quarta-feira, 2 de março de 2011

O único bem precioso

Dá-me um beijo como se fosse na boca, dá-me um beijo como se fosse na tua. Dá-me um beijo como eu te dou porque quero sentir na pele o incondicionalismo do meu amor, só para saber quanto custa o que não tem preço mas que, para ti, estará eternamente na prateleira das promoções com o desconto do infinito e uma menina a dar amostras, às quais te fazes cara para que te dê o valor. E o valor sei-o de cor como os lápis de cera que derreti à Santa, pedindo-lhe para interceder junto do teu olhar para que me visses com outros olhos, os gentis que não tinham graduação… por não serem oficiais e não precisarem de óculos.
Dá-me o virar da cara para te conhecer melhor a face esquerda. Dá-me o virar da cara para te conhecer melhor a face direita. E à terceira dás-me os lábios para que eu te mostre o que tenho andado a praticar às escondidas com as tuas bochechas.
Sabes, eu e algumas partes do teu corpo somos cúmplices e não sabes mas conheço-te como não imaginas porque te vês mal… com a rudeza de quem julga o belo como a um filme mau que era preciso ver em boa companhia, com o maior dos intervalos e com o enredo que só as carícias sabem engrossar.
E agora conheço-te completamente como o fruto que me escorrega no sumo até ao queixo, mas que eu resgato com cuidado para que nada se desperdice. É importante que o amor não se desperdice porque o amor, nos dias que correm, é o único bem precioso.

Poema do livro "luto lento" à venda em livrarias e em https://www.buknet.pt/?op=pesquisa&pesquisa=jo%E3o+negreiros&t=2


segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

"Código postal" - poema do livro "o cheiro da sombra das flores"


Código postal

As paredes desta casa já viram tudo

o sono

a fome

e um tambor perdido no meio da batalha

viram inquilinos fugir à pressa          e a treva que os ladrões trouxeram

as bulhas que desaguaram em carícias

as portas que bateram por conta do vento          e as janelas que partiram por conta de nada

mas cada vez que um vinha e entrava          dava a todos esta morada

e o correio trazia para o mesmo destinatário as cartas de amor de quem já não mora aqui

e eu não quero saber

abro-as e leio-as como se fossem minhas          como se fossem tuas

e violo-lhes a correspondência como se fosses tu

esqueço a letra e os erros de ortografia e imagino que me escreves todos os dias

e quando perguntam se mora aqui a dona Augusta

eu digo que sim          que sou eu

o senhor Gustavo?

sim          sou eu

o doutor Américo?

é o meu pai

a dona Lourdes?

é a minha mãe

a Maria de Fátima?

é minha filha

e o correio não faz perguntas porque sabe que não se deve perguntar nada a um homem apaixonado

e então faço de conta que os nomes sou eu

tapo o remetente          imagino-te o nome          e abro-a para sentir o teu perfume

e a carta começa assim

excelentíssimo senhor          e eu traduzo para           meu querido

e depois continua com

venho por este meio          e eu traduzo para          amo-te mais que a vida

e a carta do tribunal com aviso de recepção do homem que morava aqui e que não pagava a renda é a prova inequívoca de que me amas

todo aquele papaguear jurídico são longas descrições do país exótico onde vives exilada

é por isso que não podes vir

é por isso que não podes escrever          não te deixam

por isso escreves em código na pena dos que partiram

com cartas de tribunal e contas da luz antigas para me alumiar a esperança          pedindo-me que espere

e sempre que o telefone toca e é engano          és tu

quando o galho comprido da árvore do vizinho bate na janela          és tu

quando buzinam na rua          és tu

quando as crianças cantam lá fora         é para te anunciar

eu sei

não tardas

estás para chegar

e quando chegares vais pedir desculpa pelo atraso

e vais dizer que fomos feitos um para o outro           e que a vida agora vai correr bem

e vais ser linda          e dar-me beijos quentes como um abafo para as orelhas

e vamos viver nesta casa um perpétuo amor          uma vida perfeita

sem nada que nos interrompa

e quando o carteiro chegar e fizer perguntas

dizemos que a dona Augusta não sou eu

dizemos que o senhor Gustavo não sou eu

que o doutor Américo era o meu pai mas morreu

que a dona Lourdes era minha mãe mas também se foi logo a seguir com o desgosto

que a Maria de Fátima          a minha pequenina de um casamento antigo          foi com a mãe para a Suíça

