sábado, 30 de outubro de 2010

4º Prémio Internacional de Poesia ao Vídeo

"o Outono visto pela janela" - vídeo classificado entre os 10 melhores
Poema faz parte do livro galardoado com o Prémio Nuno Júdice.



Para adquirir o livro "a verdade dói e pode estar errada" - http://www.saidadeemergencia.com/index.php?page=Books.BookView&book_id=535&genre=

domingo, 24 de outubro de 2010

4º PRÉMIO INTERNACIONAL POESIA AO VÍDEO

ASSISTA E VOTE!

Vídeo com poema de João Negreiros seleccionado entre os 10 melhores por um júri internacional.
Os 10 vídeos classificados serão submetidas à votação on-line que classificará os vencedores.
João Negreiros é o único português a concurso.
Assista ao vídeo e VOTE. VOTE AS VEZES QUE QUISER!
Votação termina no dia 25/10.

CLIQUE AQUI!

http://www.fliportodigital.net/index.php/poesia-ao-video-votacao/
 

Para adquirir o livro "a verdade dói e pode estar errada" (Camões & Companhia, 2010)

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

tenho ideia de respirar

tenho ideia de respirar

se ao respirar pensasse faria os dois no mesmo tempo
para perceber que o corpo pede que seja bom para mim

se ao respirar pensasse diria
pára
e o corpo ficava numa apneia que me ganhava o segundo certo de fazer o que estava escrito nas notas do rodapé do papiro do meu destino

se ao respirar pensasse dava vivas à distância entre corpo e espírito
para que as mãos tocassem o mesmo que a pele
o nariz farejasse o mesmo que o olfacto
a boca soubesse ao mesmo que a língua
as orelhas ouvissem o mesmo dos ouvidos
e os olhos vissem o mesmo que a menina

se ao respirar pensasse ia voltando atrás para errar de novo com mais convicção

se ao respirar pensasse dava-me palmadinhas no rosto e imitava-me o desdém por algumas pessoas

se ao respirar pensasse comia menos
falava menos
sofria menos
dormia menos
queria saber menos

se ao respirar pensasse vivia ofegante de tão feliz

se ao respirar pensasse conhecia-me melhor
e achava-me pior
mas seria mais honesto pois tinha de mim a imagem que quem me vê tem

se ao respirar pensasse seria entediante
haveria de cometer os erros premeditados com as pessoas mais previsíveis
e as diabruras sem perdão com as pessoas que me dão pão ao corpo

se ao respirar pensasse soluçava menos e falava mais e evitava a coerência do gesso

o problema desta vida é que          quando a sorvemos         fazemo-lo sem pensar        para não adulterar sabores

o problema desta vida é que só temos tempo para respirar quando pára
e só pára quando morre

e pensar é uma imposição que vamos contrariando

vamos respirar e pensar criando a sensação de que não fazemos nem uma coisa nem outra

e sustenho a respiração
o oxigénio que se vai inspira-me
faz-me melhor
leva o mau que tinha dentro
adia o que tem mesmo que ser

e não respirar dá-me um balão de oxigénio para pagar contas atrasadas
telefonar a um amigo antigo
beber chá com a tia que morreu no cemitério que foi para abater por fazer festas aos mortos
entregar em mãos as cartas para beijar o carteiro
comer pão deixando a côdea
viajar para muito longe e dar as malas ao aeroporto
começar de novo sem saber o quê
alimentar esperanças por quem não gosta de mim
comer o último rissol
fritar o novo primeiro rissol para quem queria comer o último
dar um tempo
lavar os dentes
saber se hoje é sexta-feira ou se é antes pelo contrário
aproveitar a luz do dia para a iluminação pessoal
abrir um precedente
não levantar uma suspeita
errar um caminho
aprender a malha e fazer um cachecol flexível para um pescoço que mexe muito

o céu está mais claro hoje
as pessoas também
sei agora quem sou e dá-me a raiva de não o ter sido antes

hoje aprendi a respirar          pensando paralelamente sem perder a noção da
importância das duas

e a clarividência que isto me dá
este domínio das duas técnicas
faz-me ter menos medo e ter medo mais devagar

hoje respiro no tempo dos pensamentos

e o ar está finalmente dentro de mim até aos poros

in "a verdade dói e pode estar errada", de João Negreiros

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

6º Concurso Poético do Cancioneiro Infanto-Juvenil para a Língua Portuguesa

“quarto crescente” – poema do livro “luto lento” premiado e publicado no Cancioneiro “Amo de Ti”

quarto crescente


vou pintar uma parede de cada cor e encostar-me a cada uma para que cada uma seja o que eu quero construir

mas como só tenho quatro          quatro não chega por isso vou lá para fora imaginar paredes para que se façam muros que eu quero cair          uns altos e até ao tecto que está a fazer de céu

