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sábado, 19 de abril de 2014

"O Sol Morreu Aqui" - romance


O romance “O Sol Morreu Aqui” venceu o prémio literário internacional Dias de Melo de 2012. O júri, constituído por personalidades de reconhecido mérito literário, foi unânime em considerar a obra de João Negreiros merecedora do prestigiado galardão, tendo decidido também apoiar a sua edição. Os membros do júri consideraram que o romance vencedor será “um marco importante na literatura portuguesa", sendo uma obra de “inegável valor literário muito superior à maior parte das que se vão publicando em Portugal”. “O originalíssimo narrador auto reflexivo e subversor da própria narrativa que controla, embora finja muitas vezes que ela se lhe escapa; o desconcertante clima surrealista num livro de sabor realista;  a lúcida dimensão ética que assume;  a forma como, a partir de várias histórias que correm em paralelo, acaba por as tornar numa unidade narrativa; a ironia de uma eficácia rara”;   foram algumas das razões apontadas pelo júri, para declarar a obra como vencedora do concurso.

domingo, 2 de dezembro de 2012

sexta-feira, 1 de junho de 2012

Prémio do Concurso Poético do Cancioneiro Infanto-Juvenil


“Agridoce” – poema do livro “luto lento” premiado e publicado no Cancioneiro Infanto-Juvenil para a Língua Portuguesa



agridoce

no caminho da escola para casa há uma senhora que vende gomas aos rapazes que passam sem camisa

e são doces e baratas

e quando chegam à boca deixam de ser gomas e passam a ser um sorriso

um sorriso daqueles que o Sol não tem porque é tão quente que o derreteu          vertendo-se para os 

desenhos das crianças

e a senhora tem um banquinho tapado pelas saias grandes

e          como ninguém o vê          quando ela se senta parece que flutua

e os rebuçados são magia

e a senhora vende na rua nos dias de sol

e nos de nevoeiro não a vemos mas ela está lá

e nos de frio não a sentimos com os dedos mas ela está lá

quando chove é que não

a porta está fechada

o banco está molhado e sozinho

e espreito debaixo dele para ver se ela deixou alguma coisa para mim          mas não deixou

e volto para casa com o sorriso do Sol ao contrário                  

com a chuva ácida no intervalo das lágrimas doces          que vos queria tanto          mas não podia ser      
que derretiam com a água          diz a senhora

eu não percebo como é que eles não derretem com o Sol do céu          com o Sol dos lábios e derretem com a água fria

e tenho a boca azeda          deve ser da gripe ou do remédio

e dizem que a chuva é boa por causa dos agricultores

e eu não percebo          mas se calhar percebo

a senhora das gomas dos agricultores deve ter um guarda-chuva muito grande e a minha não

e dizem que a chuva é boa porque os doces me fazem mal aos dentes

e eu não percebo          mas se calhar percebo

a chuva é boa porque não sabe a nada e o que não sabe a nada é azedo

e o nada faz-me bem

e o amargo faz-me bem

e a tristeza faz-me bem

e a chuva faz-me bem

e a rua deserta faz-me bem

e a lágrima que me chove dos olhos à boca faz-me bem                       

não estar aqui ninguém faz-me bem

e o doce é o demónio

a chuva é do senhor

o calor vem do inferno

e a senhora é uma bruxa

e tem razão quem diz

e não tem quem dá

e o que é bom é mau

e o que é mau faz bem

e a casa está tão longe

e o doce que é tão perto vai ficar para amanhã

porque amanhã vem o Sol

amanhã regressa o Sol

desta vez com um sorriso


poema do livro "luto lento" de João Negreiros



O Cancioneiro Infanto-Juvenil Para a Língua Portuguesa é uma iniciativa do Instituto Piaget que pretende estimular a criatividade poética entre as crianças e os jovens de todos os países de língua portuguesa. Em simultâneo, o Cancioneiro Infanto-Juvenil tem como objectivo reintroduzir a dimensão poética no sistema educativo e cultural.

Ao longo da sua existência o projecto conta já com 13 mil participantes. Desde a primeira edição, há cerca de 20 anos, o projecto tem construído um valioso percurso de descoberta da linguagem poética, culminando na publicação dos melhores trabalhos apresentados a concurso.

sábado, 5 de novembro de 2011

V Prémio Internacional de Poesia ao Vídeo

"A tristeza" - poema de João Negreiros premiado.



