sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

os olhos - poema premiado em São Paulo

Poema galardoado, em São Paulo, com o Prémio Professora Therezinha Dutra Megale (2009). O poema premiado é o único poema de um poeta português presente numa Antologia de Poesia editada pela ASES, no Brasil, em 2009. Segundo, Norberto de Moraes Alves (Presidente da ASES), esta antologia lançada pela ASES tem por norma homenagear pessoas ilustres ligadas à literatura.



os olhos


se um gesto me definisse seria o de te afastar o cabelo para te ver melhor o rosto que me enche de bravura

e só te vejo pelos meus olhos por serem os que te vêem mais bela
por isso os escolho sempre
tenho os olhos feitos à medida da tua cara
e só tenho olhos para ti
quando não estás sou invisível e quase invisual
a visão não me serve de nada
vejo mas sem cor e é pior que a preto e branco
é desfocado
é esbatido
e sem chama
e sem cheiro
contigo cheira bem
sabe bem
ouve bem o que digo porque é sincero          porque se não fosse todo eu era falso
cada falso que há aí merecia cadeia ou morte
mas com os teus braços finos a fazer as vezes da corda que me serpenteia o pescoço para me matar de felicidade

e só te quero a ti
e só te vejo a ti como a última noite do Verão mais quente
com o céu mais estrelado
com a lua mais cúmplice
com os gestos mais carinhosos
e tiro-te o cabelo da frente com a ajuda da minha mão direita que só existe para isso
e vou para te beijar mas não o faço
hesito porque os meus olhos pediram-me que os deixasse olhar para ti mais uma vez
e eu deixo          para eles não chorarem muito
in a verdade dói e pode estar errada, de João Negreiros

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

imaginário poético - revista eletrónica de artes, música, literatura e filosofia

Poetas na Rede > João Negreiros

A coluna Poetas na Rede tem o prazer de apresentar mais um jovem poeta português: João Negreiros. Unindo poesia e teatro, João interpreta suas próprias poesias e disponibiliza os vídeos em seu blog. De uma força constrangedora, sua poesia encenada tem o poder de nos silenciar e nos transportar para um espaço de reflexão peculiar: o chão. O poeta, literalmente, convida-nos a ouvir as vozes que o chão nos diz e daí, somente a partir daí, a fazer de conta, a fazer poesia. Em questão de minutos, ele que fala do chão debaixo do chão, o inferno, transporta-nos também ao céu, absolutamente sem metafísica, absolutamente ciente de que é a presença de alguém querido o princípio de distinção, o a priori que determina estas categorias. Poesia da gravidade que nos deita no cotidiano, do destino das coisas pequenas que nos atravessam o caminho. Poesia absolutamente contemporânea, não apenas pela linguagem, ou pelo medium de que faz uso, mas porque versa sobre os mínimos e privados delitos e deleites do aqui e agora.

Foi neste estado de encantamento que entrei em contato com João que, por sua vez, respondeu-me não apenas com extrema simpatia, revelando que já conhecia e apreciava nosso Imaginário, mas também com generosidade, disponibilizando todos os seus vídeos para publicação em nossa Revista. Dentre estes, escolhi e publico três para forrarmos com ele nosso chão e deitarmos em boa poesia. (Mas, João, não hesito em afirmar que ontem estive no inferno é meu preferido!)

dana paulinelli
ler mais em
http://www.imaginariopoetico.com.br/2010/02/poetas-na-rede-joao-negreiros.html

sábado, 6 de fevereiro de 2010

grandes poemas para viagens pequenas

Nos Transportes Urbanos de Braga, este mês, pode-se ler:


o nadador


foi visto um burocrata morto por não saber nadar

a boiar de bruços com a cabeça enterrada na água

a exercitar as guelras do ar podre que lhe construiu as palavras sinceras com

[que enganou quem conheceu ao longe          da janela do avião

e          de longe          acenou a todos os que conhecia levando na mão a mala

