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sábado, 2 de janeiro de 2016

"Agora" de João Negreiros



"Agora"

Ando farto de mim, farto de mim, farto. A minha vida é um puto dum frete pegado. Estou farto de tudo, de mim, de tudo. Farto como quem tem fome. Farto como quem não tem o que lhe falta. Farto como o que falta fazer. Deve haver coisas de que gosto com certeza, e pessoas de quem gosto com certeza, e sítios onde gosto de estar com certeza. Mas não sei o que são, não sei quem são, nem sei onde é.
Sou um carneiro. Eu sou um carneiro. Vou por onde mandam. Vou onde calha. Se eu soubesse exactamente as coisas de que gosto era feliz com elas agora, pegava nelas embevecido agora, rebolava com elas agora ficava horas especado a olhar para elas agora, mas não sei. Olho à volta e vejo tudo, mas em tudo não sei o que é. Aprendi a gostar de tudo e agora estou farto. Tudo é coisas a mais.
Se eu soubesse exactamente as pessoas de que gosto era feliz com elas agora, pegava nelas embevecido agora, rebolava com elas agora, ficava horas especado a olhar para elas agora, mas não sei. Olho à volta e vejo todas, mas de todas não sei quais são. Aprendi a gostar de todas e agora estou farto. Todas é gente a mais.
Se eu soubesse exactamente os sítios de que gosto era feliz neles agora, pégadas neles embevecido agora, rebolava neles agora, ficava horas especado a olhar para eles agora, mas não sei. Olho à volta e vejo todos, mas em todos não sei o que é são. Aprendi a gostar de todos e agora estou farto. Todos são sítios a mais. Tudo é demais. Todas são demais. Todos são demais.
Se me conhecesse e gostasse de me saber sabia o que me sabia bem, sabia o que era bom para mim. Paro o texto, o raciocínio, a auto-crítica, o bom, o mau, o mais e o menos. Paro o certo, o errado e descubro neste momento em mim as coisas que me fazem bem, as pessoas que me fazem bom e os sítios que me fazem homem.
É um momento eterno e instantâneo e só demora o que for preciso e muda agora a minha vida e o meu caminho. E é tão nítido. E é tão óbvio.
Como é que eu nunca tinha pensado nisto, neste, aqui? Como é que eu nunca pensei nisto, nesta, ali? Penso agora e é tão fácil. Agora conheço-me. Um homem só se conhece verdadeiramente quando sabe exactamente o que o faz feliz. Tornei-me num agora.
Foi mesmo agora. Foi mesmo agora.

in "O Manual da Felicidade" de João Negreiros

Texto do livro "O Manual da Felicidade" de João Negreiros
Interpretação: João Negreiros
Edição de som: Miguel Guerra
Edição de imagem: Ana Catarina Miranda
Co-produção: Bolor Teatro e Teatro Universitário do Minho
Apoios: Instituto Português do Desporto e da Juventude; Universidade do Minho; Associação Académica da Universidade do Minho; Centro de Pesquisa e Interacção Cultural

www.omanualdafelicidade.com
http://joaonegreiros.blogspot.com

terça-feira, 8 de dezembro de 2015


O Presente

Pega no presente como se nascesses no Natal e não sofras com o que foi… que o que foi está longe como o que só foi agora uma vez.
Pega no presente e envolve-o lasso suficiente para caber quem gostas.
Pega no presente e começa de novo usando tudo para trás como informação tua noutra vida em que eras o mesmo… mas não tão perfeito.
Pega no presente e percebe que é o momento.
Pega no presente e sabe de cor interiormente, sem cábulas, tudo o que te aconteceu porque tudo o que te aconteceu fez sentido, e o sentido foi o que te trouxe até aqui, e aqui é perfeito para dar início a mais um momento áureo.
Pega no presente até ao infinito e perpetua o instante como o especial.
Pega no presente e torna-o tão único como a água e faz dele a pujança inequívoca de estar tão vivo como tudo o que é impressionante.
Pega no presente e pulsa o ritmo cadente de um músculo novo que nasce sem esforço porque se inventa como o vento e as marés.
Pega no presente e faz tudo de novo como se respirasses a coragem.
Pega no presente e acende-o como a luz faz ao escuro.
Pega no presente e mata o medo do teu vocabulário como se só tivesses cheta para um dicionário de bolso.
Pega no presente e faz dele o que virá. E do que foi soubeste ver tudo, gostaste de ver tudo, precisaste de ver tudo.
Pega no presente e sabe que o que se passou foi para te fazer e o que há-de vir há-de ser sempre já.

