quarta-feira, 20 de agosto de 2014

A Máquina


No corpo está a razão.
No outro dia enganei-me a fazer uma coisa no computador e um amigo disse-me: “A máquina tem sempre razão”.
Depois pensei no meu corpo que também é uma máquina e percebi que ele também tem direito a ter razão.
No corpo está tudo, até a mente.
Quando sinto frio, tapo-me.
Quando há calor, destapo-me.
Quando choro é por alguma coisa.
Quando rio é por algo também.
Se quiser rir depois tenho que fazer o que me fez rir antes.
Tenho que fazer o que me faz se o quiser fazer mais vezes.
O que funciona para o meu corpo é o que funciona para mim.
Ouço-o todos os dias. Tenho ouvidos especiais que ouvem para dentro também.
Tenho olhos que dão a volta até verem o que se passa no dentro de mim.
Tenho dedos que me apalpam por dentro da pele.
E atado ao nariz por uma trela que vai muito longe tenho um perdigueiro que vai por mim até ao que for preciso.
E sabe-me tão bem.
Sabe-me tão bem.
Sei tudo tão bem.
Ando sentido comigo mas não sofro porque há sinais nítidos por mim que me avisam do que está mal e me avisam quando é bom.
De hoje até ao fim dos meus dias darei razão à máquina.
Eu sou a máquina. Eu sou só o meu corpo porque ele diz-me o que estou destinado a ser. 

Texto de "O Manual da Felicidade" de João Negreiros 

domingo, 17 de agosto de 2014

a invenção da dor

é suposto amar-se muita gente como a nós

mas se não gostarmos do que nos vai dentro não amaremos gente por fora

porque não o distinguiremos do marulhar das folhas no vento que sabe à maresia que esteve nos ouvidos do afogado mais fundo

urge termos por nós a certeza do afecto

para que transborde pelos poros que a natureza nos deu a vontade de submergir a terra de um ar novo e simples que mostre às gentes novas cartilhas com orelhas no canto das folhas porque foi precisa a nossa saliva para virar a página que tinha a dor escrita numa nota de rodapé com letra pequenina

sabemos a dimensão que nos acrescenta

mas hesitamos na procura do sonho porque achamos incoerente voar sobre as cidades de pijama

mas é a acreditar neles como reais que os tornamos reais

é a acreditar neles como nossos que os tornamos nossos

é a acreditar neles aqui que os temos em nossa casa

na nossa cama

e os nossos lençóis sabem a história do mundo desde o princípio

como se a baba do travesseiro lhes tivesse contado os males de amor de um curandeiro do paleolítico que a História não guardou porque não acabou bem

levemos connosco ao colo os pensamentos que tivemos há muito em horas de aperto

vamos dar às nossas lutas interiores a beleza dos universos pacíficos

que nos dão paisagens ao corpo e ventos à pele que sabe as curvas da carne

por ser a amizade mais próxima que o mundo tem o nosso corpo ama-se entre si como o irmão que temos mas que partiu cedo demais

vamos entender o que somos como o que somos se entende em si

a pele tapa a carne

a carne tapa o osso

o osso sustenta tudo

e os órgãos sabem as conversas que teriam se falassem como amantes antes da cópula

larga a dor que inventaste

fica só com a que inventaram para ti

poema do livro "o acaso é um milagre" de João Negreiros

sexta-feira, 15 de agosto de 2014

Tudo de bom

As coisas que acontecem acontecem sempre instantaneamente.
As coisas que nos fazem acontecer acontecem sempre instantaneamente.
As grandes mudanças são instantâneas como as diferenças.
Agradeço à mudança que me faz melhor porque a mudança que me faz melhor é a única que quero.
Quero mudar para melhor e quero só quem me muda para melhor.
Há pessoas com o dom de mudar e sou uma delas.
Mudo todos os dias muito porque tenho a necessidade de mudar muito, não por estar mal, mas por querer estar bem porque bem é melhor.
Quero agradecer a mim próprio por melhorar todos os dias e a todos os que me melhoraram. Estou viciado em evoluir. Acho que na semana passada era uma ameba e esta semana sou incrível e tenho células infinitas de contar. Para a semana que vem, vou-me achar uma ameba esta semana, e assim sucessivamente até ser o melhor que puder.
Todos nós temos a obrigação de sermos o melhor possível porque o melhor possível é o mínimo que podemos.
Agradeço a todos os que estiveram comigo na semana passada e que me fizeram ser o que sou nesta.
A verdade é que pode não ter passado uma semana, a verdade é que pode ter passado um dia ou um segundo ou um instante tão pequeno que por pouco não era inventado.
Para crescer não é preciso tempo, só é preciso perceber, querer muito e escolher a companhia certa.
És a minha companheira. Obrigado por seres a minha companhia, a minha companheira, a minha alma gémea falsa que só é igual bem lá dentro.
As únicas pessoas que nos querem bem são as que nos põem melhor.
Juntem-se já a quem vos faz bem sem querer, porque essas são as mesmas que vos fazem bem por querer.
Juntem-se siameses a quem vos constrói. Acrescentemos anexos até fazer de uma cabana um palacete e de um palacete o espaço todo que há, como um tecto para o mundo todo, um tecto por onde passe o Sol, a brisa e a chuva e o tudo de bom.
Tu és o tudo de bom porque me ensinas só que eu já sabia tudo. O homem, quando nasce, sabe tudo e compreende tudo. Isto de viver é só uma maneira de relembrar o que somos. E cada momento é um segundo de uma vida passada onde fomos extraordinários.