[que tinha as esperanças que todos tinham em si

bóia um ladrão morto e o estilo é pouco ortodoxo

não mexe braços nem pernas

não respira nem ergue a cabeça

não faz rotações de tronco

não se mexe nem um milímetro

foi já ultrapassado por todos os concorrentes

e a água vai ficando escura da tinta que vai na mala          onde se escreveram

[os nomes dos que lhe confiaram as vidas

na pista sete bóia um burocrata rico que fugiu com a esperança

e ninguém se atreve a resgatá-lo

é que dá medo de olhar

dá medo de saber a expressão que levava quando percebeu que não ia ganhar

todos os nadadores já saíram da água

todos os nadadores já secaram o cabelo

todos os nadadores já receberam as medalhas

todos os nadadores já vestiram os fatinhos-de-treino

todos os nadadores já choraram a bandeira

e um chorou ranho também com o hino

ele continua lá

a piscina vai fechar

as luzes apagaram-se

e o da pista sete não tem direito a medalha

nem pode ir às olimpíadas porque já ninguém confia nele

nem sequer para conseguir os mínimos

a pista sete está a transbordar com as palavras que lhe disseram os amigos

[que ele iludiu para depois desiludir

e foi o dono de um molhe delas

um dos donos dos molhos de palavras que lhe fez a folha

que lhe levou o ar emprestado para compensar o papel

foi um deles que lhe deu as mais exigentes aulas de natação

aquelas em que é impossível levantar a cabeça e em que temos que nadar

[sempre submersos até bater com a cabeça desesperada na parede que sabe a [cloro

o burocrata bóia morto e quem o fez perder a prova foi um nome na pasta

há um nome a vermelho na pasta que está a esbater-se no mesmíssimo

[momento da culpa

o melhor amigo matou-o

o que lhe fez mais festas

o que lhe gabou mais as notas dos filhos

o que mais lhe respeitou a esposa

o que mais brindes lhe fez em delicados reveillons

o melhor amigo matou-o

o melhor amigo matou-o

foi o único que não aguentou perdê-lo

percebê-lo

conhecê-lo

era o único que não sabia

era o único que estava quase a meter os papéis para se promover a irmão

o melhor amigo matou-o porque a maior tristeza só nos pode ser dada por

[quem amamos mais          e mais          e mais          neste infinito que termina [desafiando a lógica que nos disseram os livros e os filmes de domingo à tarde [que vemos amparando meninos

o burocrata bóia morto e está na boca do mundo defunto porque levou para

[longe          numa pasta          as boas acções que se trocam agora por brinquedos [que só dão aos filhos dos pobres

o burocrata bóia morto e afoga o melhor dos amigos

in a verdade dói e pode estar errada, de João Negreiros

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

O Teatro Universitário do Minho apresenta O JORNALISTA DA VOSSA BELEZA

Depois do sucesso do espectáculo e da adesão do público, o TUM tem o prazer de anunciar a reposição do espectáculo "o jornalista da vossa beleza", com poemas de João Negreiros, nas seguintes datas:
  • 6,12,23,24 de Fevereiro e 2, 3 de Março de 2010 às 21h30 no Auditório de Bolso do TUM (junto à Sé de Braga);
  • Fnac Gaia Shopping: 19 de Fevereiro, às 21h30;
  • Fnac Santa Catarina, 20 de Fevereiro, às 17h00;
  • Fnac Braga Parque, 25 de Fevereiro, às 21h30;
  • Fnac Coimbra, dia 27 de Fevereiro, às 21h30.

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

Concertos de Leitura

Hospede inúmeras fotos no slide.com GRÁTIS!
Nos próximos dias 3 e 4 de Fevereiro, João Negreiros empresta a sua voz, o seu corpo e todas as suas emoções aos Concertos de Leitura, que acontecerão na Fundação Cupertino de Miranda de V. N. de Famalicão, para 500 alunos d as escolas do concelho de Vila Nova de Famalicão.
Estes concertos, dinamizados pelo Centro de Formação da Escola Camilo Castelo Branco de Vila Nova de Famalicão, pretendem cativar os jovens para a leitura e despertar o interesse para a poesia.
Nestes espectáculos, João Negreiros, com interpretações viscerais, inesperadas e apaixonantes dos seus poemas, irá conquistar o coração de quem assiste numa alienação que é saudável porque abre portas para o pensamento.