Texto do livro "O Manual da Felicidade" de João Negreiros

Interpretação: João Negreiros
Piano e Composição: Maria do Céu Camposinhos; 
Mazurka opus 1, nº2 
Sonoplastia: Miguel Guerra
Edição: Ana Catarina Miranda
Co-produção: Bolor Teatro e Teatro Universitário do Minho
Apoios: Instituto Português do Desporto e da Juventude; Universidade do Minho; Associação Académica da Universidade do Minho; Centro de Pesquisa e Interacção Cultural

sábado, 26 de setembro de 2015


Texto do livro "O Manual da Felicidade" de João Negreiros
Interpretação: João Negreiros
Guitarras e Composição: Zé Pedro Ribeiro; 
Edição de som: Jorge Cunha - LM Studio
Edição: Ana Catarina Miranda
Co-produção: Bolor Teatro e Teatro Universitário do Minho
Apoios: Instituto Português do Desporto e da Juventude; Universidade do Minho; Associação Académica da Universidade do Minho; Centro de Pesquisa e Interacção Cultural

O Golpe de vistas largas

Gostava de saber o que se passa por baixo de ti.
Gostava de saber o que tens que te faz mexer.
Gostava de saber que, para além do que és agora, tens o que vais ser.
Gostava de saber exactamente o que és e não só o que vejo.
Vejo tão mal ao longe.
Vejo tão mal ao longe porque pratico pouco.
Pratico pouco imaginar o que são os outros.
Seria tão bom olhar para ti e saber quem és para além da roupa que vestes, das coisas que dizes e do que dizem de ti.
Seria tão bom ver com certeza absoluta a beleza que cada um guarda em cofres de combinações impossíveis.
Até hoje a preguiça obrigou-me apenas a ver o óbvio mas o óbvio é uma superfície lustrosa onde escorregam os olhos até ter remelas que me tapam a visão.
Eu, a partir de agora, vou semicerrar os olhos se for preciso, vou esbugalhá-los se preciso for, vou fechá-los para ter a certeza, vou apagar a luz para poder apalpar, vou pôr as mãos atrás das costas até te saber o cheiro, vou ouvir-te para lá das palavras e vai saber-me bem ter-te em mim como quem percebe a verdade.
Gostava e agora gosto… e gosto porque tento… e tento porque quero… e quero porque é bom…
É bom poder amar o profundo porque para mergulhar na água é preciso saber se não há rochas ou corais nela.
Gostava e agora gosto.
Vejo em alta definição bem para lá de tudo o que distrai.
A beleza é tão nítida como os sentidos.


in "O Manual da Felicidade" de João Negreiros   

terça-feira, 25 de agosto de 2015

isto não é bem um fado


"isto não é bem um fado"

o que ouviste quando estavas bem
é o que vais dizer mais vezes
e o que falas quando estás sem
é o que vais cantar nos dias trezes

e sabes o que funciona
está-te debaixo da língua
e tens as palavras na saliva à tona
e já não sabes estar à mingua

faz a trave mestra 
p’ró palácio não ruir
acorda entre o vime da cesta
e tudo te dá vontade de rir

e mesmo quando arrasto a voz
é p’ra dizer não estamos sós

e mesmo quando grito
faço da dor um velho mito

e se o que canto de der vontade de chorar
isso é mentira que o teu riso não tem par

e se for lenta a canção
e se nasci no país errado
tiro o bolor do teu pão
porque isto não é bem um fado

