domingo, 20 de março de 2011

a menina da pastelaria


a menina da pastelaria

conheci uma menina que trabalhava numa pastelaria e os bolos          de tão secos          faziam-lhe o sorriso mais doce

e eu estava tão guloso dela que contraí um desarranjo intestinal p’ra ninguém desconfiar

e nunca lhe levei trocado para ela me tocar a mão junto com o frio das moedas          ou p’ra dizer quase
indignada de tão risonha          não tem mais pequeno?

ao que eu respondia que não

e ela dizia          então vou ver ao porta-moedas          porque o pai dela era o dono e ela às vezes metia do dela p’ra depois tirar do dele

e ela voltava-se

e esticava-se até ao cimo do frigorífico

e resgatava o porta-moedas dos coelhinhos

e no acto de esticar eu via-lhe as costas e a barriga melhor por causa do top que só tapava o de cima

e          quando ela estava tão esticada como a cortina que fechou p’ra ninguém conseguir ver          eu parei o tempo

é isso          agora parei o tempo e vou ficar          no mínimo dos mínimos          três séculos a ver-lhe a barriga e o fundo das costas

e a língua no canto da boca como quem esperneia por felicidade

e vou-lhe fazer juras de amor

e gritar alto o nome que lhe pende da etiqueta do uniforme

e vou-me despir completamente

e masturbar-me respeitosamente porque o tempo parou

e a terra já não gira porque gira és tu

e as plantas já não crescem

e a única flor que desabrocha és tu          que mesmo estática          tens o movimento de quem não precisa de se mexer para ser bela

de quem não precisa de falar para ser bela porque a tua beleza não está contigo mas dentro de mim

como o troco que nunca tens mas que eu imploro que me dês


e um dia vou ter que tornar à vida e fazer o mundo girar de novo          mas não me apetece nada

e um dia vou ter que deixar as pessoas seguirem com a sua vida          mas não me apetece nada

e um dia vou ter que te esquecer

vou ter que te deixar envelhecer com um monstro que te trate mal

e te chame nomes feios

e não te respeite

e não te saiba o nome          nem com a ajuda da etiqueta

e não te pague os doces porque diz sempre que estão secos

e não me apetece nada

e não me apetece nada deixar-te seguir p’ra que deixes de ser

e saio

e soube-me mal

e estico a língua quase até à bochecha para resgatar o açúcar          a farinha e a lágrima ao mesmo tempo

tudo ao mesmo tempo

 
e nunca mais vou voltar a ver-te porque nunca mais te reconhecerei

a não ser que um dia me esqueça dos trocos de novo e te dê uma nota grande que tu trocarás por miúdos que são os nossos filhos

Poema do livro "luto lento" à venda nas livrarias e em

quarta-feira, 2 de março de 2011

O único bem precioso

Dá-me um beijo como se fosse na boca, dá-me um beijo como se fosse na tua. Dá-me um beijo como eu te dou porque quero sentir na pele o incondicionalismo do meu amor, só para saber quanto custa o que não tem preço mas que, para ti, estará eternamente na prateleira das promoções com o desconto do infinito e uma menina a dar amostras, às quais te fazes cara para que te dê o valor. E o valor sei-o de cor como os lápis de cera que derreti à Santa, pedindo-lhe para interceder junto do teu olhar para que me visses com outros olhos, os gentis que não tinham graduação… por não serem oficiais e não precisarem de óculos.
Dá-me o virar da cara para te conhecer melhor a face esquerda. Dá-me o virar da cara para te conhecer melhor a face direita. E à terceira dás-me os lábios para que eu te mostre o que tenho andado a praticar às escondidas com as tuas bochechas.
Sabes, eu e algumas partes do teu corpo somos cúmplices e não sabes mas conheço-te como não imaginas porque te vês mal… com a rudeza de quem julga o belo como a um filme mau que era preciso ver em boa companhia, com o maior dos intervalos e com o enredo que só as carícias sabem engrossar.
E agora conheço-te completamente como o fruto que me escorrega no sumo até ao queixo, mas que eu resgato com cuidado para que nada se desperdice. É importante que o amor não se desperdice porque o amor, nos dias que correm, é o único bem precioso.

Poema do livro "luto lento" à venda em livrarias e em https://www.buknet.pt/?op=pesquisa&pesquisa=jo%E3o+negreiros&t=2


segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

"Código postal" - poema do livro "o cheiro da sombra das flores"


Código postal

As paredes desta casa já viram tudo

o sono

a fome

e um tambor perdido no meio da batalha

viram inquilinos fugir à pressa          e a treva que os ladrões trouxeram

as bulhas que desaguaram em carícias

as portas que bateram por conta do vento          e as janelas que partiram por conta de nada

mas cada vez que um vinha e entrava          dava a todos esta morada

e o correio trazia para o mesmo destinatário as cartas de amor de quem já não mora aqui

e eu não quero saber

abro-as e leio-as como se fossem minhas          como se fossem tuas

e violo-lhes a correspondência como se fosses tu

esqueço a letra e os erros de ortografia e imagino que me escreves todos os dias

e quando perguntam se mora aqui a dona Augusta

eu digo que sim          que sou eu

o senhor Gustavo?

sim          sou eu

o doutor Américo?

é o meu pai

a dona Lourdes?

é a minha mãe

a Maria de Fátima?

