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domingo, 22 de março de 2015

a invenção da água

o rio a saber a sabão tem o teu nome e soletra-o quando os peixes morrem
as árvores dão pernas às raízes para darem frutos ao pé de ti
as larvas fizeram um intervalo na fruta podre e rastejaram até à tua beira
e tu caíste por mim dentro           aproximando-me dos bichos e das folhas que agora
[estão como se eu fora
a minha natureza foi feita com o que tinhas a mais
o que te escorreu pelo nariz
pelos ouvidos
pelos poros
fez um mar até mim
e eu nasci afogado porque o teu amor inventou a água
a água és tu
quem se molha tem-te
tenho saudades de mim pequenino
quando estava no que tinhas dentro a perguntar ao mundo que estava para existir se era 
[tão lindo lá fora como era lá dentro
és a mulher
fazes-me
inventaste a água
todos os imundos se lavam por ti
guardas toda a sujidade
entende-la
compreende-la
engoliste as arestas de todos os podres e devolve-los imaculados como se a água que tu
[és nos mostrasse as cores difusas dos oceanos que chorámos por ti
inventaste a água
inventaste a água
não sei nadar
fiz amizade com um peso atado aos pés e navego por ti até ao fundo
inundas-me
acolhes-me
e não respiro
mas sorrio sem saudades do ar que para mim foi mau

poema do livro "o amor és tu" de João Negreiros


terça-feira, 17 de fevereiro de 2015


Poema do livro "o amor és tu" de João Negreiros

domingo, 11 de janeiro de 2015

os olhos de uma luz diferente

lambe o dorso de um cavalo e o dorsal de um triatleta
para perceberes a distância que vai da crina ao suor

toma o corpo do jogador a contar as ripas do banco
e ouve o hálito da prostituta a quem veio o período
para perceberes a distância que vai da tristeza ao purgatório

veste o sono do segurança das horas mortas da morgue
e come a terra do cadáver que acordou vivo
para perceberes a distância que vai do pesadelo à falta de ar

descalça-te e sente entre os dedos a rua pintada a sangue
depois unta-te a mel e viola uma flor
para perceberes a diferença entre o podre que permites e o podre que praticas

apanha um autocarro
caminha lá por dentro até bateres no fundo
e depois volta na chuva do regresso
para perceberes a diferença entre o bicho que morre na jaula e o que bate com os chifres à porta do matadouro

arranha os dias com uma guitarra
e come um pulha ao jantar
para perceberes a diferença entre tocares viola e tornares-te útil

arremessa pedras a uma multidão
e em seguida faz o mesmo contra o mar encapelado
para perceberes a diferença entre a raiva dos homens e a natureza da tolerância

aproxima-te de um forasteiro          aquece-lhe as mãos com as mãos que levas nas luvas
e depois chama-lhe a cor dele com a entoação que damos quando parecemos valentes
para perceberes o tempo que vai do carinho ao cobarde

agarra uma oportunidade e depois inventa outra
para que distingas o oportuno do oportunista

ameaça fazer o bem a um homem mau e promete fazer o mal a um homem bom
para perceberes que a diferença é mínima

dá um nome a uma cor que já existe
e em seguida vê-a pelos olhos de uma luz diferente
para perceberes a diferença entre um charlatão e o Sol

arrebata um coração e trespassa outro
e vai do amor ao assassino

poema do livro "o acaso é um milagre" de João Negreiros


quinta-feira, 1 de janeiro de 2015

O presente

Pega no presente como se nascesses no Natal e não sofras com o que foi… que o que foi está longe como o que só foi agora uma vez.
Pega no presente e envolve-o lasso suficiente para caber quem gostas.
Pega no presente e começa de novo usando tudo para trás como informação tua noutra vida em que eras o mesmo… mas não tão perfeito.
Pega no presente e percebe que é o momento.
Pega no presente e sabe de cor interiormente, sem cábulas, tudo o que te aconteceu porque tudo o que te aconteceu fez sentido, e o sentido foi o que te trouxe até aqui, e aqui é perfeito para dar início a mais um momento áureo.
Pega no presente até ao infinito e perpetua o instante como o especial.
Pega no presente e torna-o tão único como a água e faz dele a pujança inequívoca de estar tão vivo como tudo o que é impressionante.
Pega no presente e pulsa o ritmo cadente de um músculo novo que nasce sem esforço porque se inventa como o vento e as marés.
Pega no presente e faz tudo de novo como se respirasses a coragem.
Pega no presente e acende-o como a luz faz ao escuro.
Pega no presente e mata o medo do teu vocabulário como se só tivesses cheta para um dicionário de bolso.
Pega no presente e faz dele o que virá. E do que foi soubeste ver tudo, gostaste de ver tudo, precisaste de ver tudo.
Pega no presente e sabe que o que se passou foi para te fazer e o que há-de vir há-de ser sempre já.