in "livro de canções do Manual da Felicidade" de João Negreiros

Letra e voz - João Negreiros
Composição - Pedro Lima
Guitarra - Edgar Ferreira
Teclas - Pedro Lima
Violoncelo - Beatriz Ferreira
Sonoplastia - Miguel Guerra
Edição - Ana Catarina Miranda
Co-produção: Bolor Teatro e Teatro Universitário do Minho
Apoios: Instituto Português do Desporto e da Juventude; Universidade do Minho; Associação Académica da Universidade do Minho; Centro de Pesquisa e Interacção Cultural

sábado, 15 de agosto de 2015

Nuance


"nuance"

a parte do dia de que gosto mais és tu
a parte do corpo de que gosto mais é nu
a parte da vida de que gosto mais é agora
o tempo do tempo de que gosto mais é esta hora

e tudo o que vejo no nosso intervalo é a fresta
e tudo o que é bom e tudo o que é mais é o que resta
a parte de ti de que gosto mais é a festa
a parte de mim de que gosto mais é esta

e a terra de que gosto mais é a minha cidade
e o que sou até aqui é a idade

e esta vista é feita p’rós olhos
e o que é bonito é para se ver
para além da roupa és linda sem folhos
e quando estás nua és bem mais mulher

in "livro de canções do Manual da Felicidade" de João Negreiros

Letra e voz - João Negreiros
Guitarra - Edgar Ferreira
Composição - Benjamim Vaz
Sonoplastia - Miguel Guerra
Edição - Ana Catarina Miranda
Co-produção: Bolor Teatro e Teatro Universitário do Minho
Apoios: Instituto Português do Desporto e da Juventude; Universidade do Minho; Associação Académica da Universidade do Minho; Centro de Pesquisa e Interacção Cultural

quinta-feira, 6 de agosto de 2015

A complexa associação


"Rock and roll poetry self esteem hipno coiso e tal... acho que é assim que se denomina este novo género musical. Sou um pioneiro! Espero que se divirtam e que curtam este som. Chama-se "A complexa associação" e é a minha humilde maneira de celebrar o que somos."

"A complexa associação"

As memórias são o que te lembras delas
o que pensas é tudo o que escolhes
os aniversários são mais que as velas
e as canções são mais do que os headphones

já foste muita coisa
já estiveste em muito lado
existes como o que poisa
mas já voaste um bom bocado

lembra-te agora de tudo 
e de como tudo foi bom
lembro-me e expludo 
como se descobrisse um dom

um que me faz ver para trás
é que já senti muito muitas vezes
sei o que me satisfaz
e já lá estava quando era um bebé de meses

e se estiver ansioso e não quiser
lembro-me da vez em que estive mais calmo
e se tiver saudades da mulher
procuro outra          invento uma          imagino-a aqui e as saudades espalmo

e tudo o que me fazem
é o que faço a mim próprio
para viajar por mim como uma aragem
não preciso de telescópio

sou o que penso de mim e sou são
sou o que me lembro
sou uma complexa associação
e sou o meu melhor membro

in "livro de canções" de João Negreiros

Letra e voz - João Negreiros
Guitarra - Edgar Ferreira
Violoncelo - Beatriz Ferreira
Piano - Pedro Lima
Composição - Benjamim Vaz
Sonoplastia - Miguel Guerra
Edição - Ana Catarina Miranda
Co-produção: Bolor Teatro e Teatro Universitário do Minho
Apoios: Instituto Português do Desporto e da Juventude; Universidade do Minho; Associação Académica da Universidade do Minho; Centro de Pesquisa e Interacção Cultural