é minha filha

e o correio não faz perguntas porque sabe que não se deve perguntar nada a um homem apaixonado

e então faço de conta que os nomes sou eu

tapo o remetente          imagino-te o nome          e abro-a para sentir o teu perfume

e a carta começa assim

excelentíssimo senhor          e eu traduzo para           meu querido

e depois continua com

venho por este meio          e eu traduzo para          amo-te mais que a vida

e a carta do tribunal com aviso de recepção do homem que morava aqui e que não pagava a renda é a prova inequívoca de que me amas

todo aquele papaguear jurídico são longas descrições do país exótico onde vives exilada

é por isso que não podes vir

é por isso que não podes escrever          não te deixam

por isso escreves em código na pena dos que partiram

com cartas de tribunal e contas da luz antigas para me alumiar a esperança          pedindo-me que espere

e sempre que o telefone toca e é engano          és tu

quando o galho comprido da árvore do vizinho bate na janela          és tu

quando buzinam na rua          és tu

quando as crianças cantam lá fora         é para te anunciar

eu sei

não tardas

estás para chegar

e quando chegares vais pedir desculpa pelo atraso

e vais dizer que fomos feitos um para o outro           e que a vida agora vai correr bem

e vais ser linda          e dar-me beijos quentes como um abafo para as orelhas

e vamos viver nesta casa um perpétuo amor          uma vida perfeita

sem nada que nos interrompa

e quando o carteiro chegar e fizer perguntas

dizemos que a dona Augusta não sou eu

dizemos que o senhor Gustavo não sou eu

que o doutor Américo era o meu pai mas morreu

que a dona Lourdes era minha mãe mas também se foi logo a seguir com o desgosto

que a Maria de Fátima          a minha pequenina de um casamento antigo          foi com a mãe para a Suíça

e que aqui moramos nós

sem história

sem família

sem passado

nesta paz que não existe

neste amor que nunca foi          mas que é para sempre

Poema do livro "o cheiro da sombra das flores" à venda em livrrias

domingo, 2 de janeiro de 2011

A bolacha do sortido

Querem-me comer a carne que já não é tenra, não por fome… mas por sede.
Querem-me a seu lado como o braço da cadeira de ferro que serve para torturar crianças que não dizem a verdade. Elas só sabem que a verdade é a mentira possível… não pode estar a acontecer, não devia, ninguém queria, ninguém sonhou com isto, ninguém fez nada para que acontecesse… então… porque acontece sempre se ninguém quer? Exactamente, acontece sempre exactamente por ninguém querer. É que o que nós imploramos que não seja dá aos nossos receios a força do papo que temos na mão, o que o enfermeiro não se atreve a lancetar porque sabe que nesse monte está um mar de pus e escuro que vai inundar a aldeia e arrastar o celeiro até à estrada, alimentando as vias do mundo de um trigo molhado e doente que devora os anseios e os laços.
Há que deixar o real e encontrar refúgio na mente, na mentira doce que fugiu para a caixa de sortido inglês esquecida no sótão. Dá-me uma bolacha, como uma bolacha. Dá-me uma bolacha, trinco uma bolacha. Dá-me uma bolacha, lambo uma bolacha. Dá-me uma bolacha, quero outra bolacha. Dá-me uma bolacha, esta é de chocolate. Dá-me uma bolacha, esta tem a cobertura vermelha dos morangos. Dá-me uma bolacha, a que gostares mais que eu rilho-lhe as arestas a pensar em ti. Dá-me uma bolacha até me fazeres cheio. Até me deixares alegre do açúcar… e a sós com o universo que não está para além da caixa e que, por isso mesmo, é infinito… porque a caixa do sortido tem camadas, plataformas, andares e, por baixo, tem mais igual, por baixo tem mais igual e nunca iremos passar a fome dos que andam na neve como nos programas especiais de Natal à procura da mamã que vão confundir com uma figurante que não nos conhece e que, depois de gravar, vai comer um jantar caseiro feito no micro-ondas enquanto fala com dois gatos. A caixa não terá fim, vamos tirar os fatos do Carnaval de 82, quando fomos de esquilo para combater o frio e deixar que as calorias nos dêem calor. Está-se bem no sótão, não tem porta e a escada de caracol que vem cá dar anda devagarinho. Já vamos na septuagésima oitava camada, estou prestes a morrer de felicidade mas a solidão faz-me companhia, tu és a companhia por não me contrariares… por me acabares as frases que quero conhecer no fim.
O fato de esquilo faz-me as orelhas arrebitadas e a cauda que não tenho, tu fazes-me companhia como a água que sabe a cloro.
O sótão faz-me tecto para não ver como o céu é injusto.
As pessoas fazem-me falta… e mal… e eu não as quero conhecer porque à distância percebo-as melhor com óculo do que perto com binóculo. E, quando próximos por me verem, mudam os costumes e transformam-se como as máquinas a caminho da sucata, as que deitam tudo por fora e nos inundam a casa, fazendo o curto-circuito que nos encurta o sono e o sonho. As pessoas dão-me o sono de fugir a trote sem a diligência do cocheiro.
Queres ficar cá em cima, mesmo que lá em baixo toque a porta com os nós? Queres fazer-me a companhia dos soldados mortos?
Queres mais ternura sem canela? Queres mais uma camada de sortido? A bolacha do sortido…
 A migalha mais rápida que o esquilo vai cair entre o pescoço e a gola e roçar todo o corpo até ao mínimo pé.

Poema do livro "a verdade dói e pode estar errada", de João Negreiros

sábado, 18 de dezembro de 2010

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

"a verdade dói e pode estar errada" - espectáculo de poesia


Neste espectáculo, João Negreiros interpreta alguns dos poemas do seu mais recente livro de poesia “a verdade dói e pode estar errada”, emprestando-lhes a sua voz, o seu corpo e todas as emoções e estados de espírito que estes são capazes de conter. As interpretações são tão inigualavelmente viscerais, inesperadas e apaixonantes que o resultado tem conquistado o coração de quem assiste numa alienação que é saudável porque abre portas para o pensamento.

26 de Novembro | 21h30 | Pampilhosa da Serra
entrada livre