A tristeza

A tristeza é uma irmã mais velha
que vive no quarto dos fundos           dos bolsos
sempre que não tenho trocos para lhe comprar uma cama de hotel
para poder vê-la feliz

as calças estão para lavar
as moedas tocam tambor
ou o leito de um rio que fica entre as almofadas do sofá

mana
vai-te embora que tenho saudades do meu quarto
quero dormir na minha cama

sabes
o sofá da sala tem um vale que me afunda as costas

mana
vá lá
pinta-te            sai à rua e arranja namorado

e tristeza partiu mesmo antes da morte chegar
o meu quarto está vazio              para sempre´

poema do livro "o cheiro da sombra das flores" de João Negreiros
à venda em livrarias e através de repeticao@gmail.com

sábado, 30 de outubro de 2010

4º Prémio Internacional de Poesia ao Vídeo

"o Outono visto pela janela" - vídeo classificado entre os 10 melhores
Poema faz parte do livro galardoado com o Prémio Nuno Júdice.



Para adquirir o livro "a verdade dói e pode estar errada" - http://www.saidadeemergencia.com/index.php?page=Books.BookView&book_id=535&genre=

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

6º Concurso Poético do Cancioneiro Infanto-Juvenil para a Língua Portuguesa

“quarto crescente” – poema do livro “luto lento” premiado e publicado no Cancioneiro “Amo de Ti”

quarto crescente


vou pintar uma parede de cada cor e encostar-me a cada uma para que cada uma seja o que eu quero construir

mas como só tenho quatro          quatro não chega por isso vou lá para fora imaginar paredes para que se façam muros que eu quero cair          uns altos e até ao tecto que está a fazer de céu

eu quero pintar o ar como quem pinta paredes para sentir os desafios como um ar que se lhe deu

e vou respirar distâncias para as cheirar mais perto

e vou escalar o areado como quem rasga os dedos e ainda assim sorri porque sobe como quem morre

vou pintar o mundo de uma cor única que são todas

e matizar as pessoas com nuances subtis para que sejam coerentes

mas eu vou ficar transparente para que vejam por mim o que eu não quero que dói muito

só que o ar anda racionado e o homem racionalizado

e dizem-me que o não faça          que fique quedo como quem respira só para fazer circular o ar          como o polícia que diz do acidente que aqui não há nada para ver

e fecharam-me à chave

e fecharam-me a chave dentro duma gaveta que está lá fora e lá longe

e estou a fazer pequeníssimos quadrados nas paredes do meu quarto para simular a imensidão do mundo

mas não me chega          falta-me gente          e até pus um anúncio no jornal a pedir gente pequenina em part-time para me inundar as paredes vestidas de quadrados que fazem de muros das casas das pessoas lá fora

e dentro do meu quarto corre bem          corre muito bem porque as cores começaram a intrometer-se nas almas umas das outras

e agora nem são quadrados

são manchas que eu nem distingo          que eu nem percebo          que eu nem sei ao certo

manchas que se misturam como quem nada          que viajam como quem corre

como quem escorre do tecto

como quem escorre do chão ao tecto

como quem escorre de fora para dentro

como quem se entranha

como quem se une

como quem se mune de aventuras e segredos que quiseram ser contados para deixarem de existir

e a perfeição do mundo interior é ter as barreiras simples feitas para cair

e a sua única tristeza são as arestas que choram no canto porque separam a mãe do filho e a solidão da aventura

e ao meu quarto só lhe falta ser circular para ser o mundo          mas lá fora circula

e um dia hei-de sair para dizer a todos que se espalhem ao comprido e debaixo uns dos outros

como quem ama sem saber como

como quem chama sem saber quem

como quem brinca sem saber a quê

e vou-lhes ensinar a verdadeira linguagem dos afectos          que é moldável palpável e daltónica

e o mundo vai ser de uma cor          melhor          o mundo vai ser de duas cores          da minha e da tua

in luto lento, de João Negreiros



O Cancioneiro Infanto-Juvenil Para a Língua Portuguesa é uma iniciativa do Instituto Piaget que pretende estimular a criatividade poética entre as crianças e os jovens de todos os países de língua portuguesa. Em simultâneo, o Cancioneiro Infanto-Juvenil tem como objectivo reintroduzir a dimensão poética no sistema educativo e cultural.

Ao longo da sua existência o projecto conta já com 13 mil participantes. Desde a primeira edição, há cerca de 20 anos, o projecto tem construído um valioso percurso de descoberta da linguagem poética, culminando na publicação dos melhores trabalhos apresentados a concurso.

