO INTERNACIONAL POESIA AO VÍDEO

ASSISTA E VOTE!

Vídeo com poema de João Negreiros seleccionado entre os 10 melhores por um júri internacional.
Os 10 vídeos classificados serão submetidas à votação on-line que classificará os vencedores.
João Negreiros é o único português a concurso.
Assista ao vídeo e VOTE. VOTE AS VEZES QUE QUISER!
Votação termina no dia 25/10.

CLIQUE AQUI!

http://www.fliportodigital.net/index.php/poesia-ao-video-votacao/
 

Para adquirir o livro "a verdade dói e pode estar errada" (Camões & Companhia, 2010)

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

tenho ideia de respirar

tenho ideia de respirar

se ao respirar pensasse faria os dois no mesmo tempo
para perceber que o corpo pede que seja bom para mim

se ao respirar pensasse diria
pára
e o corpo ficava numa apneia que me ganhava o segundo certo de fazer o que estava escrito nas notas do rodapé do papiro do meu destino

se ao respirar pensasse dava vivas à distância entre corpo e espírito
para que as mãos tocassem o mesmo que a pele
o nariz farejasse o mesmo que o olfacto
a boca soubesse ao mesmo que a língua
as orelhas ouvissem o mesmo dos ouvidos
e os olhos vissem o mesmo que a menina

se ao respirar pensasse ia voltando atrás para errar de novo com mais convicção

se ao respirar pensasse dava-me palmadinhas no rosto e imitava-me o desdém por algumas pessoas

se ao respirar pensasse comia menos
falava menos
sofria menos
dormia menos
queria saber menos

se ao respirar pensasse vivia ofegante de tão feliz

se ao respirar pensasse conhecia-me melhor
e achava-me pior
mas seria mais honesto pois tinha de mim a imagem que quem me vê tem

se ao respirar pensasse seria entediante
haveria de cometer os erros premeditados com as pessoas mais previsíveis
e as diabruras sem perdão com as pessoas que me dão pão ao corpo

se ao respirar pensasse soluçava menos e falava mais e evitava a coerência do gesso

o problema desta vida é que          quando a sorvemos         fazemo-lo sem pensar        para não adulterar sabores

o problema desta vida é que só temos tempo para respirar quando pára
e só pára quando morre

e pensar é uma imposição que vamos contrariando

vamos respirar e pensar criando a sensação de que não fazemos nem uma coisa nem outra

e sustenho a respiração
o oxigénio que se vai inspira-me
faz-me melhor
leva o mau que tinha dentro
adia o que tem mesmo que ser

e não respirar dá-me um balão de oxigénio para pagar contas atrasadas
telefonar a um amigo antigo
beber chá com a tia que morreu no cemitério que foi para abater por fazer festas aos mortos
entregar em mãos as cartas para beijar o carteiro
comer pão deixando a côdea
viajar para muito longe e dar as malas ao aeroporto
começar de novo sem saber o quê
alimentar esperanças por quem não gosta de mim
comer o último rissol
fritar o novo primeiro rissol para quem queria comer o último
dar um tempo
lavar os dentes
saber se hoje é sexta-feira ou se é antes pelo contrário
aproveitar a luz do dia para a iluminação pessoal
abrir um precedente
não levantar uma suspeita
errar um caminho
aprender a malha e fazer um cachecol flexível para um pescoço que mexe muito

o céu está mais claro hoje
as pessoas também
sei agora quem sou e dá-me a raiva de não o ter sido antes

hoje aprendi a respirar          pensando paralelamente sem perder a noção da
importância das duas

e a clarividência que isto me dá
este domínio das duas técnicas
faz-me ter menos medo e ter medo mais devagar

hoje respiro no tempo dos pensamentos

e o ar está finalmente dentro de mim até aos poros

in "a verdade dói e pode estar errada", de João Negreiros

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

6º Concurso Poético do Cancioneiro Infanto-Juvenil para a Língua Portuguesa

“quarto crescente” – poema do livro “luto lento” premiado e publicado no Cancioneiro “Amo de Ti”

quarto crescente


vou pintar uma parede de cada cor e encostar-me a cada uma para que cada uma seja o que eu quero construir

mas como só tenho quatro          quatro não chega por isso vou lá para fora imaginar paredes para que se façam muros que eu quero cair          uns altos e até ao tecto que está a fazer de céu

eu quero pintar o ar como quem pinta paredes para sentir os desafios como um ar que se lhe deu

e vou respirar distâncias para as cheirar mais perto

e vou escalar o areado como quem rasga os dedos e ainda assim sorri porque sobe como quem morre

vou pintar o mundo de uma cor única que são todas

e matizar as pessoas com nuances subtis para que sejam coerentes

mas eu vou ficar transparente para que vejam por mim o que eu não quero que dói muito

só que o ar anda racionado e o homem racionalizado

e dizem-me que o não faça          que fique quedo como quem respira só para fazer circular o ar          como o polícia que diz do acidente que aqui não há nada para ver

e fecharam-me à chave

e fecharam-me a chave dentro duma gaveta que está lá fora e lá longe

e estou a fazer pequeníssimos quadrados nas paredes do meu quarto para simular a imensidão do mundo

mas não me chega          falta-me gente          e até pus um anúncio no jornal a pedir gente pequenina em part-time para me inundar as paredes vestidas de quadrados que fazem de muros das casas das pessoas lá fora

e dentro do meu quarto corre bem          corre muito bem porque as cores começaram a intrometer-se nas almas umas das outras

e agora nem são quadrados

são manchas que eu nem distingo          que eu nem percebo          que eu nem sei ao certo

manchas que se misturam como quem nada          que viajam como quem corre

como quem escorre do tecto

como quem escorre do chão ao tecto

como quem escorre de fora para dentro

como quem se entranha

como quem se une

como quem se mune de aventuras e segredos que quiseram ser contados para deixarem de existir

e a perfeição do mundo interior é ter as barreiras simples feitas para cair

e a sua única tristeza são as arestas que choram no canto porque separam a mãe do filho e a solidão da aventura

e ao meu quarto só lhe falta ser circular para ser o mundo          mas lá fora circula

e um dia hei-de sair para dizer a todos que se espalhem ao comprido e debaixo uns dos outros

como quem ama sem saber como

como quem chama sem saber quem

como quem brinca sem saber a quê

e vou-lhes ensinar a verdadeira linguagem dos afectos          que é moldável palpável e daltónica

e o mundo vai ser de uma cor          melhor          o mundo vai ser de duas cores          da minha e da tua

in luto lento, de João Negreiros



O Cancioneiro Infanto-Juvenil Para a Língua Portuguesa é uma iniciativa do Instituto Piaget que pretende estimular a criatividade poética entre as crianças e os jovens de todos os países de língua portuguesa. Em simultâneo, o Cancioneiro Infanto-Juvenil tem como objectivo reintroduzir a dimensão poética no sistema educativo e cultural.

Ao longo da sua existência o projecto conta já com 13 mil participantes. Desde a primeira edição, há cerca de 20 anos, o projecto tem construído um valioso percurso de descoberta da linguagem poética, culminando na publicação dos melhores trabalhos apresentados a concurso.