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moro em ti que tem cidades que cheguem
sabe-me a sonho o teu colar
a salto o teu sofrer
encosta-te no momento do repouso que eu levo injúrias dedicadas a
[quem te quer mal
deixa-os para mim que avio-os como receitas de um xarope amargo
[que lhes tira a tosse
e lanço-me aos seus encontros
distribuo para cada o de cada um aliviando-te de inimigos
fazendo-te amigos fortes e feitos à minha força
quem não te quiser não presta
nem para cola
nem para adubo
nem para lixo
os cães vadios recusam teus inimigos
as ratazanas de pior reputação recusam teus inimigos
e as baratas rastejam para fora no tempo em que as tainhas nadam
[p’ra longe
é obrigatório que todos te queiram p’ra que a concorrência me lembre
[tuas virtudes
assim dou-te o valor que quero e o valor que me obrigam
amando-te por querer e por obrigação
e deste ajuntamento construo o protótipo aerodinâmico inter-galáctico
[do amante perfeito
faço-me à semelhança do que nunca houve e aventuro-me por ti
[dando-te a essência do que conheço
e agora vendo bem
vendo por dentro
comparando com a inveja de todos
acho-te magnífica
tens salões que não acabam
mansões forradas a folha de ouro
gastaram os elefantes no marfim dos teus soalhos de selvas extintas
e és rara porque és única
todas as mulheres morreram para te prestar vassalagem
para nascerem outra coisa mais tarde porque esta já está ocupada
ser mulher já tem dona
és tu
as outras morreram na tentativa
os outros morrem por ser eu
e somos o início
fechamo-nos entre aspas e inventamos palavras novas que as que
[estavam não te diziam
dá a mão
não tenhas medo
dá a mãozinha
e já agora tudo o resto que não preciso de mais nada
tu chegas-me
moro em ti que tem cidades que cheguem
quando te falo grito o eco da praça interior
tu ouves-me pelos órgãos internos e respondes-me pela mobília de
[madeiras nobres que me sorri e me aceita como uma gaveta à procura
[de documentos
estás bem sozinha aí fora
estou bem sozinho aqui dentro
e vemo-nos nos dias em que o ouvido interno encontra o equilíbrio na
[voz dos pássaros
in "a verdade dói e pode estar errada" de João Negreiros - (poesia) Colecção Camões & Companhia da Saída de Emergência
inclui poemas do Prémio Nuno Júdice 2009