Estamos condenados à maravilha e acreditar nisso é o mesmo que respirar.

Texto de "O Manual da Felicidade" de João Negreiros

quarta-feira, 13 de agosto de 2014

Texto de "O Manual da Felicidade"

A minha mãe deixou de falar para mim.
A minha irmã deixou de falar para mim.
O meu irmão deixou de falar para mim. Já não me liga há três semanas. Não respondeu à mensagem que lhe mandei quinta-feira. Não atendeu, liguei de novo e foi para o voice mail. Não consegui falar para o voice mail.
Estamos zangados, eu e a mulher, não falamos há uma semana. Só coisas pequeninas: “não te esqueças de deixar os papéis na casa da tua mãe que ela precisa disso por causa do IRS”. Mais que isso não dissemos. Nem sozinho fala comigo.
Este silêncio, este silêncio, este sono, este sono lento.
Andam todos sem falar há tanto tempo. Calem-se todos já, porra. Calem-se todos de uma vez. Calem-se! Calem-se! Por dentro estão todos aos gritos. Por dentro insultam-se e olham e dão porrada até matar. Por dentro quem não fala por estar zangado tem o pior dom da palavra.
O silêncio é de ouro. O silêncio é de ouro?! Vou pôr o meu silêncio todo numa loja de penhores e vou comprar uma motorizada, uma boss casal que faça rir quando passa. Vou vender o meu silêncio todo numa daquelas lojas, que agora há muitas, ouro certo, ouro puro, ouro é bom, troca aqui o ouro, ouro qualquer coisa.
Não gosto de estar calado quando tenho coisas para dizer por isso, a partir de hoje, sempre que me apetecer falar falo. E quando vir alguém que quer falar e não consegue, digo uma piada ou peço-lhe que fale comigo ou então que vá fazer silêncio para outro lado que os meus ouvidos não aguentam mais.
Mãe, fala comigo e se não falares falo eu. Imito a tua voz até teres saudades dela e eu deixar de ter.
Mana, diz qualquer coisa parva que eu rio-me só para provar que te ouço e que te amo.
Mano, ouve e responde como se faz nas conversas.
E a quem não me liga dou o saldo que me resta… E se não responder à mensagem levo-lhe um pombo-correio nas mãos até à porta de casa. E se a casa me mandar para o voice mail vou ter com ele ao trabalho e faço uma cena. E se a segurança me acompanhar para fora do edifício, combino uma noite de copos com eles e cantamos juntos os “Resistência” e a “Dulce Pontes”. E se a mulher estiver muda, faço-lhe cócegas. E se o homem estiver calado, dispo-me para ele até que diga coisas porcas que quero ouvir. E se só falar do IRS e do seguro do carro eu falo do IRS, do seguro do carro e da novela só para falar de uma coisa mais bonita que o IRS e o seguro do carro. E quando tiver coisas para dizer, digo a mim sozinho para me ouvir. Gosto de me ouvir. Gosto de ouvir quem gosto. E mato os silêncios constrangedores à dentada, à paulada e à gargalhada… e não as mando dizer por ninguém porque a minha voz é uma dádiva, um dom e uma delícia exóticas.
Anda, amigo… fala, comigo.
Anda, amor, fala comigo.
Anda, fala.
Se tens para dizer, fala.
O silêncio quando é tenso e contrariado só pode melhorar com palavras. As tuas palavras, as minhas palavras. Não precisas de as escolher, só precisas de as querer dizer. Quando o silêncio é demais temos coisas a pensar que não devíamos que nos calam o que temos de bom.
Diz só o que tens de bom e guarda o silêncio para ti. Quebra o silêncio de todos até que não haja dúvidas. O amor da voz é dos mais eficazes.
Fala comigo agora que vou calar-me. Fala, calei-me. Fala tu, fala tu. A tua voz é a coisa mais linda e o que vais dizer é o mais importante.

Diz! Diz já, que depois pode ser tarde.

