segunda-feira, 7 de setembro de 2009

Prémio Nuno Júdice atribuído a João Negreiros

O Município de Aveiro, em parceria com a Universidade de Aveiro e o Grupo Poético de Aveiro, atribuiu a João Negreiros o Prémio de Poesia Nuno Júdice 2009, pelo trabalho intitulado “arranha os céus e chove”. O júri, constituído por personalidades de reconhecido mérito literário, foi unânime em considerar a obra de João Negreiros merecedora do prestigiado galardão, tendo decidido também apoiar a sua edição.

A cerimónia de entrega e anúncio do vencedor do prémio aconteceu no passado sábado, pelas 15 horas no Auditório da Assembleia Municipal. O evento contou com a presença do Dr. Miguel Capão Filipe (Vereador do Pelouro dos Assuntos Culturais do Mu­nicípio de Aveiro), da Mestre Rosa Maria Oliveira, do Prof. Luís Serrano e do Prof. Doutor António Manuel Ferreira (Universidade de Aveiro), que fez a apresentação da obra vencedora.

O Prof. Doutor António Manuel Ferreira considerou quepara situarmos estes textos na sua genealogia ético-estética temos de recuar no séc. XX e de revisitar alguns textos essenciais de Fernando Pessoa, nomeadamente, as desalentadas confissões de Álvaro de Campos” e continuou dizendo que os poemas de João Negreiros “integram-se em pleno direito num dos trilhos mais vitais da Poesia Portuguesa.” O Professor da Universidade de Aveiro chegou mesmo a ler alguns excertos da obra vencedora, que adjectivou como magníficos.

“Parece tudo muito simples, sem qualidades, digamos assim, para usarmos uma expressão que já faz parte do nosso aparato crítico contemporâneo, mas não é.” O Professor finalizou afirmando que “um homem que manifesta uma relação tão sincera com a Língua Portuguesa só pode ser um verdadeiro poeta. E dizer isto é, para mim, dizer tudo”.


o Outono visto pela janela

na casa onde nasci havia sons e cheiros meus

as pessoas que os tinham emprestavam-mos à memória

e eu incluía-os como amigos íntimos

nesta não tem gente

ou se tem não têm cheiro

nem som porque eu não me lembro

gastei toda a memória nas pessoas antigas

e o espaço para as novas é um t1 que fica muito para além do t

onde eu estou sem visitas

fechado à medida de não deixar entrar

preciso do que já foi como do próximo ar para me lembrar que foi bom

eu já fui bom

agora não sei

mas já fui

juro que fui

e quero gastar as únicas energias a fazer manutenção às memórias

p’ra que nenhuma se perca

era pena

é que até a gente que me fez por dentro como a um cofre já não existe

e quero mantê-los ligados à máquina para sempre

e a máquina sou eu

e para sempre sou eu

anda

aconchega-te no mofo do t1

finge que és de antigamente para te dar os beijinhos de quando era pequenino

cheiras à minha avó

à roupa no estendal

à canção do fim dos bonecos

ao banho que está a ficar frio

ao grito do granizo do dia mais longo em que a casa esteve para cair

tu cheiras e sabes ao dia em que a casa esteve para cair

que foi no mesmo dia em que resistiu

como se estivesse ali desde o início dos tempos

e os tivesse começado para eu os acabar

acabar

acabar

acaba comigo que me falha a lembrança

e restas-me como a folha que esteve para cair

e que só não caiu porque o mundo acabou antes do Outono

in “arranha os céus e chove”, de João Negreiros





quinta-feira, 3 de setembro de 2009

"Os filhos dos outros portam-se bem à mesa" - Poema dito no espectáculo INSPIRAÇÃO É RESPIRAR


