Entrevista de João Negreiros sobre o livro "a verdade dói e pode estar errada": Um livro porque sim
sexta-feira, 24 de junho de 2011
quarta-feira, 15 de junho de 2011
sabedoria para pular, de João Negreiros
sabedoria para pular
diz-se que a Oriente se come arroz
e que os pretos têm ritmo
e que os pretos têm ritmo
e os judeus são bons com dinheiro
e as mulheres é na cozinha
e os homens de pantufas
às crianças torce-se-lhes o pepino para comerem os legumes todos
e o cão é o melhor amigo menos do gato que é um interesseiro que vê bem de noite
e os homossexuais usam cabedal e vão ao ginásio
e os motoqueiros também mas não vão ao ginásio fazem pesos em casa
e os novos ricos são iguais aos ricos tirando o sotaque e as roupas coloridas
e os brasileiros vestem de branco e usam chapéu menos os brasileiros que são pretos e cheiram cola nas esquinas
e temos que ser uns para os outros mas primeiro para nós e para os nossos
e os nossos são aqueles que escolhermos ou aqueles que escolheram por nossos
e os carros japoneses são muito bons porque os japoneses sabem artes marciais
e se o carro não fica bom eles desatam ao pontapé e o carro tem tanto medo que fica bom
e tem tanto medo que até ganha as corridas que passam na TV que também é feita pelos japoneses ao pontapé para depois levar uns biqueiros de um europeu que não sabe artes marciais e por isso destrói a TV
e os chineses são diferentes são iguais aos japoneses mas diferentes mais tristes por não terem máquinas fotográficas
e os turistas nunca sabem o caminho
e os da terra sabem sempre para onde vão
e os cavalos são elegantes menos quando cagam
e as pulgas são irritantes mesmo quando são na areia
e assim é bem mais fácil porque a verdade está na voz das crianças e por isso as crianças bem comportadas calam-se
e os ratos trazem as doenças mesmo os que não trazem
e Deus é igual a um homem tirando o carácter divino ou a falta de carácter divino
e os tímidos são dóceis
e os nobres têm sangue azul sempre que não sangram
e as mulheres demoram muito tempo a arranjar-se mesmo quando não se arranjam porque as que há são feias e as bonitas são más só porque podem
e a nossa cabeça funciona assim como as casas do jogo da glória que diz para avançarmos cinco casas sem ter que lançar os dados porque os dados estão sempre errados
e temos que ouvir os mais velhos mesmo que sejam mudos
e a experiência de vida define-se pelo número de imbecilidades que dizemos e do ar caquéctico que apresentamos
e os bebés querem-se gordos
e as mulheres querem-se magras por isso as mulheres para fazerem um verdadeiro e extraordinário percurso devem passar os anos de formação a fazer dieta para passar com graciosidade do recém-nascido com obesidade mórbida até à adolescente anoréctica
e os homens querem-se com cara de homem e a cheirar a cavalo mas como os cavalos são elegantes melhor não é melhor que o homem cheire a cavalo só quando o cavalo está a cagar
e os artistas são loucos
e os loucos são artistas mas às vezes trocam
e quem faz colecção de selos usa óculos e tem mais de sessenta anos se tiver menos e vir muito bem põe farinha na cabeça e usa armações sem lentes
e os veteranos de guerra têm cicatrizes que fizeram com o canivete do pai só para dizer que estiveram na guerra
e os amigos são para as ocasiões porque é nas ocasiões que vemos os amigos
e é nos maus momentos que sabemos dar o valor e por isso partilhamos os bons momentos com a escumalha
e é isto
a pêra é fina
o bigode é parolo
a barba é revolucionária
e o bigode grande e muito bem tratado é monárquico
e a caneta de tinta permanente permanece no escritório e nunca vai para a cozinha apontar as receitas
e a cozinheira é gorda e está sempre a prová-lo
os costureiros são gays mesmo os que não são
e os cães pequenos ladram muito e os grandes mordem
e cão que ladra não morde ou seja o cão do ditado era pequeno
e é assim
ninguém tem mesmo que pensar é só teleportar o pensamento para um atalho que nos leva a outro atalho que se esbate no primeiro e derrapa no terceiro e no fim resta-nos a interpretação pessoal da ignorância da mediocridade do preconceito da ausência de sentido crítico dos buracos negros do carácter
e todos somos imbecis porque a sabedoria popular o diz
e passa-se de gerações para gerações
e quando damos fé a nossa já passou
e a deles também e a dos outros está quase
e a vida são dois dias
e temos que ser uns para os outros
e cada um é como cada qual
e somos todos diferentes mas não parece
Poema do livro "luto lento", de João Negreiros, à venda em livrarias e em https://www.buknet.pt/?op=pesquisa&pesquisa=jo%E3o+negreiros&t=2
terça-feira, 7 de junho de 2011
a dor mente
"A dor mente" poema de João Negreiros; Música de Rodrigo Leão.