eu quero pintar o ar como quem pinta paredes para sentir os desafios como um ar que se lhe deu

e vou respirar distâncias para as cheirar mais perto

e vou escalar o areado como quem rasga os dedos e ainda assim sorri porque sobe como quem morre

vou pintar o mundo de uma cor única que são todas

e matizar as pessoas com nuances subtis para que sejam coerentes

mas eu vou ficar transparente para que vejam por mim o que eu não quero que dói muito

só que o ar anda racionado e o homem racionalizado

e dizem-me que o não faça          que fique quedo como quem respira só para fazer circular o ar          como o polícia que diz do acidente que aqui não há nada para ver

e fecharam-me à chave

e fecharam-me a chave dentro duma gaveta que está lá fora e lá longe

e estou a fazer pequeníssimos quadrados nas paredes do meu quarto para simular a imensidão do mundo

mas não me chega          falta-me gente          e até pus um anúncio no jornal a pedir gente pequenina em part-time para me inundar as paredes vestidas de quadrados que fazem de muros das casas das pessoas lá fora

e dentro do meu quarto corre bem          corre muito bem porque as cores começaram a intrometer-se nas almas umas das outras

e agora nem são quadrados

são manchas que eu nem distingo          que eu nem percebo          que eu nem sei ao certo

manchas que se misturam como quem nada          que viajam como quem corre

como quem escorre do tecto

como quem escorre do chão ao tecto

como quem escorre de fora para dentro

como quem se entranha

como quem se une

como quem se mune de aventuras e segredos que quiseram ser contados para deixarem de existir

e a perfeição do mundo interior é ter as barreiras simples feitas para cair

e a sua única tristeza são as arestas que choram no canto porque separam a mãe do filho e a solidão da aventura

e ao meu quarto só lhe falta ser circular para ser o mundo          mas lá fora circula

e um dia hei-de sair para dizer a todos que se espalhem ao comprido e debaixo uns dos outros

como quem ama sem saber como

como quem chama sem saber quem

como quem brinca sem saber a quê

e vou-lhes ensinar a verdadeira linguagem dos afectos          que é moldável palpável e daltónica

e o mundo vai ser de uma cor          melhor          o mundo vai ser de duas cores          da minha e da tua

in luto lento, de João Negreiros



O Cancioneiro Infanto-Juvenil Para a Língua Portuguesa é uma iniciativa do Instituto Piaget que pretende estimular a criatividade poética entre as crianças e os jovens de todos os países de língua portuguesa. Em simultâneo, o Cancioneiro Infanto-Juvenil tem como objectivo reintroduzir a dimensão poética no sistema educativo e cultural.

Ao longo da sua existência o projecto conta já com 13 mil participantes. Desde a primeira edição, há cerca de 20 anos, o projecto tem construído um valioso percurso de descoberta da linguagem poética, culminando na publicação dos melhores trabalhos apresentados a concurso.

sexta-feira, 30 de julho de 2010

inspiração é respirar

Poema feito à Imagem - "Inspiração é Respirar" from Abraham Tark on Vimeo.

inspiração é respirar


assustas-me como a natureza quando desmaia pelo acasalamento de um bicho


tomas-me de assalto tão alto que só sei que és tu pela cor do ventre quando choras


sei-te como a enciclopédia afogada em anexos pelos planetas que apareceram só para a contrariar


dás cabo de mim porque me pões fim


dás-me o ânimo dos juncos que abanam só pelo vento


dás-me as amoras dos trigais que são raras de tão impossíveis


fazes-me viver como a palidez para o doente terminal


prendes-me pelo cachaço como só a boca consegue


aproxima o teu corpo ao meu e vamos fazer filhos dos outros para que todos procriem com amor


emprestemos a nossa seiva às árvores que morrem da poda


e façamos de todos os seres o resultado inequívoco de um olhar nosso que se troca por miúdos


és a ninfa sem verde

o fantasma sem escuro

a corneta subtil

o galgo que embala o ar

o coxo da perna boa


e eu fiz-me para te completar


apareci para te reafirmar coerência

para te investir valor

para te secundar

para te lamber o chão com a saliva que estava guardada para os beijos para além dos nossos


tu só és para mim exactamente o que sou para ti

e olha que é muito

e olha que chega para encher tanques de rãs com carícias


és a personificação das manhãs claras e dos membros sãos


és a esposa que anseia

o rasgão sem dor

o sangue sem ciúme

a cor dos olhos

a ternura da pele

o carinho das canções


e eu serei o romance que mandou a tua cabeceira abater uma lareira


abraça-me muito que tenho medo sem ti

que choro muito sem ti


e sou-te porque não me conhecia até


e sigo-te como o carneiro segue a camisola


e vou estar na tua boca colado

a evitar os soluços e as palavras

para poder viver o resto dos dias na intermitência da tua respiração


amo-te por dentro

inspira-te em mim


amo-te por fora

expiro sem ti


amo-te por dentro

inspira-te em mim


amo-te por fora

expiro sem ti


e o ar que me move move todos

e o ar que me move move todos

in "a verdade dói e pode estar errada", de João Negreiros,

Ed. Camões e Companhia

domingo, 6 de junho de 2010

o murro

Poema feito à Imagem - "O Murro" from Abraham Tark on Vimeo.

