Poema galardoado, em São Paulo, com o Prémio Professora Therezinha Dutra Megale (2009). O poema premiado é o único poema de um poeta português presente numa Antologia de Poesia editada pela ASES, no Brasil, em 2009. Segundo, Norberto de Moraes Alves (Presidente da ASES), esta antologia lançada pela ASES tem por norma homenagear pessoas ilustres ligadas à literatura.
os olhos
se um gesto me definisse seria o de te afastar o cabelo para te ver melhor o rosto que me enche de bravura
e só te vejo pelos meus olhos por serem os que te vêem mais bela
por isso os escolho sempre tenho os olhos feitos à medida da tua cara e só tenho olhos para ti quando não estás sou invisível e quase invisual a visão não me serve de nada vejo mas sem cor e é pior que a preto e branco é desfocado é esbatido e sem chama e sem cheiro contigo cheira bem sabe bem ouve bem o que digo porque é sincero porque se não fosse todo eu era falso
cada falso que há aí merecia cadeia ou morte mas com os teus braços finos a fazer as vezes da corda que me serpenteia o pescoço para me matar de felicidade
e só te quero a ti e só te vejo a ti como a última noite do Verão mais quente com o céu mais estrelado com a lua mais cúmplice com os gestos mais carinhosos e tiro-te o cabelo da frente com a ajuda da minha mão direita que só existe para isso
e vou para te beijar mas não o faço hesito porque os meus olhos pediram-me que os deixasse olhar para ti mais uma vez e eu deixo para eles não chorarem muito
in a verdade dói e pode estar errada, de João Negreiros
A coluna Poetas na Rede tem o prazer de apresentar mais um jovem poeta português: João Negreiros. Unindo poesia e teatro, João interpreta suas próprias poesias e disponibiliza os vídeos em seu blog. De uma força constrangedora, sua poesia encenada tem o poder de nos silenciar e nos transportar para um espaço de reflexão peculiar: o chão. O poeta, literalmente, convida-nos a ouvir as vozes que o chão nos diz e daí, somente a partir daí, a fazer de conta, a fazer poesia. Em questão de minutos, ele que fala do chão debaixo do chão, o inferno, transporta-nos também ao céu, absolutamente sem metafísica, absolutamente ciente de que é a presença de alguém querido o princípio de distinção, o a priori que determina estas categorias. Poesia da gravidade que nos deita no cotidiano, do destino das coisas pequenas que nos atravessam o caminho. Poesia absolutamente contemporânea, não apenas pela linguagem, ou pelo medium de que faz uso, mas porque versa sobre os mínimos e privados delitos e deleites do aqui e agora.
Foi neste estado de encantamento que entrei em contato com João que, por sua vez, respondeu-me não apenas com extrema simpatia, revelando que já conhecia e apreciava nosso Imaginário, mas também com generosidade, disponibilizando todos os seus vídeos para publicação em nossa Revista. Dentre estes, escolhi e publico três para forrarmos com ele nosso chão e deitarmos em boa poesia. (Mas, João, não hesito em afirmar que ontem estive no inferno é meu preferido!)
Nos Transportes Urbanos de Braga, este mês, pode-se ler:
o nadador
foi visto um burocrata morto por não saber nadar
a boiar de bruços com a cabeça enterrada na água
a exercitar as guelras do ar podre que lhe construiu as palavras sinceras com
[que enganou quem conheceu ao longe da janela do avião
ede longeacenou a todos os que conhecia levando na mão a mala
[que tinha as esperanças que todos tinham em si
bóia um ladrão morto e o estilo é pouco ortodoxo
não mexe braços nem pernas
não respira nem ergue a cabeça
não faz rotações de tronco
não se mexe nem um milímetro
foi já ultrapassado por todos os concorrentes
e a água vai ficando escura da tinta que vai na mala onde se escreveram
[os nomes dos que lhe confiaram as vidas
na pista sete bóia um burocrata rico que fugiu com a esperança
e ninguém se atreve a resgatá-lo
é que dá medo de olhar
dá medo de saber a expressão que levava quando percebeu que não ia ganhar
todos os nadadores já saíram da água
todos os nadadores já secaram o cabelo
todos os nadadores já receberam as medalhas
todos os nadadores já vestiram os fatinhos-de-treino
todos os nadadores já choraram a bandeira
e um chorou ranho também com o hino
ele continua lá
a piscina vai fechar
as luzes apagaram-se
e o da pista sete não tem direito a medalha
nem pode ir às olimpíadas porque já ninguém confia nele
nem sequer para conseguir os mínimos
a pista sete está a transbordar com as palavras que lhe disseram os amigos
[que ele iludiu para depois desiludir
e foi o dono de um molhe delas
um dos donos dos molhos de palavras que lhe fez a folha
que lhe levou o ar emprestado para compensar o papel
foi um deles que lhe deu as mais exigentes aulas de natação
aquelas em que é impossível levantar a cabeça e em que temos que nadar
[sempre submersos até bater com a cabeça desesperada na parede que sabe a [cloro
o burocrata bóia morto e quem o fez perder a prova foi um nome na pasta
há um nome a vermelho na pasta que está a esbater-se no mesmíssimo
[momento da culpa
o melhor amigo matou-o
o que lhe fez mais festas
o que lhe gabou mais as notas dos filhos
o que mais lhe respeitou a esposa
o que mais brindes lhe fez em delicados reveillons
o melhor amigo matou-o
o melhor amigo matou-o
foi o único que não aguentou perdê-lo
percebê-lo
conhecê-lo
era o único que não sabia
era o único que estava quase a meter os papéis para se promover a irmão
o melhor amigo matou-o porque a maior tristeza só nos pode ser dada por
[quem amamos maise maise maisneste infinito que termina[desafiando a lógica que nos disseram os livros e os filmes de domingo à tarde [que vemos amparando meninos
o burocrata bóia morto e está na boca do mundo defunto porque levou para
[longenuma pastaas boas acções que se trocam agora por brinquedos [que só dão aos filhos dos pobres
o burocrata bóia morto e afoga o melhor dos amigos
in a verdade dói e pode estar errada, de João Negreiros
Depois do sucesso do espectáculo e da adesão do público, o TUM tem o prazer de anunciar a reposição do espectáculo "o jornalista da vossa beleza", com poemas de João Negreiros, nas seguintes datas:
6,12,23,24 de Fevereiro e 2, 3 de Março de 2010 às 21h30 no Auditório de Bolso do TUM (junto à Sé de Braga);
Nos próximos dias 3 e 4 de Fevereiro, João Negreiros empresta a sua voz, o seu corpo e todas as suas emoções aos Concertos de Leitura, que acontecerão na Fundação Cupertino de Miranda de V. N. de Famalicão, para 500 alunos das escolas do concelho de Vila Nova de Famalicão.
Estes concertos, dinamizados pelo Centro de Formação da Escola Camilo Castelo Branco de Vila Nova de Famalicão, pretendem cativar os jovens para a leitura e despertar o interesse para a poesia.
Nestes espectáculos, João Negreiros, com interpretações viscerais, inesperadas e apaixonantes dos seus poemas, irá conquistar o coração de quem assiste numa alienação que é saudável porque abre portas para o pensamento.
No passado dia 28 de Fevereiro, João Negreiros actuou na Escola E.B. 2,3 de Ribeirão. Em cima, na fotografia, está um dos muitos alunos que clamou "só mais um" no final do espectáculo. A partir daí o Concerto de Leitura passou a ser uma espécie de "Poemas Pedidos", com os alunos a pedir para o poeta dizer os preferidos de cada um.