segunda-feira, 27 de julho de 2015

Ode ao homem bom


Ode ao homem bom
Eu gostava de gostar dos homens que gostam de mim mas os filmes e as amigas que me põem triste disseram-me que os homens a sério são os que não gostam.
Li uma vez numa revista ou vi numa fotografia dessa revista que os homens maus eram charmosos. Eu nessa altura não sabia o que queria dizer charmoso mas pela fotografia acho que era um homem que usava um cigarro como uma arma e que tinha um carro grande muito difícil de estacionar.
Eu gostava de gostar de um homem bom que me amasse incondicionalmente. Um homem que me desse atenção, que não soubesse jogar ao amor, nem jogar ao sexo, nem jogar às paixões, nem jogar ao “vamos ver quem ama mais e vamos ver quem ama menos e quem ama menos ganha e quem ama mais perde”.
Eu quero um homem, não precisa de ser bonito para as revistas, nem precisa de ser bonito nos outdoors, nem precisa de ser bonito para as minhas amigas tristes, só precisa de ser bonito para mim.
Eu, antigamente, achava que não conseguia controlar o amor. Achava que o amor não se escolhia e que se me calhasse um cabrão para amar teria que ser infeliz com ele porque era um bom partido. Tive o coração partido à conta do bom partido. Agora prefiro um homem por inteiro.
Não vai ser a vida a escolhê-lo para mim, nem a revista a escolhê-lo para mim, nem as amigas tristes a escolherem-no para mim. O meu homem vou ser eu a escolhê-lo, não vai ser amor à primeira vista, vai ser amor à primeira festa.
Vou escolher o que souber sorrir, vou escolher o que me fizer rir, vou escolher o que me fizer crescer, vou escolher o que me escolher ao mesmo tempo, vou escolher o que for perfeito, não por ser perfeito, mas por me dar aquilo de que preciso.
Pela primeira vez quero exactamente aquilo de que preciso. Preciso de um companheiro, não preciso de um amante. Preciso de um porto, não preciso da tempestade. Preciso de companhia, não preciso de ver filmes ruins sem ter quem goze com eles.
Pode conduzir um Fiat Punto, um Renault Clio, ou um Fiat Panda que comprou por 780 euros a uma tia solteira.
Eu quero um homem bom. Os homens bons têm charme. Ainda não sei o que o charme é mas o meu homem bom vai tê-lo.
Amo-te, meu amor. Não sei quem és mas vejo-te com nitidez. Conheço-te como a mim e amo-te para sempre com a certeza de quem percebeu finalmente que o amor só pode ser uma coisa boa.  

Texto do livro "O Manual da Felicidade" de João Negreiros

domingo, 5 de julho de 2015

há espaço para mim no cume


Entrevista de João Negreiros no programa "É a vida Alvim" em Janeiro de 2015.

Texto interpretado por João Negreiros: "há espaço para mim no cume" do livro "O Manual da Felicidade" de João Negreiros

Há espaço para mim no cume

Se escalasses o maior pico da maior montanha serias capaz de parar três metros antes e voltar para o quentinho?
Se fosses à Lua preferias ficar dentro da cápsula espacial a ver desenhos animados ou a jogar paciências sem gravidade?
Se fosses campeão do Mundo preferias ser do Mundo todo ou abdicavas de parte dele só para deixar países de fora da tua excelência?
Se estivesses quase quase, eras capaz de dizer “pronto, pronto”?
Se estivesses quase a chegar eras capaz de dizer “pronto, já chega”?
Se fosses mesmo crente numa coisa serias só crente na intempérie, na borrasca, na adversidade, na procela, no desespero?
Não eras capaz de crer também no céu mais claro a cheirar a terra molhada, no chá para a garganta roufenha, no sorriso e na vitória?
Ganhar é desconfortável? Faz-te comichão? Dá-te vontade de voltar para o quentinho e de não espetar a bandeira no cume mais improvável?
Ganhar abre o problema da habituação. Se começas a ganhar e a vencer, que é a mesma coisa, tornas-te repetitivo e depois não sabes fazer outra coisa. E vais ter menos coisas em comum com quem perde.
Queres um comprimido? Queres um xanax para te acalmar esse punho no ar a brandir vitórias? Queres um cobertor? Um programa de sábado à noite gravado para não pensares mais nisso? Queres um cérebro de um babuíno para não veres mais do que um banana?
Ó pá! Deixa-te de merdas e ganha! Ganha agora, ganha depois, ganha ontem, ganha sempre.
E se perderes… ganha. E se te custar ganha. E se não gostarem de ti ganha. E se gostarem ganha. E se continuarem a gostar ganha. E se te admirarem ganha. E se te desprezarem ganha. E se fores feio ganha pela beleza. E se fores bonito ganha para ficares feio, e a cheirar mal e cheio de inimigos, mas vencedor como aquele que faz o seu destino ao mesmo tempo que faz o resto.
Ganha até que não saibas nada para além disso. Ganha até que não seja ganhar. Ganha até que seja andar, respirar ou outra coisa tão real como estar.
E quando te disserem o que quer que seja tu responderás o que for porque a vitória não tem significado, é apenas aquilo para que te levantas todos os dias.
E se o sucesso for menos interessante e enigmático que o falhanço e a tristeza, tens razão. O sucesso é um sítio simples como tudo o que se percebe… e tu só percebes isto: ganha sempre até que a vitória seja o início.

