sexta-feira, 12 de março de 2010

Crítica do Prof. Doutor António Manuel Ferreira (Universidade de Aveiro) a poemas do livro "a verdade dói e pode estar errada"

O Prof. Doutor António Manuel Ferreira, na apresentação da obra vencedora do Prémio Nuno júdice, considerou quepara situarmos estes textos [presentes no livro "a verdade dói e pode estar errada"] na sua genealogia ético-estética temos de recuar no séc. XX e de revisitar alguns textos essenciais de Fernando Pessoa, nomeadamente, as desalentadas confissões de Álvaro de Campos” e continuou dizendo que os poemas de João Negreiros “integram-se em pleno direito num dos trilhos mais vitais da Poesia Portuguesa.” O Professor da Universidade de Aveiro chegou mesmo a ler alguns excertos do poema "o Outono visto pela janela", que adjectivou como magníficos.

“anda

aconchega-te no mofo do t1

finge que és de antigamente para te dar os beijinhos de quando era pequenino

cheiras à minha avó

à roupa no estendal

à canção do fim dos bonecos

ao banho que está a ficar frio

ao grito do granizo do dia mais longo em que a casa esteve para cair”

Parece tudo muito simples, sem qualidades, digamos assim, para usarmos uma expressão que já faz parte do nosso aparato crítico contemporâneo, mas não é.” O Professor finalizou afirmando que “um homem que manifesta uma relação tão sincera com a Língua Portuguesa só pode ser um verdadeiro poeta. E dizer isto é, para mim, dizer tudo”.


segunda-feira, 8 de março de 2010

"moro em ti que tem cidades que cheguem" - Prémio Nuno Júdice 2009


-->
moro em ti que tem cidades que cheguem

sabe-me a sonho o teu colar
a salto o teu sofrer
encosta-te no momento do repouso que eu levo injúrias dedicadas a
[quem te quer mal
deixa-os para mim que avio-os como receitas de um xarope amargo
[que lhes tira a tosse
e lanço-me aos seus encontros
distribuo para cada o de cada um aliviando-te de inimigos
fazendo-te amigos fortes e feitos à minha força
quem não te quiser não presta
nem para cola
nem para adubo
nem para lixo
os cães vadios recusam teus inimigos
as ratazanas de pior reputação recusam teus inimigos
e as baratas rastejam para fora no tempo em que as tainhas nadam
[p’ra longe
é obrigatório que todos te queiram p’ra que a concorrência me lembre
[tuas virtudes
assim dou-te o valor que quero e o valor que me obrigam
amando-te por querer e por obrigação
e deste ajuntamento construo o protótipo aerodinâmico inter-galáctico
[do amante perfeito
faço-me à semelhança do que nunca houve e aventuro-me por ti
[dando-te a essência do que conheço
e agora vendo bem
vendo por dentro
comparando com a inveja de todos
acho-te magnífica
tens salões que não acabam
mansões forradas a folha de ouro
gastaram os elefantes no marfim dos teus soalhos de selvas extintas
e és rara porque és única
todas as mulheres morreram para te prestar vassalagem
para nascerem outra coisa mais tarde porque esta já está ocupada
ser mulher já tem dona
és tu
as outras morreram na tentativa
os outros morrem por ser eu
e somos o início
fechamo-nos entre aspas e inventamos palavras novas que as que
[estavam não te diziam
dá a mão
não tenhas medo
dá a mãozinha
e já agora tudo o resto que não preciso de mais nada
tu chegas-me
moro em ti que tem cidades que cheguem
quando te falo grito o eco da praça interior
tu ouves-me pelos órgãos internos e respondes-me pela mobília de
[madeiras nobres que me sorri e me aceita como uma gaveta à procura
[de documentos
estás bem sozinha aí fora
estou bem sozinho aqui dentro
e vemo-nos nos dias em que o ouvido interno encontra o equilíbrio na
[voz dos pássaros

in "a verdade dói e pode estar errada" de João Negreiros - (poesia) Colecção Camões & Companhia da Saída de Emergência

inclui poemas do Prémio Nuno Júdice 2009

quinta-feira, 4 de março de 2010

O MAR QUE A GENTE FAZ




O MAR QUE A GENTE FAZ, de João Negreiros - (Conto) Colecção Camões & Companhia da Saída de Emergência