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

os olhos - poema premiado em São Paulo

Poema galardoado, em São Paulo, com o Prémio Professora Therezinha Dutra Megale (2009). O poema premiado é o único poema de um poeta português presente numa Antologia de Poesia editada pela ASES, no Brasil, em 2009. Segundo, Norberto de Moraes Alves (Presidente da ASES), esta antologia lançada pela ASES tem por norma homenagear pessoas ilustres ligadas à literatura.



os olhos


se um gesto me definisse seria o de te afastar o cabelo para te ver melhor o rosto que me enche de bravura

e só te vejo pelos meus olhos por serem os que te vêem mais bela
por isso os escolho sempre
tenho os olhos feitos à medida da tua cara
e só tenho olhos para ti
quando não estás sou invisível e quase invisual
a visão não me serve de nada
vejo mas sem cor e é pior que a preto e branco
é desfocado
é esbatido
e sem chama
e sem cheiro
contigo cheira bem
sabe bem
ouve bem o que digo porque é sincero          porque se não fosse todo eu era falso
cada falso que há aí merecia cadeia ou morte
mas com os teus braços finos a fazer as vezes da corda que me serpenteia o pescoço para me matar de felicidade

e só te quero a ti
e só te vejo a ti como a última noite do Verão mais quente
com o céu mais estrelado
com a lua mais cúmplice
com os gestos mais carinhosos
e tiro-te o cabelo da frente com a ajuda da minha mão direita que só existe para isso
e vou para te beijar mas não o faço
hesito porque os meus olhos pediram-me que os deixasse olhar para ti mais uma vez
e eu deixo          para eles não chorarem muito
in a verdade dói e pode estar errada, de João Negreiros

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

Prémio Nuno Júdice atribuído a João Negreiros

O Município de Aveiro, em parceria com a Universidade de Aveiro e o Grupo Poético de Aveiro, atribuiu a João Negreiros o Prémio de Poesia Nuno Júdice 2009, pelo trabalho intitulado “arranha os céus e chove”. O júri, constituído por personalidades de reconhecido mérito literário, foi unânime em considerar a obra de João Negreiros merecedora do prestigiado galardão, tendo decidido também apoiar a sua edição.

A cerimónia de entrega e anúncio do vencedor do prémio aconteceu no passado sábado, pelas 15 horas no Auditório da Assembleia Municipal. O evento contou com a presença do Dr. Miguel Capão Filipe (Vereador do Pelouro dos Assuntos Culturais do Mu­nicípio de Aveiro), da Mestre Rosa Maria Oliveira, do Prof. Luís Serrano e do Prof. Doutor António Manuel Ferreira (Universidade de Aveiro), que fez a apresentação da obra vencedora.

O Prof. Doutor António Manuel Ferreira considerou quepara situarmos estes textos na sua genealogia ético-estética temos de recuar no séc. XX e de revisitar alguns textos essenciais de Fernando Pessoa, nomeadamente, as desalentadas confissões de Álvaro de Campos” e continuou dizendo que os poemas de João Negreiros “integram-se em pleno direito num dos trilhos mais vitais da Poesia Portuguesa.” O Professor da Universidade de Aveiro chegou mesmo a ler alguns excertos da obra vencedora, que adjectivou como magníficos.

“Parece tudo muito simples, sem qualidades, digamos assim, para usarmos uma expressão que já faz parte do nosso aparato crítico contemporâneo, mas não é.” O Professor finalizou afirmando que “um homem que manifesta uma relação tão sincera com a Língua Portuguesa só pode ser um verdadeiro poeta. E dizer isto é, para mim, dizer tudo”.


o Outono visto pela janela

na casa onde nasci havia sons e cheiros meus

as pessoas que os tinham emprestavam-mos à memória

e eu incluía-os como amigos íntimos

nesta não tem gente

ou se tem não têm cheiro

nem som porque eu não me lembro

gastei toda a memória nas pessoas antigas

e o espaço para as novas é um t1 que fica muito para além do t

onde eu estou sem visitas

fechado à medida de não deixar entrar

preciso do que já foi como do próximo ar para me lembrar que foi bom

eu já fui bom

agora não sei

mas já fui

juro que fui

e quero gastar as únicas energias a fazer manutenção às memórias

p’ra que nenhuma se perca

era pena

é que até a gente que me fez por dentro como a um cofre já não existe

e quero mantê-los ligados à máquina para sempre

e a máquina sou eu

e para sempre sou eu

anda

aconchega-te no mofo do t1

finge que és de antigamente para te dar os beijinhos de quando era pequenino

cheiras à minha avó

à roupa no estendal

à canção do fim dos bonecos

ao banho que está a ficar frio

ao grito do granizo do dia mais longo em que a casa esteve para cair

tu cheiras e sabes ao dia em que a casa esteve para cair

que foi no mesmo dia em que resistiu

como se estivesse ali desde o início dos tempos

e os tivesse começado para eu os acabar

acabar

acabar

acaba comigo que me falha a lembrança

e restas-me como a folha que esteve para cair

e que só não caiu porque o mundo acabou antes do Outono

in “arranha os céus e chove”, de João Negreiros