No passado dia 28 de Fevereiro, João Negreiros actuou na Escola E.B. 2,3 de Ribeirão. Em cima, na fotografia, está um dos muitos alunos que clamou "só mais um" no final do espectáculo. A partir daí o Concerto de Leitura passou a ser uma espécie de "Poemas Pedidos", com os alunos a pedir para o poeta dizer os preferidos de cada um.

sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

as vozes que o chão me diz

na presença de um som prefiro-me calado porque um som pode significar

[muito

muita coisa

muito mesmo

muito

mesmo tudo

ouve

estás a ouvir?

então ouve agora com atenção

estás a ouvir com atenção?

pois bem          então imagina este som e faz de conta          na semelhança de

[acreditar que é uma voz

uma que está quase na esperança que a ouças

atenta mais

atenta melhor

ouve nas entrelinhas de quem encosta o ouvido ao chão para ouvir ao longe o

[bater do coração da cavalgada da infantaria

és o índio

tu és o índio que vai perceber antes os anseios dos depois que estão para falar

ou dos antes que diziam mas que emudeceram porque não estavas com os

[tímpanos no cimento da pradaria

o teu papel é este

passar a limpo o que dizem e falar disso aos que levam os tímpanos

[encostados ao ar porque acham que o peito da terra está sujo

o pó que se levanta agacha-te

faz-te deitar          aproximando de ti o planeta que          nesse momento         

[faz o único amigo

encostas o que ouves ao que te dizem

deixas que as lamúrias te usem primeiro os circuitos da orelha para depois os

[perceberes pelo julgamento do ouvido

e entendes tudo como quem escuta sem acenar a cabeça por estar colada

[a um chão quente em que te afundas

o cimento seco engole-te como o fresco e nadas pelo manto até ao centro

e          no centro          encontras todas as vontades que estão por cumprir

ouves as vontades

apontas num caderno à prova de chão e voltas à tona mais dura

quando emerges contas aos milhões o que é que o planeta e todas as vozes

[que foram e que vão ser te disseram

ninguém te dá ouvidos mas tu não fazes caso

pegas no caderno à prova de chão e passas tudo a limpo para um caderno à

[prova de gente

e depois fotocopias o caderno à prova de gente e dás a todos os homens e

[mulheres

e todos os homens e mulheres tentam destruir o caderno

mas não conseguem porque o caderno à prova de gente passa a prova

e então todos passam a viver com o caderno colado na bolsa a tira colo que

[levam quando estão nus

e as vozes que ouviste debaixo da terra estão agora debaixo da pele de todos

e agora podemos encostar-nos ao peito uns dos outros para ouvir o que todos

[querem

e todos querem o mesmo

a mesma coisa

o que todos querem é isto

então          como te correu o dia?

tens frio?

queres um beijinho?

estás zangado?

não estejas

amanhã vai ser melhor

acho que estás com febre

queres que te faça um chá ou que vá à farmácia?

fica-te bem o casaco, compraste onde?

ainda bem que vieste

estava mesmo a precisar de falar com alguém          e só podias ser tu?

queres ir lá a casa passar uns dias nas férias? podíamos pescar

podes ficar com ela          não me faz falta

estás com medo de quê? porquê? não tenhas          dá um abraço         

pronto          já passou

pronto          já passou

perceberam          perceberam?

agora já não é um exemplo das coisas que se ouvem          agora estou mesmo

[a falar perceberam?

é isto que se ouve

é isto que se quer

o que se quer

o que todos nós queremos é um bocadinho de atenção

uma palavra

ou duas

ou três

ou quatro

ou sempre

ou todas

ou aquela que queremos ouvir

ou a que precisamos de ouvir

o que nós queremos ouvir é que esteja alguém a ouvir

e quando não houver remédio

quando não há remédio

quando a dor é maior que a vida e não há nada a fazer o que todos nós queremos é

pronto          já passou

pronto          já passou

pronto          já passou

in "a verdade dói e pode estar errada", de João Negreiros