segunda-feira, 1 de março de 2010

a verdade dói e pode estar errada - dia 5 de Março nas livrarias

"a verdade dói e pode estar errada" de João Negreiros - (poesia) Colecção Camões & Companhia da Saída de Emergência

inclui poema vencedor do Prémio Nuno Júdice 2009

o Outono visto pela janela


na casa onde nasci havia sons e cheiros meus
as pessoas que os tinham emprestavam-mos à memória
e eu incluía-os como amigos íntimos
nesta não tem gente
ou se tem não têm cheiro
nem som porque eu não me lembro
gastei toda a memória nas pessoas antigas
e o espaço para as novas é um T1 que fica muito para além do T
onde eu estou sem visitas
fechado à medida de não deixar entrar
preciso do que já foi como do próximo ar para me lembrar que foi bom
eu já fui bom
agora não sei
mas já fui
juro que fui
e quero gastar as únicas energias a fazer manutenção às memórias
p’ra que nenhuma se perca
era pena
é que até a gente que me fez por dentro como a um cofre já não existe
e quero mantê-los ligados à máquina para sempre
e a máquina sou eu
e para sempre sou eu
anda
aconchega-te no mofo do T1
finge que és de antigamente para te dar os beijinhos de quando era pequenino
cheiras à minha avó
à roupa no estendal
à canção do fim dos bonecos
ao banho que está a ficar frio
ao grito do granizo do dia mais longo em que a casa esteve para cair
tu cheiras e sabes ao dia em que a casa esteve para cair
que foi no mesmo dia em que resistiu
como se estivesse ali desde o início dos tempos
e os tivesse começado para eu os acabar
acabar
acabar
acaba comigo que me falha a lembrança
e restas-me como a folha que esteve para cair
e que só não caiu porque o mundo acabou antes do Outono

in a verdade dói e pode estar errada

domingo, 28 de fevereiro de 2010

O MAR QUE A GENTE FAZ




O MAR QUE A GENTE FAZ, de João Negreiros - (Conto) Colecção Camões & Companhia da Saída de Emergência
O MAR QUE A GENTE FAZ leva-nos para o seio de uma família de pescadores, onde todos os dias a faina ainda leva os homens a madrugar e a sofrer na pele a força das ondas e a dureza do mar. O menino Sargo – que tem nome de peixe – conta-nos uma história que se lê como uma fábula para pais e filhos. Tudo começa no dia em que Sargo nasce e sorri entre as redes dos pescadores. Daí em diante, é uma narrativa de um brilho e ternura excepcionais. Recheado de pequenas peripécias que nos levarão do riso às lágrimas, sempre com um forte sentimento de saudade, o menino Sargo vai recordar-nos aquilo que já soubemos e a vida nos fez esquecer; o significado da vida, da morte e do verdadeiro amor.
Ninguém ficará indiferente à escrita quase musical, ou à inocência terna da criança que nos conta como tudo acontece, com olhos que tudo observam e tudo sentem.
“Nesta obra encontramos mil e um tesouros, entre eles, a possibilidade de sonhar e voltar a ser criança. Não me recordo da última vez que um livro visitou de forma tão intensa os sentimentos da minha infância.” - António Vilaça, Editor

sábado, 20 de fevereiro de 2010

As coisas pequenas



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As coisas pequenas
Há dias em que as coisas pequenas se te atravessam no caminho e, por serem pequenas, tu achas que, mais cedo ou mais tarde, elas vão acabar por desaparecer. Mas as coisas pequenas são as únicas que nunca desaparecem pela particular razão de serem quase invisíveis.
Não percebes, pois não? Eu explico: tens uma chave, e tens uma porta, e a compor a porta tens uma casa que tem um recheio... sem creme, mas muito doce.
Tens uma chave e uma porta, e à volta uma casa, e queres entrar mas a chave, que é pequena, está torta e tu não dás conta, e colocas na ranhura, e rodas a chave mas metade dela parte-se lá dentro do recheio, e agora metade da chave está lá dentro, a impedir que tu entres.
Ainda não percebeste, pois não? Eu explico: tens todo o carinho acumulado dentro do teu corpo e já escolheste exactamente a pessoa a quem o queres dar… e essa pessoa existe mas depois, lá está, as pequenas coisas, a pessoa existe mas está dentro de casa e tu continuas fora, e agora vais ter de substituir o canhão… mas é feriado e não há quem te faça o serviço, e perdes a paciência, e arrombas a porta mas ela, que estava junto à maçaneta, a espreitar a ver se te via fica debaixo, e quanto mais procuras mais pisas, e quando dás por ela já estragaste tudo, e ela parte com a rapidez de um estalo que te aquece a cara que logo de seguida é refrescada pelo relento de estar dentro de casa com a porta pelo chão, e queres-te vingar, e vais buscar o martelo, e espatifas o canhão e a chave de fora, e a chave de dentro, e a porta, e partes tudo, e arremessas o recheio pelas janelas deixando que os gulosos te levem o doce. E recriminas-te muito mas a culpa não é tua, foi um pequeno duende que te entortou a chave… que pediu que ela espreitasse. Um duende pagão que inventou um feriado religioso para tramar um agnóstico e tu, que não acreditas em nada a não ser na tua capacidade de atingir objectivos, estás constantemente fodido porque pensas que as grandes coisas que fazes têm algum tipo de correlação directa com o que vai acontecer… mas acredita que as pequeninas coisas são tudo, são elas que fazem girar o mundo.
E a entrevista de emprego vai sempre ficar para outro por causa da caneta que estourou no bolso da camisa branca, ou dos fiapos de caldo verde que se penduram nos teus dentes, ou do corante do gelado que te deu à língua um tom esverdeado quando dizias palavras sábias. E vais sempre ficar preso no elevador porque faltou a luz… porque não vais chegar a tempo… porque era importante… e não podes fazer nada. E vais sempre perder o autocarro, apesar de muito grande e de dois andares, porque o duende apoia os grevistas… e porque o mecânico amigo te mudou o óleo do carro para um óleo da fritura das batatas que ficaram negras daquele jantar que correu mal.
E são sempre as pequenas coisas, tão pequenas que são ainda mais invisíveis que as coisas que tu não vês. Porque a fé tu não vês mas, se te esforçares, é possível. O amor também não vês mas, se te esforçares, é possível. O ódio… bem… o ódio não serve de exemplo, vê-se demasiado bem, tão bem como as letras garrafais de um escândalo de prostituição que está na primeira página… porque o senhor ministro deixou a carteira em casa e não tinha nada para pôr na cómoda da menina
e a menina, dona da cómoda, ficou tão incomodada que foi à porta dos jornais, a que estava entreaberta porque a senhora da limpeza a deixou assim para arejar.
E são sempre as pequenas coisas, aquelas que tu não vês, as que tu nem sequer conheces.
E o cansaço pode-te fazer cair devagar. E a tristeza pode-te fazer cair devagar. Mas os cordões desapertados fazem-te cair depressa.
E é humanamente impossível prever porque o doente do duende fá-lo com magia e a magia não se vê, a não ser na televisão ou pagando bilhete e, como ninguém aprende nada com o que vê na televisão e só queremos bilhetes se forem oferecidos, nunca vemos a magia.
E são sempre as coisas pequenas. E às vezes há partenaires gordas que já andam nisto há muitos anos que nos avisam antes de cair, mas nós… pronto, achamos que só acontece aos outros como nos lugares comuns… por isso o melhor é não dar grande atenção a seja o que for. O que tem que acontecer já aconteceu e o que nós queremos que aconteça vai acontecer, mas noutra altura, noutro sítio e, provavelmente, a outra pessoa.
in luto lento, de João Negreiros

terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

Concertos de Leitura

Fotografias do espectáculo - Concertos de Leitura - 03/02/2010 no Auditório da Fundação Cupertino de Miranda


sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

os olhos - poema premiado em São Paulo

Poema galardoado, em São Paulo, com o Prémio Professora Therezinha Dutra Megale (2009). O poema premiado é o único poema de um poeta português presente numa Antologia de Poesia editada pela ASES, no Brasil, em 2009. Segundo, Norberto de Moraes Alves (Presidente da ASES), esta antologia lançada pela ASES tem por norma homenagear pessoas ilustres ligadas à literatura.



os olhos


se um gesto me definisse seria o de te afastar o cabelo para te ver melhor o rosto que me enche de bravura

e só te vejo pelos meus olhos por serem os que te vêem mais bela
por isso os escolho sempre
tenho os olhos feitos à medida da tua cara
e só tenho olhos para ti
quando não estás sou invisível e quase invisual
a visão não me serve de nada
vejo mas sem cor e é pior que a preto e branco
é desfocado
é esbatido
e sem chama
e sem cheiro
contigo cheira bem
sabe bem
ouve bem o que digo porque é sincero          porque se não fosse todo eu era falso
cada falso que há aí merecia cadeia ou morte
mas com os teus braços finos a fazer as vezes da corda que me serpenteia o pescoço para me matar de felicidade

e só te quero a ti
e só te vejo a ti como a última noite do Verão mais quente
com o céu mais estrelado
com a lua mais cúmplice
com os gestos mais carinhosos
e tiro-te o cabelo da frente com a ajuda da minha mão direita que só existe para isso
e vou para te beijar mas não o faço
hesito porque os meus olhos pediram-me que os deixasse olhar para ti mais uma vez
e eu deixo          para eles não chorarem muito
in a verdade dói e pode estar errada, de João Negreiros

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

imaginário poético - revista eletrónica de artes, música, literatura e filosofia

Poetas na Rede > João Negreiros

A coluna Poetas na Rede tem o prazer de apresentar mais um jovem poeta português: João Negreiros. Unindo poesia e teatro, João interpreta suas próprias poesias e disponibiliza os vídeos em seu blog. De uma força constrangedora, sua poesia encenada tem o poder de nos silenciar e nos transportar para um espaço de reflexão peculiar: o chão. O poeta, literalmente, convida-nos a ouvir as vozes que o chão nos diz e daí, somente a partir daí, a fazer de conta, a fazer poesia. Em questão de minutos, ele que fala do chão debaixo do chão, o inferno, transporta-nos também ao céu, absolutamente sem metafísica, absolutamente ciente de que é a presença de alguém querido o princípio de distinção, o a priori que determina estas categorias. Poesia da gravidade que nos deita no cotidiano, do destino das coisas pequenas que nos atravessam o caminho. Poesia absolutamente contemporânea, não apenas pela linguagem, ou pelo medium de que faz uso, mas porque versa sobre os mínimos e privados delitos e deleites do aqui e agora.

Foi neste estado de encantamento que entrei em contato com João que, por sua vez, respondeu-me não apenas com extrema simpatia, revelando que já conhecia e apreciava nosso Imaginário, mas também com generosidade, disponibilizando todos os seus vídeos para publicação em nossa Revista. Dentre estes, escolhi e publico três para forrarmos com ele nosso chão e deitarmos em boa poesia. (Mas, João, não hesito em afirmar que ontem estive no inferno é meu preferido!)

dana paulinelli
ler mais em
http://www.imaginariopoetico.com.br/2010/02/poetas-na-rede-joao-negreiros.html