A Anabela Areias, Elisa Antunes, Catarina Borges, Carlos Campos, Carlos Heleno e Luisa Sacchetti a minha eterna amizade. Foi lindo conhecer-vos. Agradeço também ao amigo Rodrigo Leão a amabilidade de aceder ao meu pedido em compor uma música propositadamente para o poema. Apoiem esta causa, partilhem o vídeo.http://youtu.be/ldNbes
a dor mente
a minha dormência anda acordada de dia e de noite
tem dias em que nem o chão me sente
tem pernas em que nem sinto as horas
o corpo todo foi parar a um formigueiro e anda todo a trabalhar por mim
sou feliz à vossa semelhança
a doença tem dias
a doença tem os meus dias
acordo cansado como se o dia tivesse sido ontem
disseram-me que ia acabar numa cadeira de rodas
mas ontem andei contra a maré e ainda tinha pé
eu tenho esclerose múltipla
mas não a tenho todos os dias porque sou muito atarefado e tenho que fazer outras coisas também
tenho que ser outras coisas também
outras coisas também
sou outras coisas também
somos outras coisas também
somos tudo também
o meu sistema anda nervoso à conta disto
mas o teu carinho cura-me
e o amor não tem remédio
tenho falta de equilíbrio
mas ainda hei-de fugir com o circo e caminhar num arame onde há espaço para todos
vê onde pões os pés que há um grande caminho para fazer
não sinto quando me tocas mas amo-te
mesmo sem mãos
mesmo sem dedos
mesmo sem pés
mesmo sem cara
mas com tudo o resto
tenho tudo
tenho tudo o resto
fica comigo que eu prometo que vou fazer tudo para te sentir para sempre
João Negreiros
sábado, 4 de junho de 2011
Festival Internacional das Artes de Leão e Castela - FÀCYL
João Negreiros representa a Literatura Portuguesa
http://www.facyl-festival.com/
O Festival Internacional das Artes de Leão e Castela – FÀCYL – decorre em Salamanca até dia 11 de Junho para apresentar os últimos trabalhos e criações de alguns dos mais prestigiados artistas internacionais contemporâneos. No próximo dia 5 de Junho, pelas 22h, o consagrado escritor português João Negreiros subirá ao palco do Festival para apresentar o seu mais recente trabalho “a verdade dói e pode estar errada”.
Segundo o director artístico do festival, Calixto Bieito, FÀCYL é “um canto optimista e positivo da cultura e da liberdade” propondo “um diálogo com as tendências artísticas do século XXI”. Para a Conselheira de Cultura e Turismo da Junta de Leão e Castela, María José Salgueiro, o certame tem vindo a adquirir uma personalidade própria” se bem que tem mantido “intactos os principais objectivos” que passam pela “aposta firme no trabalho artístico mais vanguardista do panorama internacional, pelo fomento da criação e pelo apoio aos artistas e companhias de Leão e Castela”. Por último, assegurou que nos últimos quatro anos “485 artistas e companhias de 32 países apresentaram mais de 750 obras e espectáculos”.