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Os filhos dos outros portam-se bem à mesa
Se cada vez que der um gole de água pensar nisso vou ter de pensar em muitas outras coisas e isso leva-me, a pouco e pouco, a pensar em tudo. Então, em vez de ser um ser, vou ser uma fábrica de ângulos… de pontos de vista que não vão estar certos porque vão ser só mais uma unidade que faz parte das múltiplas possibilidades de análise que rodeiam a nossa vida e a vida dos que nos rodeiam.
A loucura, ou o início dela, é isso, é o momento em que começamos a pensar… a partir daí é sempre a cair de forma sossegada como quem engole chicletes na montanha russa. A loucura é a incapacidade que temos de parar de pensar.
A loucura é o som que nunca ouvimos até ouvirmos, a pessoa que não temíamos até tremermos, a corrente que levávamos no pescoço até sabermos que era de ar… e dá-nos um arrepio daqueles… ou um dos outros… se decidirmos entrar na vida de outra pessoa e analisar a infelicidade pelo ponto de vista de alguém a quem não conhecíamos as maleitas… até passarmos a conhecer. E, quando damos conta, contamos-lhes as dívidas e os trocos, sabemos-lhes os defeitos e as injúrias de alcofa, beijamos-lhes os filhos como nossos, o sangue como morcegos, a sina como ciganos e nós somos eles… e todos.
Mas, quando nos aborrecemos, voltamos para casa… para deixar de sofrer muito com a vida dos outros e passamos a sofrer um bocadinho com os nossos. É que os nossos filhos são mais feios… a nossa mulher é mais gorda… os nossos pais estão menos mortos… os problemas dos outros, dos outros que fazem parte da raça sem sermos nós, são nobres, os outros são heróicos, os outros passam na televisão, os outros choram sem soltar ranho, morrem sem borrar as calças… e as dívidas de jogo são porque tiveram um descuido, uma hesitação, uma fraqueza… nós não…. nós somos descuidados, hesitantes, fracos e nós não gostamos nem um pouco de nós porque queremos passar as tardes em casa do resto da raça a ajudar a raça a sentir-se melhor com ela própria. Nós queremos passar as tardes a jogar às cartas em casa do resto da raça humana e elogiar-lhes as cortinas… e os dentinhos de leite dos rebentos… enquanto os nossos filhos crescem órfãos, os nossos irmãos não nos conhecem, os nossos pais morrem de solidão nos asilos, os nossos cães morrem à fome no beco do caminho para as férias… e a nossa empregada não recebe subsídio de Natal… e o nosso peixe não tem quem lhe mude a água… e a nossa roupa fede porque não quisemos tomar banho. E por isso tudo fedemos a falhanço e levamos eternamente o rosto da derrota dos que se deixaram ficar… dos que não gostam de si… nem do que sai de si…
E que é feito de si?... está com tão bom aspecto… e a sua senhora… está boazinha?… há que tempos que não os via…
in "a verdade dói e pode estar errada", de João Negreiros

segunda-feira, 31 de agosto de 2009

INSPIRAÇÃO É RESPIRAR - digressão nacional


“(…) com gente que anuncia talento como esta, somos todos cúmplices. Ou então já estamos mortos.” Miguel Carvalho, jornalista da Visão


A poesia de João Negreiros na voz do elenco do Teatro Universitário do Minho

Espectáculo e percurso antológico da poesia de João Negreiros que tem como objectivo traçar uma rota que vai desde as suas tendências Neo-Surrealistas até à lírica mais conceptual e sonora.
A interpretação das dizedoras visa ser oral, naturalista e inovadora, tornando a literatura mais óbvia, mais universal e mais acessível.
É um espectáculo de emoções extremas e dos sentimentos mais íntimos e guarda os momentos mais carinhosos que só se partilham com os amantes, os amigos e o público.
Vítor Arezes

Próximos espectáculos:

  • Vila Real, Casa de Pasto Chaxoila, 4 de Setembro às 21h30
  • Porto, Clube Literário do Porto, 6 de Setembro às 21h30
  • Braga, Livraria Centésima Página, 8 de Setembro às 21h30
  • Braga, FNAC do Bragaparque, 10 de Setembro às 21h30
  • Coimbra, FNAC Fórum, 12 de Setembro às 17h00
  • Porto, FNAC Norteshopping, 16 de Setembro às 21h30
  • Vila Real, Associação Espontânea, 19 de Setembro às 21h30
  • Lisboa, FNAC Chiado, 20 de Setembro às 17h00
  • Lisboa, Fábrica Braço de Prata, 20 de Setembro às 21h30
  • Guimarães, Livraria do Centro Cultural São Mamede, 21 de Setembro às 21h30
  • Porto, FNAC Santa Catarina, 22 de Setembro às 18h30

Teatro Universitário do Minho

E-mail: teatrum@gmail.com
Sítio oficial: http://www.blogdotum.blogspot.com/
Telemóvel: 965530263

domingo, 2 de agosto de 2009

canção ao emigrante


a sombra para além dos dias é a lembrança de ontem e o poder não haver amanhã

levo numa mala coisas simples para voltar e sei exactamente a quem pertencem

levo-as numa de devolver e guardo-as com a mão dos dedos todos para que não esqueça porque vou

sei ainda de cor os passos para casa e só penso no inverso quando me arremesso à frente

tenho de passar daqui para lá sem ir desta para melhor

há partes de mim feitas à mão que não passam na alfândega e maravilhas escondidas que vou ter que declarar

vou para longe para ser visto de relance pelos olhos frios da certeza da parada das tropas

sou o viajante
o camionista
o forasteiro
o astronauta
o emigrante
o país
o sem-abrigo
o que vai agora aprender a falar
o que vai agora aprender a comer
o que vai para a sombra ver melhor
o que não sabe ao que vai
sei o regresso e fujo ao passado entre os dedos juntos

oxalá não se esqueçam de mim
o neto da nau catrineta
o bisneto do Deus nos livre
o marujo à cabra cega

fiz a mala mais pequena que havia com o couro das costas
e tenho dores nelas quando vos aperto nas mãos

fui fazer um país novo e encontrei o que já lá estava
dei um adeus a ver se voltava porque não sabia até já na outra língua
e por isso fiquei mais tempo

espero voltar
espero um dia
espero que baixe à terra um bilhete de avião
espero por ver maior a foto tipo passe-vite que me amarrotou o transparente da carteira

espero por um dia mais novo          comigo mais velho a falar mau português com o carinho todo que tiver