in "O Manual da Felicidade" de João Negreiros

sábado, 25 de abril de 2015

Li verdade


"Li verdade" in "livro de canções" de João Negreiros

Letra e voz - João Negreiros
Piano - Maria do Céu Camposinhos
Sonoplastia - Miguel Guerra
Edição - Alexandra Brito
Co-produção: Bolor Teatro e Teatro Universitário do Minho
Apoios: Instituto Português da Juventude; Universidade do Minho; Centro de Pesquisa e Interacção Cultural

Li verdade

o que vale é que os cadernos são baratos
o que vale é poderes coçar os chatos
o que vale é só a letra mesmo ao lado da argola
o que vale é que ainda não se paga o ar
o que vale é que aí dentro                         sendo dentro a tua tola
o que vale é que não pagas p’ra pensar

se procuras aquilo que quer o outro
e não sabes bem o que te sabe a ti
se não sabes bem estás morto
se não falas perdigoto
então o que andas tu a fazer aqui?

liberdade é uma coisa a modos de usar
que se perde quando não se sabe usar
não precisas que ta tirem         como quem está a cair
liberdade é bem mais leve que um menir

porque usá-la é quase como ir ao céu
é só a procura do que queres ser mesmo
não dizeres é viveres num mausoléu
a luz do Sol não é estar feito num torresmo

escolheres é tudo o que Deus te deu
sei bem que pareço uma catequista
dos insultos façam lista
há bocado era comunista
na verdade quem sabe de mim sou eu

ir ao céu não é viver no Sol
p’ra falares tira os lábios do anzol
liberdade não escolhe religião
liberdade não milita nem tem patrão

liberdade é só estar 
e dar uso ao que tu és
liberdade é beijar
moças nos cafés

in "livro de canções" de João Negreiros

terça-feira, 14 de abril de 2015


Entrevista de João Negreiros no programa "É a vida Alvim" em Janeiro de 2015.

Texto interpretado por João Negreiros: "Obrigado por tudo" do livro "O Manual da Felicidade" de João Negreiros que sairá em Maio.

domingo, 12 de abril de 2015

falta mim


"falta mim" in "livro de canções" de João Negreiros

Letra e voz - João Negreiros
Guitarra - Edgar Ferreira
Violoncelo - Beatriz Ferreira
Piano - Pedro Lima
Composição - Edgar Ferreira
Sonoplastia - Miguel Guerra
Edição - Alexandra Brito
Co-produção: Bolor Teatro e Teatro Universitário do Minho
Apoios: Intituto Português da Juventude; Universidade do Minho; Centro de Pesquisa e Interacção Cultural

"Falta mim"

se fores a árvore e deres a folha
quero-te mais à resma
amo-te mais perto que longe
quero-te longe à mesma

espera que isto soou mal
como este mar afogado em sal
espera que não era bem assim
fazes-me tanta falta como a mim

in "livro de canções" de João Negreiros

terça-feira, 7 de abril de 2015

Novo uso ao ar


"novo uso ao ar" in "livro de canções" de João Negreiros

Letra e voz - João Negreiros
Guitarra - Edgar Ferreira
Composição - Benjamim Vaz
Edição - Alexandra Brito
Co-produção: Bolor Teatro e Teatro Universitário do Minho
Apoios: Intituto Português da Juventude; Universidade do Minho; Centro de Pesquisa e Interacção Cultural