O Festival conta com um orçamento de 1,4 milhões de euros e pretende ser um festival elegante, inovador e vanguardista.
sexta-feira, 13 de maio de 2011
tu messias mais
tu messias mais
se ninguém te quiser ouvir grita
escala um arranha-céus e diz tudo
até que as entranhas se esvaiam em acordeões
até que sejas impossível de ignorar
e se te baterem bate a mais portas
e se te baterem mais usa a testa como aríete e entra-lhes nos pensamentos
tu sabes que tens razão
tu tens sempre razão
tu vais salvar toda a gente de si própria
tu sabes o segredo que lhes vai mudar as vidas
tu és o sopro que lhes falta quando assobiam
o som da trombeta
o guizo do chapéu
o rasgo do papel
o mago da magia
o marco do correio
o pico do cume
a água do dromedário
tu vieste para ajudar
tu só queres ajudar
então porque não te deixam?
porque não te sopram carinho ao ouvido e te chamam nomes feios que tu sabes não serem da tua família nem da afastada
a sociedade também foi feita para ti
um bocadinho foi
um buraquinho foi
porque não te deixam entrar lá?
porque não te deixam estar lá?
querem-te à chuva e ao frio
sem amigos
sem calor
sem pão
sem sal
não te dão nem um naco da tua própria carne
nem a luz do teu quarto
nem o silêncio da tua mente
e tu aceitas?
e tu ficas-te?
e tu não protestas?
seu banana
seu falhado
seu funcionário sem sindicato
sua mulherzinha que nunca votou
sua criancinha que limpa o prato
seu homossexual não assumido
seu cão sem pulgas
seu cabrão sem cornos
seu tronco sem pau
seu pau mandado
seu arado sem terra
seu dinossauro radioactivo sem cidade japonesa
seu lamparina sem petróleo que foi inundar uma gaivota
seu cabeça sem capacho
seu diamante
seu bruto
seu papa-açorda
seu caramelo
seu lambe-cus
seu
seu
seu
seu és tu
seu és tu
ouviste?
seu é contigo
seu é para ti
acorda
já é noite
já foi dia
amanhã vai ser tudo isso outra vez e tu estás ao relento
não tens onde ficar
não tens lugar na terra e ninguém to vai dar se não esgravatares
procura
pede
come
ataca
implora
arrasta-te
resvala
escorrega
assusta-os
ignora-os
tu sabes que tens razão
e a tua razão é respirar
se respiras tens direito à vida
se tens direito à vida tens direito a chorar
se tens direito a chorar tens direito a voz
se tens direito a voz tens direito a que te ouçam
se tens direito a que te ouçam tens direito a dizer algo que lhes mude as vidas
se tens direito a dizer algo que lhes mude as vidas tens direito a mudar também a tua
não peças respeito
nasce respeitado
não implores por dignidade
apregoa a dignificação do Homem
não mendigues comida
acaba com a fome
não protejas os teus filhos
protege todos os filhos
não procures uma religião
faz o que um Deus bom faria
não ouças tudo o que te dizem
ouve todos os que falam
tens direito ao teu canto
e o teu canto é o de mudar tudo
tu podes mudar tudo
tu deves mudar tudo
tu sabes mudar tudo
repara nas pessoas e muda-as para melhor se elas quiserem
aproveita para ires melhorando também
dá-te como se fosses de borla
não peças nada em troca mas dá com um sorriso mais rasgado a quem te der um beijo no fim
não tenhas medo que te interpretem mal
aliás não tenhas medo que te interpretem
aliás não tenhas medo
guarda o melhor para os outros e o pior para ti
mas não sejas cruel contigo que és o único que tens
tens que ter noção do teu papel
e o teu papel é duro como se embrulhasse pregos ou cacos que não queremos nas mãos do senhor da recolha nem nos dentes do gato vadio
o que tu vais fazer agora porque é o único tempo que te pertence é mudar
mudar até que nada fique igual
até que esteja mesmo do agrado de todos
mas se por acaso no meio do teu percurso de conflito e mudança
no meio da tua jornada de luta pelo bem encontrares algo de profundamente belo
não lhe mexas
não lhe toques
pega numa cadeira de praia monta-a e senta-te calmamente a apreciar
Poema do livro "a verdade dói e pode estar errada", de João Negreiros, à venda em livrarias e em http://www.saidadeemergencia.com/index.php?page=Books.BookView&book_id=535
terça-feira, 26 de abril de 2011
Espectáculos de apresentação da 2ª edição de "luto lento"
Espectáculos de apresentação da 2ª edição do livro "luto lento" levados a cabo pelo Teatro Universitário do Minho.
Coimbra | 29 de Abril | 18h | Livraria Leya, Rua Ferreira Borges, 79
Matosinhos | 30 de Abril | 17h | Fnac Marshopping
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