e que aqui moramos nós

sem história

sem família

sem passado

nesta paz que não existe

neste amor que nunca foi          mas que é para sempre

Poema do livro "o cheiro da sombra das flores" à venda em livrrias

domingo, 2 de janeiro de 2011

A bolacha do sortido

Querem-me comer a carne que já não é tenra, não por fome… mas por sede.
Querem-me a seu lado como o braço da cadeira de ferro que serve para torturar crianças que não dizem a verdade. Elas só sabem que a verdade é a mentira possível… não pode estar a acontecer, não devia, ninguém queria, ninguém sonhou com isto, ninguém fez nada para que acontecesse… então… porque acontece sempre se ninguém quer? Exactamente, acontece sempre exactamente por ninguém querer. É que o que nós imploramos que não seja dá aos nossos receios a força do papo que temos na mão, o que o enfermeiro não se atreve a lancetar porque sabe que nesse monte está um mar de pus e escuro que vai inundar a aldeia e arrastar o celeiro até à estrada, alimentando as vias do mundo de um trigo molhado e doente que devora os anseios e os laços.
Há que deixar o real e encontrar refúgio na mente, na mentira doce que fugiu para a caixa de sortido inglês esquecida no sótão. Dá-me uma bolacha, como uma bolacha. Dá-me uma bolacha, trinco uma bolacha. Dá-me uma bolacha, lambo uma bolacha. Dá-me uma bolacha, quero outra bolacha. Dá-me uma bolacha, esta é de chocolate. Dá-me uma bolacha, esta tem a cobertura vermelha dos morangos. Dá-me uma bolacha, a que gostares mais que eu rilho-lhe as arestas a pensar em ti. Dá-me uma bolacha até me fazeres cheio. Até me deixares alegre do açúcar… e a sós com o universo que não está para além da caixa e que, por isso mesmo, é infinito… porque a caixa do sortido tem camadas, plataformas, andares e, por baixo, tem mais igual, por baixo tem mais igual e nunca iremos passar a fome dos que andam na neve como nos programas especiais de Natal à procura da mamã que vão confundir com uma figurante que não nos conhece e que, depois de gravar, vai comer um jantar caseiro feito no micro-ondas enquanto fala com dois gatos. A caixa não terá fim, vamos tirar os fatos do Carnaval de 82, quando fomos de esquilo para combater o frio e deixar que as calorias nos dêem calor. Está-se bem no sótão, não tem porta e a escada de caracol que vem cá dar anda devagarinho. Já vamos na septuagésima oitava camada, estou prestes a morrer de felicidade mas a solidão faz-me companhia, tu és a companhia por não me contrariares… por me acabares as frases que quero conhecer no fim.
O fato de esquilo faz-me as orelhas arrebitadas e a cauda que não tenho, tu fazes-me companhia como a água que sabe a cloro.
O sótão faz-me tecto para não ver como o céu é injusto.
As pessoas fazem-me falta… e mal… e eu não as quero conhecer porque à distância percebo-as melhor com óculo do que perto com binóculo. E, quando próximos por me verem, mudam os costumes e transformam-se como as máquinas a caminho da sucata, as que deitam tudo por fora e nos inundam a casa, fazendo o curto-circuito que nos encurta o sono e o sonho. As pessoas dão-me o sono de fugir a trote sem a diligência do cocheiro.
Queres ficar cá em cima, mesmo que lá em baixo toque a porta com os nós? Queres fazer-me a companhia dos soldados mortos?
Queres mais ternura sem canela? Queres mais uma camada de sortido? A bolacha do sortido…
 A migalha mais rápida que o esquilo vai cair entre o pescoço e a gola e roçar todo o corpo até ao mínimo pé.

Poema do livro "a verdade dói e pode estar errada", de João Negreiros

sábado, 18 de dezembro de 2010

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

"a verdade dói e pode estar errada" - espectáculo de poesia


Neste espectáculo, João Negreiros interpreta alguns dos poemas do seu mais recente livro de poesia “a verdade dói e pode estar errada”, emprestando-lhes a sua voz, o seu corpo e todas as emoções e estados de espírito que estes são capazes de conter. As interpretações são tão inigualavelmente viscerais, inesperadas e apaixonantes que o resultado tem conquistado o coração de quem assiste numa alienação que é saudável porque abre portas para o pensamento.