Texto de "O Manual da Felicidade" de João Negreiros

terça-feira, 12 de agosto de 2014

Texto de "O Manual da Felicidade"

Não suporto quem não precisa de mim.
Deixa-me louca quem não precisa de mim. Preciso tanto de pessoas que precisam de mim.
Eu quero dar-me mas há tão pouca gente no mundo que me sabe receber.
Não quero nada. Só obrigado, beijinhos, prendas pequenas com postal nos anos, flores quando me morrer alguém e guizos quando me nascer.
Irrita-me esta necessidade de dar mesmo quando não me querem. Ponho-me a jeito. Tiram-me o tapete. Fico exposta.
Detesto quem me diz:
- Deixa estar, não é preciso.
- Estou bem, obrigada.
- Não te incomodes.
Mas eu incomodo-me. Eu adoro incomodar-me. Eu sou incómoda por natureza. Eu quero fazer empadas, e queijadas, e levar-te ao hospital, e dar-te sal e óleo quando te faltar. Por favor, pede-me para te ficar com o cão nas férias que eu ensino-lhe truques.
Deixa-me ser generosa. Tenta ser egoísta por mim. Anda lá, fá-lo por mim.
É um desespero isto da generosidade, dou em louca com isto da generosidade.
Gostava de ter talento para ser enjoada e enigmática mas não tenho jeito para isso. Sou dada, desbocada, oferecida, assumida, sem vergonha, sem medo, sem mentiras.
Dou-me a quem quero quando me apetece mas, a partir de hoje, quando vir quem não me quiser… a partir de hoje, quando estiver perante quem não precisa de mim… a partir de hoje, quando estiver mesmo à frente de quem acha que estou a mais, dou-me só a mim própria.
Faço as empadas e como-as eu. Faço as queijadas e como-as eu. Adopto um cão pequenino no canil, e nem vou ao hospital porque sou sã e fico a ver o Natal dos Hospitais a beber chá de cidreira. E o sal mete-o no pão que não o tiver e com o óleo que me sobrar troco o do meu carro que deve estar a precisar, que o meu pai já me avisou na quinta-feira.
Eu sou dada e desbocada e oferecida a quem amo e me quer.
Para quem não me quiser cozinho para mim, falo sozinha e solto uma gargalhada de uma piada que disse e que ninguém percebeu.
Quando quem me quer não está dou-me bem sozinha.
Quando quem me quer não estiver dar-me-ei bem sozinha.

Texto de "O Manual da Felicidade" de João Negreiros

domingo, 10 de agosto de 2014

Sabes-me bem

Ontem um rissol de camarão deu-me um abraço sentido e no fim ofereceu-se para me levar a casa porque eu estava indisposta.
Quando cheguei, uma mousse de manga enviou-me uma sms a dizer que tinha muito orgulho em ter uma amiga como eu.
Acordei a meio da noite e não conseguia dormir e uma tablete de chocolate branco fez-me um chá de camomila, depois sentou os quadrados na cadeira em frente e falou-me da família e até combinámos de ir ao cinema.
Um pudim de ovos levou-me o carro à revisão. Uma embalagem inteira de torrão de alicante convidou-me para ir de fim-de-semana. Eu e o torrão de alicante fomos a Benidorm, por lá encontrámos uma piza familiar e o corredor das bolachas do Pingo Doce que ia numa viagem de final de curso.
Eu não tenho amigos, nem tenho família. Basta-me o afecto da comida que me faz mal.
Quando o meu pai liga atendo enjoada porque comi no bufete um croquete, e uma chamuça e um refrigerante.
Traí o meu marido com um pastel qualquer.
Abandonei os meus amigos, tínhamos combinado fazer coisas importantes mas fui fazer uma sobremesa. Fiquei tão carente de deixar os amigos longe que abracei a sobremesa até cair da mesa abaixo e vomitar o chão da cozinha todo até patinar.
Que é isto? O que é isto?
Porra, o que é isto? Eu não posso ser isto.
Eu sou mais do que isto! Eu sou muito mais do que isto! Eu sou outra coisa!
Eu sou aquilo. Eu tenho paixão pela comida que me faz má, gorda, doente e às manchas e não tenho pelo que devo?
Não tenho a quem devo?
Não tenho a quem devo?
Mas que merda é esta?
A partir deste momento tudo o que me faz mal passa também a saber-me mal.
A partir deste segundo tudo o que fizer mal ao meu corpo será rejeitado por mim que sou guardiã do que sou e do que quero ser.
O afecto que tinha pela gula e a gula que tinha pelo afecto vou dá-la toda, vou dá-la toda às pessoas que me fazem bem e às coisas que quero fazer.
Aprendi e ensinaram-me a gostar do que me fazia mal. Aprendi a gostar à conta disso. Só me falta gostar do que preciso. E preciso mesmo é de ti. Preciso de ti que és uma pessoa e me dás amor em troca de carinhos.
Sei que depois disto um gangue de sobremesas me esperará com correntes e pés de cabra mas não tem mal… eu sou corajosa.
Sei que depois disto um exército de fast-food far-me-á uma perseguição em plena auto-estrada mas não tem mal… eu sou corajosa.
Sei que depois disto receberei telefonemas anónimos ameaçadores a meio da noite feitos por um chocolate de culinária raivoso mas não tem mal… eu sou corajosa.
A verdade é que não preciso de açúcar a mais,
                sou doce.
A verdade é que sou espirituosa,
                não preciso de sal.
Vou pegar no conforto que sinto quando como,
vou pegar na paixão que sinto quando quero comer,
vou pegar na vontade que tenho quando mastigo e entregarei tudo a quem me faz bem à saúde.

Sabes… sabes… sabes-me… bem.

Texto de "O Manual da Felicidade" de João Negreiros