João Negreiros

segunda-feira, 27 de julho de 2009

o búfalo que sopra





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o búfalo que sopra
eu sou o grande búfalo solitário que sopra para mudar a pradaria
e dou         sem esforço         razão         às criaturas da terra         de viver
vivo para além do que está certo e ao lado do que está errado no centro da verdade
que foi criada por mim num ritual ancião feito por cegos
surdos
mudos
loucos
mortos
para que não sobrassem testemunhas
sou o grande búfalo solitário
o único sabedor da verdade
e vivo todos os dias um pouco para contar um pouco dela a todos vós
os crentes da mentira
profetas da mentira
escravos da mentira
sou o grande búfalo solitário que faz uma bossa cornuda com chifres na planície que o homem povoou de edifícios altos como o Deus nos acuda
sou o grande búfalo solitário
o vigia que estava cá antes e que nunca fica para depois
tenho mais o que fazer
tenho que fazer mais
tenho que te fazer mais
a ti que só acreditas na tua sombra nos dias em que a noitinha se atrasa e quando as nuvens não aconchegam o azul
eu nasci para vos nascer
cresci para vos crescer
morri para vos morrer
respiro ofegando fazendo a brisa que navega pela outra margem até esta
fazendo a ponte dos ventos que lavam a cara às lavadeiras para que levem a roupa suja e os rostos molhados
sou o grande búfalo solitário
o que ignora as próprias dores porque vive só com as dos outros
e cavalgo sem cavalo
e marro sem ser boi
e penso ruminando que o meu papel é viver para além da minha e da vossa chama
sou o grande búfalo solitário
não como o que me dão
mas o que a natureza me dá
e a minha natureza é esta
e a minha missão é uma
viver na ignorância dos outros com a minha sabedoria
agarrar o passado
mascá-lo como tabaco
e lançar-me à desfilada num atropelo mortal com os cornos contra o futuro que vai ser meu
o futuro vai ser meu
e os meus cornos abrem uma brecha no destino         mudando a paisagem
e os meus cornos abrem uma brecha no destino         mudando a História
e os meus cornos abrem uma brecha no destino         mudando o homem
o vento levanta-se do sono mais pesado
urge tempestade nos olhos
eu sou o grande búfalo solitário que sopra para mudar a pradaria
eu sou o grande búfalo solitário que sopra para mudar a pradaria
in "a verdade dói e pode estar errada", de João Negreiros

sexta-feira, 17 de julho de 2009

O Teatro Universitário apresenta


Espectáculo e percurso antológico da poesia de João Negreiros, que tem como objectivo traçar uma rota que vai desde as suas tendências Neo-Surrealistas até à lírica mais conceptual e sonora.
A interpretação dos diseurs visa ser oral, naturalista e inovadora, tornando a literatura mais óbvia, mais universal e mais acessível.
É um espectáculo de emoções extremas e dos sentimentos mais íntimos e guarda os momentos mais carinhosos que só se partilham com os amantes, amigos e o público.
Vítor Arezes

Dose da fatia de um doce

Dá-me um bocadinho do teu amor        todos os dias
Não mo dês todo hoje         que amanhã vou precisar dele outra vez
eu sei         conheço-me bem
e nesse aspecto         sou exactamente como o resto da humanidade
preciso de ser amado todos os dias
só espero não morrer muito velhinho         para que o teu amor me
                        [dure até ao fim da vida



in "o cheiro da sombra das flores" de João Negreiros




Ficha técnica
Direcção artística: João Negreiros
Diseurs: Ana Catarina Miranda, Andreia Dantas, Catarina Rocha, Dina Costa e Eduarda Freitas
Sonoplastia:João Negreiros
Selecção de textos: Ana Catarina Miranda, Andreia Dantas, Catarina Rocha, Dina Costa, Eduarda Freitas
Operação de luz e som: Vítor Arezes e Agostinho Silva

Agradecimentos: Junta de Freguesia da Sé de Braga, transportes Urbanos de Braga

De 21 a 25 de Julho, às 21h30.

Local: Auditório do T.U.M., Rua do Farto, Braga (junto às Frigideiras da Sé).
Reservas: 965530263; teatrum@gmail.com