o murro

ontem disseram-me que eu era razoável e eu parti todos os dentes a quem me disse tal coisa

é que não aguentei

porque não insultou minha mãezinha e seus hábitos conjugais como eu estava à espera?

porque não insultou minha mãezinha afirmando que todos os homens do globo poderiam ser o meu paizinho?

porque não me disse que cheirava mal?

porque não me inventou uma corcunda?

porque não aproveitou          conjugando as duas correntes          e descreveu minha mãezinha como um ser desprovido de higiene e com protuberâncias dorsais que rivalizariam com os picos da Europa?

chamar-me a mim razoável?!

eu que sou extraordinário de tão ruim

eu que estou nos pólos com os iões

eu que faço tudo para me destacar

violo meninas em plena avenida para depois salvar o mundo

dou o antídoto aos venenos e o veneno sem antídoto

mato pessoas que idolatro e amo tudo a quem não gosto

eu que sou magnânimo na intermitência da ruindade

eu          rei dos povos e súbdito dos mendigos

eu sou o contrário do razoável

ninguém me ama com medo de se apaixonar

todos me batem com jeito de açoitar o puro-sangue que se habituou ao cheiro da glória que não se quer render à vida para procriar

eu sou o Deus triste que está na lama das estrelas

o imperador de palácios vazios

o vagabundo de séquito interminável

a divindade a quem faltam promessas

o risco sem medo

a justiça sem pecador

vivo para lá da lei na origem dos decretos

chamar-me a mim razoável quando sou limpo

sem rasuras

sem razão

chamar coerente a quem inventou a loucura é dar pão aos patos quando o mar está revolto

dá-me antes um murro em plena face          resvalando a jeito de me partir o nariz para depois me tratares com curativos pintados de bonecos da infância que estava no armário dos medicamentos

ser razoável é pior que mau

é melhor que bom

e é igual a mais ou menos          que é pior que mau

e melhor que bom

e igual a mais ou menos

ser razoável é nem sequer estar

é estar sem querer

é comer sem gosto

é borrar sem cheiro

é morrer sem choro

é cantar sem alma

é estragar o que está precisamente maduro

é esquecer o que acabou de se fazer

é dar as costas à felicidade e o virar de cara ao infortúnio

ser razoável é ser medíocre e ser medíocre é pior que mau

é melhor que bom

e é igual a qualquer coisa

dá-me antes outro murro para retomar os sentidos e me lembrar que no extremo está a virtude

nos pólos está mais frio e as criaturas são mais brancas

mais pretas

com mais chifres

e mais longe de casa porque abominam o que é doméstico

o cão de colo que me perdoe mas sou o urso polar

o esquimó fresquinho que o menino não chega a lamber porque está no fundo da arca para além do rio mais gelado e do pingo do nariz

chamar-me a mim razoável é chamar ao homem selvagem e à mulher mulher dele

chamar-me a mim razoável é chamar a vós também que levais os ouvidos tapados

chamar-me a mim razoável é dizer a mim e a todos que não há hipótese de mudar isto para melhor

chamar-me a mim razoável é dizer a mim e a todos que não há hipótese de mudar isto para pior

chamar-me a mim razoável é dizer a mim e a todos que estamos a mudar tudo para mais ou menos

exijam o murro em plena face

gritem pelo murro

façam o abaixo-assinado pelo murro

mil milhões de assinaturas pelo murro em plena face

recebamo-lo com um sorriso com menos dentes e sangue a escorrer livre

e o sangue que nos escoa da boca vai dar cor a isto

vai-vos sujar os casaquinhos imaculados que se venderão a preços simbólicos nas feiras e por maquias estratosféricas nas lojas de haute-couture

e          na impossibilidade de encontrar o equilíbrio

o conforto

o quentinho

o meio

encontramos a humanidade que é feita de defeitos

amores impossíveis

rotas ocasionais

céus carregados

searas em chama

florestas virgens

assomos de bravura

loucuras temporárias

e tranquilidades passageiras

e tu          que levas os dentes partidos só porque alguém não te quis perfeito          sabes agora a importância de saber

tu          que lavas a boca no chafariz na despedida do incisivo          sabes agora ao que vens

ao que venho

ao que vimos

sabes agora que somos

somos tudo

somos completamente tudo

somos o que sobra do sorriso depois dos dentes se afogarem pela rapidez do rio

in "a verdade dói e pode estar errada", de João Negreiros