Novo uso ao ar

Perder a vontade
é nunca estar atento
é ganhar toda a idade
perder todo o alento

perder a ilusão
fugir às arrecuas
é perder paixão
é passear sem as ruas

continuar é o novo começo
o perseverante inventou o progresso
querer acordar é uma coisa sem preço
se sonho o amanhã a dormir enriqueço

e acreditar que há por que voar
é dar um caminho e novo uso ao ar

in "livro de canções" de João Negreiros

domingo, 22 de março de 2015

vestido de folhos


vestido de folhos

se não tens pão não comas o gato
se te falta chão não fiques um chato

porque o mal existe não fiques um triste
inventar não é crime          sonha com o pulso firme

e se a Páscoa não traz ovos
e se a mágoa te faz cornos

se o Natal não trouxe comboios
faz do mal um vestido de folhos

"vestido de folhos" in "livro de canções" de João Negreiros

Letra e voz - João Negreiros
Guitarra - Edgar Ferreira
Composição - Benjamim Vaz
Edição - Alexandra Brito

Co-produção: Bolor Teatro e Teatro Universitário do Minho
Apoios: Intituto Português da Juventude; Universidade do Minho; Centro de Pesquisa e Interacção Cultural

domingo, 8 de março de 2015

felicidade por defeito


"felicidade por defeito" in "livro de canções" de João Negreiros

Letra e voz - João Negreiros
Guitarra - Edgar Ferreira
Composição - Benjamim Vaz

Co-produção: Bolor Teatro e Teatro Universitário do Minho
Apoios: Intituto Português da Juventude; Universidade do Minho; Centro de Pesquisa e Interacção Cultural


felicidade por defeito

respirar é o ritual
que não sabes fazer mal
é uma técnica que funciona até adormecida
o mentecapto decora
é p’ra dentro e para fora
como tudo na vida

no nascimento está a razão
para se andar aqui
ando a estudar essa emoção
desde o dia em que nasci

quando esqueces ofegante
quando te perdes de ti
se estrebuchas louco e errante
inspira-te que eu já sabia quando nasci

no nascimento está a razão
para se andar aqui
ando a estudar essa emoção
desde o dia em que nasci

se te disserem que o fazes mal
diz nasci a saber
se te disserem que o fazes bem
diz que foste lá atrás ver

se o que tinhas à partida
não estava estragado
manda embora quem te mandou fora
e te pôs em nenhum lado

no nascimento está a razão
para se andar aqui
ando a estudar essa emoção
desde o dia em que nasci

diz lá
gostas de respirar?
estás cansado de respirar?
tens vergonha de respirar?
não me digas que tens saudades
mesmo saudades da falta de ar
saudades da cabeça dentro d’ água
saudades da culpa e do sofrimento e da mágoa
se quiseres mesmo vou ali e trago-a

no nascimento está a razão
para se andar aqui
ando a estudar essa emoção
desde o dia em que nasci

tens saudades do que está longe?
a sério?
nesse convento és o único monge
essa clausura é p’ra mim mistério
saudades só sei ter do que está bem perto
abraçar o que está à mão é o único vício certo

no nascimento está a razão
para se andar aqui
ando a estudar essa emoção
desde o dia em que nasci

in "livro de canções" de João Negreiros

quarta-feira, 4 de março de 2015

as pessoas que quero p'ra mim


"as pessoas que quero p'ra mim" in "livro de canções" de João Negreiros

Letra e voz - João Negreiros
Guitarra - Edgar Ferreira
Composição - Benjamim Vaz

Co-produção: Bolor Teatro e Teatro Universitário do Minho
Apoios: Intituto Português da Juventude; Universidade do Minho; Centro de Pesquisa e Interacção Cultural