Excerto

Vamos passar à frente, que é o que fazem os ditadores e os impacientes. E passamos à frente um… não, dois ou três… bem, passemos quatro para arredondar. E vamos até uma tarde soalheira e próxima como os fins-de-semana. Vem para ele uma mulher bonita e quase a deixar de ser nova. Ela chama-se Deolinda, mas todos dizem que ela é Linda, por isso é linda porque ainda há pouco lhe descrevi a beleza… não, espera que não descrevi, mas descrevo agora: olhos cor de avelã, pele crestada pelo Sol como mel quando está duro, cabelos compridos a fazer comichão às costas e castanhos por dentro com umas madeixas louras que uma vizinha cabeleireira lhe deu de presente e que lhe ficam mal para não existir perfeição. Esta é Deolinda. É a mãe do Sargo. Anda de chinelos e avental e tem um colo grande e fofo, que deve ser das pernas grossas que andaram a levantar molhos de redes. Esta é a Deolinda e é a minha mãe, porque agora isto começa a tornar-se muito pessoal e devo ser eu a contar.


Depois do grande sucesso de “Inspiração é Respirar”, o Teatro Universitário do Minho aborda de novo o imaginário lírico de João Negreiros. O espectáculo é uma fusão de poemas antigos e inéditos. O naturalismo, a emoção aliados à dimensão sonora da poesia dão a toda a performance uma sensação visceral e palpável, aproximando os poemas dos anseios, medos e problemáticas do próprio público. É um espectáculo alegre e soturno, épico e intimista, hilariante e dramático. As vozes de tessituras diferentes fornecem uma paleta sonora muito abrangente dando cor e alma à literatura que já de si a possui. Momentos únicos com os quais o público se identificará.
É a poesia para pessoas primeiro e para poetas depois.

É a poesia para pessoas primeiro e para leitores depois.

É a poesia para pessoas primeiro e para pessoas agora.
  • Fnac de Guimarães | 5 de Março | 21h30
  • Clube Literário do Porto | 6 de Março | 21h30
  • Fnac Marshopping | 19 de Março | 21h30
  • Livraria Books&Living | 20 de Março | 17h
  • VizelaImaginativa | 21 de Março | 16h
  • Festival de Teatro UBI, Covilhã | 25 de Março | 21h30

terça-feira, 2 de março de 2010

De Mário de Sá-Carneiro a João Negreiros nas "quintas de poesia" no Frágil, em Março

Em Março a poesia é o mote para encontros nas noites de quinta-feira no Frágil, em Lisboa, onde "mais do que ler, propõe-se criar um ambiente em que se vive poesia", explicou fonte da organização.

Destak/Lusa - http://www.destak.pt/artigo/55483

dia 25 - João Negreiros
lido por João Negreiros
vídeo de Sérgio Castro

segunda-feira, 1 de março de 2010

a verdade dói e pode estar errada - dia 5 de Março nas livrarias

"a verdade dói e pode estar errada" de João Negreiros - (poesia) Colecção Camões & Companhia da Saída de Emergência

inclui poema vencedor do Prémio Nuno Júdice 2009

o Outono visto pela janela


na casa onde nasci havia sons e cheiros meus
as pessoas que os tinham emprestavam-mos à memória
e eu incluía-os como amigos íntimos
nesta não tem gente
ou se tem não têm cheiro
nem som porque eu não me lembro
gastei toda a memória nas pessoas antigas
e o espaço para as novas é um T1 que fica muito para além do T
onde eu estou sem visitas
fechado à medida de não deixar entrar
preciso do que já foi como do próximo ar para me lembrar que foi bom
eu já fui bom
agora não sei
mas já fui
juro que fui
e quero gastar as únicas energias a fazer manutenção às memórias
p’ra que nenhuma se perca
era pena
é que até a gente que me fez por dentro como a um cofre já não existe
e quero mantê-los ligados à máquina para sempre
e a máquina sou eu
e para sempre sou eu
anda
aconchega-te no mofo do T1
finge que és de antigamente para te dar os beijinhos de quando era pequenino
cheiras à minha avó
à roupa no estendal
à canção do fim dos bonecos
ao banho que está a ficar frio
ao grito do granizo do dia mais longo em que a casa esteve para cair
tu cheiras e sabes ao dia em que a casa esteve para cair
que foi no mesmo dia em que resistiu
como se estivesse ali desde o início dos tempos
e os tivesse começado para eu os acabar
acabar
acabar
acaba comigo que me falha a lembrança
e restas-me como a folha que esteve para cair
e que só não caiu porque o mundo acabou antes do Outono

in a verdade dói e pode estar errada