26 de Novembro | 21h30 | Pampilhosa da Serra
entrada livre

domingo, 14 de novembro de 2010

Tempo morto



Poema do livro "luto lento" à venda nas livrarias e em https://www.buknet.pt/?op=pesquisa&pesquisa=jo%E3o+negreiros&t=2

Tempo morto

Às vezes tenho a impressão de que os sítios de onde venho não existem. Ou melhor, existem quando lá estou mas, mal saio, tenho a sensação de eles já não estarem lá só porque eu não estou lá. E ando a praticar toda a minha rapidez para ver se consigo apanhar o espaço desprevenido, mas o espaço é muito atento. O tempo não, o tempo, às vezes, engana-se e anda mais devagar… que já tenho reparado, mas o espaço é mesmo inteligente. No outro dia fui da sala à cozinha e, quando parecia que estava completamente decidido a ficar pela cozinha, corri da forma mais inadvertida e espontânea que consegui de novo para a sala e, naquele momento, tive… juro que tive quase a sensação de que a mesa e as cadeiras ainda não estavam completamente refeitas do choque, não estavam completamente materializadas. E então fui até à porta que estava lá e gritei para as pessoas que não estavam lá… para mim… para virem ver a minha… julgo que… sensação de desmaterialização espontânea da minha sala-de-estar. Mas a única pessoa que consegui cativar para a minha jornada de luta contra o espaço foi o meu vizinho que estava bêbado e em roupa interior. E então eu e o meu vizinho, que se chama Joaquim e que não tinha nada para fazer naquela tarde a não ser estar bêbado e de roupa interior, passámos três horas a tentar apanhar o espaço desprevenido, mas ele não deixou. E nunca mais jurei que tive aquela sensação, mas o Joaquim teve-a, a sensação, disse que quando chegava aos sítios tudo estava branco… e que quando olhava para trás, de repente, o sítio de onde vinha tinha ido para o espaço porque o espaço não teve tempo... porque o tempo é incompetente e, às vezes, anda devagar e o Joaquim, por estar constantemente bêbado, adquiriu super-poderes e consegue ver sempre o que não está lá. Vou fazer como o Joaquim e afogar-me no fundo de uma garrafa de conhaque, como aquele barco que o meu avô guardava na biblioteca que se perdeu com a inundação. E bebo, e trago, e mais outro trago comigo para me ajudar, e cambaleio, e tropeço, e entorpeço mas o espaço está sempre lá, o cabrão está sempre lá e o tempo está feito com ele, abranda-me o relógio que tenho na cabeça para que eu não veja que isto é uma ilusão. É uma sensação de julgo que eterna e eu tento não julgar mas julgo muito… que acho que tenho a sensação que alguma coisa aqui não está bem… que este mundo tem alguma coisa por trás a mexer os cordelinhos, a meter uma cunhazita, a orquestrar-me a banda sonora das enxaquecas.

E eu acho que estão todos feitos com o gajo atrás do espaço e do tempo, estão todos feitos com ele… menos o Joaquim que é meu amigo. E só é meu amigo porque está bêbado e de roupa interior, quando estiver sóbrio nem os bons dias me vai dar porque os meus dias são maus. E tenho a certeza que podia contar isto a todos os milhões e milhões de pessoas que não existem (porque eu não as conheço) que elas não acreditariam em mim (porque não me conhecem). Logo, não existo apesar de me verem se eu estiver lá. E lá está, é infalível, este plano é absolutamente eficaz porque as pessoas nunca vão estar onde não estão e por isso o não estar desaparece.
E o impostor do espaço, irmão do tempo que corre como quem soletra, vai dominar-nos sempre, vai ter-nos sempre nas suas mãos que vão estar sempre atrás das costas, a fazer figas para nós não vermos.
E eu não tenho tempo porque o cabrão para mim andou depressa demais, foi a maneira que arranjou de se vingar. E não tenho espaço porque o espaço levou a mal eu dizer estas coisas e escorraçou-me para um sítio que não existe. E eu agora tenho provas mas no sítio que não existe não há ninguém para me ouvir. E eu podia esperar mas lá também não há tempo. E não tenho corpo, nem alma, nem nada… não, nada tenho, tenho nada e tenho-me a mim… e vocês podem achar que é pouco mas, para mim, chega para vencer, basta-me nada e eu, eu e mais nada… e é tudo.
in luto lento, de João Negreiros