as pessoas que quero p’ra mim

quero primeiro quem mais eu queria
quero primeiro quem eu mais queria
quero primeiro como a mãe faz à cria

as pessoas que gostam de mim
são as pessoas que quero p’ra mim
isto é mágico como compota sem aditivos
isto é básico como elogios com adjectivos

as pessoas que gostam de mim
são as pessoas que quero p’ra mim
isto é sincero como a luz do dia
e ao meu lado só quero a gente que mais eu queria

as pessoas que gostam de mim
são as pessoas que quero p’ra mim

as pessoas que gostam de mim
são as pessoas que quero p’ra mim

não são pessoas reles
juntos trocamos peles
riem-se do que eu digo
e não do que eu penso
seguem-me por onde sigo
e o caminho nem é tão denso

essa gente que me amolece o muro
que tenho que quebrar na missão
estão comigo e eu  juro
que nunca lhes vou largar da mão

a não ser para endireitar os óculos
ou coçar o nariz
e os dedos grudam-se em ósculos
e estou com eles até à raiz

as pessoas que gostam de mim
são as pessoas que quero p’ra mim 

in "livro de canções" de João Negreiros

domingo, 1 de fevereiro de 2015

Entrevista na SIC Mulher


Entrevista de João Negreiros no programa "Mais Mulher" do canal SIC Mulher apresentado por Ana Rita Clara (19/01/2015).

Texto dito no final da entrevista:

"Dizes o que pensas de quem amas?"

Sabes o que pensas de quem amas.
Dizes o que pensas de quem amas?
Sabes o que dizes de quem amas.
Amas o que dizes de quem amas?
Pensas o que dizes de quem amas?
Não precisas de pensar quando dizes o quanto amas.
O amor traduzido para palavras dá ao amor voz e às palavras utilidade.
Para a violência há gestos que chegue.
Para o amor são precisas palavras exactas que não confundam os amados com gestos dúbios.
Se amas diz para ser mais forte.
Se gostas… gosta com sons que a tua língua sempre teve para ti.
Pega em palavras escolhidas. São as mesmas que todos usam mas têm a combinação particular da tua voz e da tua mente.
E, para além disso, vê o bom em tudo porque em tudo há o bom. Sabes que vendo o bom vês o início da bondade? Mudas uma letra e tens caminho aberto para fazeres a vida melhor. Queres a vida melhor?
Então se queres diz. Diz alto. Diz com palavras perfeitas que são exactamente aquelas que te vêm à cabeça no primeiro impulso.
O teu primeiro impulso sempre foi bom.
Sabes que nasceste com a certeza do que estava certo. E certo… certo é seres feliz e gritares isso… ou murmurares isso… ou urrares isso… ou celebrares isso.
Se nasceste a chorar foi porque te bateram, não porque fosse impulso verdadeiro. Ninguém te bate agora. Agora querem-te como estavas para nascer. Querem-te rindo e esperneando por um ar melhor que enche os pulmões de algo que é a vida. A vida és tu e nós queremos ouvi-la como ela é. Como tu és.
Dá abraços que fazem falta a quem anda perdido e em busca de ser amarrado. Dá beijos a quem for seco. Diz carinhos a quem já os tem porque demais é só a tristeza… felicidade em demasia é como calor a mais quando está frio, lume a mais quando apagou, sol a mais quando é Inverno, Lua a mais quando é de noite, certezas a mais quando se hesita, cola a mais quando não pega, força a mais quando não podes, coragem a mais quando tens medo.
Tu nasceste a sorrir e a dizer coisas lindas. Se choraste e se começaste a falar tarde foi porque não te deixaram. Agora deixo-te eu para fazeres aquilo a que estavas destinada.
Sorri como vinhas para fazer. Diz o doce que tinhas preparado e nas palavras serás a pessoa que já és no resto. No resto és a vida… nas palavras és agora tudo o que falta.
Fala agora o amor que andaste a adiar e que vem no momento certo.
Este é o momento certo.
Diz coisas lindas que a bondade sem ti não tem piada nenhuma.

Texto d' "O Manual da Felicidade" de João Negreiros