O MAR QUE A GENTE FAZ, de João Negreiros - (Conto) Colecção Camões & Companhia da Saída de Emergência
Excerto
Vamos passar à frente, que é o que fazem os ditadores e os impacientes. E passamos à frente um… não, dois ou três… bem, passemos quatro para arredondar. E vamos até uma tarde soalheira e próxima como os fins-de-semana. Vem para ele uma mulher bonita equase a deixar de ser nova. Ela chama-se Deolinda, mas todos dizem que ela é Linda, por isso é linda porque ainda há pouco lhe descrevi a beleza… não, espera que não descrevi, mas descrevo agora: olhos cor de avelã, pele crestada pelo Sol como mel quando está duro, cabelos compridos a fazer comichão às costas e castanhos por dentro com umas madeixas louras que uma vizinha cabeleireira lhe deu de presente e que lhe ficam mal para não existir perfeição. Esta é Deolinda. É a mãe do Sargo. Anda de chinelos e avental e tem um colo grande e fofo, que deve ser das pernas grossas que andaram a levantar molhos de redes. Esta é a Deolinda e é a minha mãe, porque agora isto começa a tornar-se muito pessoal e devo ser eu a contar.
Depois do grande sucesso de “Inspiração é Respirar”, o Teatro Universitário do Minho aborda de novo o imaginário lírico de João Negreiros. O espectáculo é uma fusão de poemas antigos e inéditos. O naturalismo, a emoção aliados à dimensão sonora da poesia dão a toda a performance uma sensação visceral e palpável, aproximando os poemas dos anseios, medos e problemáticas do próprio público. É um espectáculo alegre e soturno, épico e intimista, hilariante e dramático. As vozes de tessituras diferentes fornecem uma paleta sonora muito abrangente dando cor e alma à literatura que já de si a possui. Momentos únicos com os quais o público se identificará. É a poesia para pessoas primeiro e para poetas depois. É a poesia para pessoas primeiro e para leitores depois. É a poesia para pessoas primeiro e para pessoas agora.
Fnac de Guimarães | 5 de Março | 21h30
Clube Literário do Porto | 6 de Março | 21h30
Fnac Marshopping | 19 de Março | 21h30
Livraria Books&Living | 20 de Março | 17h
VizelaImaginativa | 21 de Março | 16h
Festival de Teatro UBI, Covilhã | 25 de Março | 21h30
Em Março a poesia é o mote para encontros nas noites de quinta-feira no Frágil, em Lisboa, onde "mais do que ler, propõe-se criar um ambiente em que se vive poesia", explicou fonte da organização.
"a verdade dói e pode estar errada" de João Negreiros - (poesia) Colecção Camões & Companhia da Saída de Emergência
inclui poema vencedor do Prémio Nuno Júdice 2009 o Outono visto pela janela
na casa onde nasci havia sons e cheiros meus as pessoas que os tinham emprestavam-mos à memória e eu incluía-os como amigos íntimos nesta não tem gente ou se tem não têm cheiro nem som porque eu não me lembro gastei toda a memória nas pessoas antigas e o espaço para as novas é um T1 que fica muito para além do T onde eu estou sem visitas fechado à medida de não deixar entrar preciso do que já foi como do próximo ar para me lembrar que foi bom eu já fui bom agora não sei mas já fui juro que fui e quero gastar as únicas energias a fazer manutenção às memórias p’ra que nenhuma se perca era pena é que até a gente que me fez por dentro como a um cofre já não existe e quero mantê-los ligados à máquina para sempre e a máquina sou eu e para sempre sou eu anda aconchega-te no mofo do T1 finge que és de antigamente para te dar os beijinhos de quando era pequenino cheiras à minha avó à roupa no estendal à canção do fim dos bonecos ao banho que está a ficar frio ao grito do granizo do dia mais longo em que a casa esteve para cair tu cheiras e sabes ao dia em que a casa esteve para cair que foi no mesmo dia em que resistiu como se estivesse ali desde o início dos tempos e os tivesse começado para eu os acabar acabar acabar acaba comigo que me falha a lembrança e restas-me como a folha que esteve para cair e que só não caiu porque o mundo acabou antes do Outono
O MAR QUE A GENTE FAZ, de João Negreiros - (Conto) Colecção Camões & Companhia da Saída de Emergência
O MAR QUE A GENTE FAZ leva-nos para o seio de uma família de pescadores, onde todos os dias a faina ainda leva os homens a madrugar e a sofrer na pele a força das ondas e a dureza do mar. O menino Sargo – que tem nome de peixe – conta-nos uma história que se lê como uma fábula para pais e filhos. Tudo começa no dia em que Sargo nasce e sorri entre as redes dos pescadores. Daí em diante, é uma narrativa de um brilho e ternura excepcionais. Recheado de pequenas peripécias que nos levarão do riso às lágrimas, sempre com um forte sentimento de saudade, o menino Sargo vai recordar-nos aquilo que já soubemos e a vida nos fez esquecer; o significado da vida, da morte e do verdadeiro amor.
Ninguém ficará indiferente à escrita quase musical, ou à inocência terna da criança que nos conta como tudo acontece, com olhos que tudo observam e tudo sentem.
“Nesta obra encontramos mil e um tesouros, entre eles, a possibilidade de sonhar e voltar a ser criança. Não me recordo da última vez que um livro visitou de forma tão intensa os sentimentos da minha infância.” - António Vilaça, Editor
Há dias em que as coisas pequenas se te atravessam no caminho e, por serem pequenas, tu achas que, mais cedo ou mais tarde, elas vão acabar por desaparecer. Mas as coisas pequenas são as únicas que nunca desaparecem pela particular razão de serem quase invisíveis.
Não percebes, pois não? Eu explico: tens uma chave, e tens uma porta, e a compor a porta tens uma casa que tem um recheio... sem creme, mas muito doce.
Tens uma chave e uma porta, e à volta uma casa, e queres entrar mas a chave, que é pequena, está torta e tu não dás conta, e colocas na ranhura, e rodas a chave mas metade dela parte-se lá dentro do recheio, e agora metade da chave está lá dentro, a impedir que tu entres.
Ainda não percebeste, pois não? Eu explico: tens todo o carinho acumulado dentro do teu corpo e já escolheste exactamente a pessoa a quem o queres dar… e essa pessoa existe mas depois, lá está, as pequenas coisas, a pessoa existe mas está dentro de casa e tu continuas fora, e agora vais ter de substituir o canhão… mas é feriado e não há quem te faça o serviço, e perdes a paciência, e arrombas a porta mas ela, que estava junto à maçaneta, a espreitar a ver se te via fica debaixo, e quanto mais procuras mais pisas, e quando dás por ela já estragaste tudo, e ela parte com a rapidez de um estalo que te aquece a cara que logo de seguida é refrescada pelo relento de estar dentro de casa com a porta pelo chão, e queres-te vingar, e vais buscar o martelo, e espatifas o canhão e a chave de fora, e a chave de dentro, e a porta, e partes tudo, e arremessas o recheio pelas janelas deixando que os gulosos te levem o doce. E recriminas-te muito mas a culpa não é tua, foi um pequeno duende que te entortou a chave… que pediu que ela espreitasse. Um duende pagão que inventou um feriado religioso para tramar um agnóstico e tu, que não acreditas em nada a não ser na tua capacidade de atingir objectivos, estás constantemente fodido porque pensas que as grandes coisas que fazes têm algum tipo de correlação directa com o que vai acontecer… mas acredita que as pequeninas coisas são tudo, são elas que fazem girar o mundo.
E a entrevista de emprego vai sempre ficar para outro por causa da caneta que estourou no bolso da camisa branca, ou dos fiapos de caldo verde que se penduram nos teus dentes, ou do corante do gelado que te deu à língua um tom esverdeado quando dizias palavras sábias. E vais sempre ficar preso no elevador porque faltou a luz… porque não vais chegar a tempo… porque era importante… e não podes fazer nada. E vais sempre perder o autocarro, apesar de muito grande e de dois andares, porque o duende apoia os grevistas… e porque o mecânico amigo te mudou o óleo do carro para um óleo da fritura das batatas que ficaram negras daquele jantar que correu mal.
E são sempre as pequenas coisas, tão pequenas que são ainda mais invisíveis que as coisas que tu não vês. Porque a fé tu não vês mas, se te esforçares, é possível. O amor também não vês mas, se te esforçares, é possível. O ódio… bem… o ódio não serve de exemplo, vê-se demasiado bem, tão bem como as letras garrafais de um escândalo de prostituição que está na primeira página… porque o senhor ministro deixou a carteira em casa e não tinha nada para pôr na cómoda da menina
e a menina, dona da cómoda, ficou tão incomodada que foi à porta dos jornais, a que estava entreaberta porque a senhora da limpeza a deixou assim para arejar.
E são sempre as pequenas coisas, aquelas que tu não vês, as que tu nem sequer conheces.
E o cansaço pode-te fazer cair devagar. E a tristeza pode-te fazer cair devagar. Mas os cordões desapertados fazem-te cair depressa.
E é humanamente impossível prever porque o doente do duende fá-lo com magia e a magia não se vê, a não ser na televisão ou pagando bilhete e, como ninguém aprende nada com o que vê na televisão e só queremos bilhetes se forem oferecidos, nunca vemos a magia.
E são sempre as coisas pequenas. E às vezes há partenaires gordas que já andam nisto há muitos anos que nos avisam antes de cair, mas nós… pronto, achamos que só acontece aos outros como nos lugares comuns… por isso o melhor é não dar grande atenção a seja o que for. O que tem que acontecer já aconteceu e o que nós queremos que aconteça vai acontecer, mas noutra altura, noutro sítio e, provavelmente, a outra pessoa.