Texto d' "O Manual da Felicidade" de João Negreiros

quinta-feira, 25 de dezembro de 2014

Jesus além revisitado

Belém azeda como açúcar sem cana
os reis magros estacaram frente à cabana
a estrela perdeu-os e confundiu-se com a Lua
o menino sem presentes mama a verdade nua

e prostrada nas palhinhas
está a esperança que tu tinhas
prostrada nas palhinhas
estão as tuas e as minhas

luziu tanto até ser dia
surge à noite a crença clara
faz-se gente em palha fria
e a esperança ninguém ampara

este Natal não tem ouro
o incenso paira no estrume
à vaca arrancaram o couro
e a Senhora deu luz sem lume

a faca no ventre abriu outro gume

poema do livro "o acaso é um milagre" de João Negreiros

domingo, 21 de dezembro de 2014

a sagrada família

subi a uma rua mais alta de onde não tinha pé
e conheci os mais desconhecidos
abracei-os como irmãos
e eles fizeram de conta que me conheceram
foi a forma que arranjei de conhecer a minha família

poema do livro "o acaso é um milagre" de João Negreiros

quarta-feira, 12 de novembro de 2014

Há espaço para mim no cume



Há espaço para mim no cume

Se escalasses o maior pico da maior montanha serias capaz de parar três metros antes e voltar para o quentinho?
Se fosses à Lua preferias ficar dentro da cápsula espacial a ver desenhos animados ou a jogar paciências sem gravidade?
Se fosses campeão do Mundo preferias ser do Mundo todo ou abdicavas de parte dele só para deixar países de fora da tua excelência?
Se estivesses quase quase, eras capaz de dizer “pronto, pronto”?
Se estivesses quase a chegar eras capaz de dizer “pronto, já chega”?
Se fosses mesmo crente numa coisa serias só crente na intempérie, na borrasca, na adversidade, na procela, no desespero?
Não eras capaz de crer também no céu mais claro a cheirar a terra molhada, no chá para a garganta roufenha, no sorriso e na vitória?
Ganhar é desconfortável? Faz-te comichão? Dá-te vontade de voltar para o quentinho e de não espetar a bandeira no cume mais improvável?
Ganhar abre o problema da habituação. Se começas a ganhar e a vencer, que é a mesma coisa, tornas-te repetitivo e depois não sabes fazer outra coisa. E vais ter menos coisas em comum com quem perde.
Queres um comprimido? Queres um xanax para te acalmar esse punho no ar a brandir vitórias? Queres um cobertor? Um programa de sábado à noite gravado para não pensares mais nisso? Queres um cérebro de um babuíno para não veres mais do que um banana?
Ó pá! Deixa-te de merdas e ganha! Ganha agora, ganha depois, ganha ontem, ganha sempre.
E se perderes… ganha. E se te custar ganha. E se não gostarem de ti ganha. E se gostarem ganha. E se continuarem a gostar ganha. E se te admirarem ganha. E se te desprezarem ganha. E se fores feio ganha pela beleza. E se fores bonito ganha para ficares feio, e a cheirar mal e cheio de inimigos, mas vencedor como aquele que faz o seu destino ao mesmo tempo que faz o resto.
Ganha até que não saibas nada para além disso. Ganha até que não seja ganhar. Ganha até que seja andar, respirar ou outra coisa tão real como estar.
E quando te disserem o que quer que seja tu responderás o que for porque a vitória não tem significado, é apenas aquilo para que te levantas todos os dias.
E se o sucesso for menos interessante e enigmático que o falhanço e a tristeza, tens razão. O sucesso é um sítio simples como tudo o que se percebe… e tu só percebes isto: ganha sempre até que a vitória seja o início.

Texto do livro "O Manual da Felicidade" de João Negreiros

quinta-feira, 6 de novembro de 2014

Amo-te por fim e isto é só o início

Ontem abracei a minha mãe enquanto ela remexia o estrugido para não queimar a cebola e ela disse:
- Deixa-me, filha que agora estou a fazer o jantar.
E eu disse:
- Não tenho fome.
E ela disse:
- Olha que queima.
E eu disse:
- Gosto do cheiro a cebola queimada nos teus braços. Amo-te de cebolada, mãe.
Ontem abracei a minha filha e ela disse que a deixasse em paz.
Deixei-a em paz e esperei em paz por um segundo melhor em que ela quisesse mais e precisasse mais de outro abraço.
Olhei com atenção e o segundo chegou rápido. Abracei-a então com mais carinho ainda e com um abraço que escolhi à medida do corpo que ela trazia na altura.
Eu gosto de dar o que os outros pedem, e querem, e precisam, e sentem, e merecem.
Para a minha filha, para a minha mãe dou o que sinto como sentiria se fosse este o último segundo de a ver.
Se estivesse a ver a minha pela última vez, se estivesse a ver a minha pela última vez dizia:
Gosto de ti para sempre porque um segundo é coisa pouca.
Mas sei que esta não é a última e isso é bom.
Esta vez não é a última mas é como se fosse porque na última posso não ter oportunidade.
Vou amar-te quando não estiveres mas amar-te-ei mais quando estiveres comigo.
Porque não sei como será o fim e porque não quero saber, a partir deste dia, direi o amor a quem amo como faço a mim própria quando gosto muito de mim.
Gostar de quem está perto e é bom para mim é a segunda melhor maneira de ser bom para mim.
A primeira é gostar de mim como um beijo no espelho.
Nunca digo à minha mãe que a amo porque sei que ela sabe, mas como sei que ela gosta de ouvir digo à mesma como se não soubesse.
Nunca digo à minha filha que a amo porque sei que ela sabe, mas como sei que ela gosta de ouvir digo à mesma como se não soubesse.
O amor só se sabe quando se tem a certeza e para se ter a certeza é preciso dizê-lo e repeti-lo muitas vezes até se saber de cor.
O amor só sabe bem quando se sabe de cor.
Decorei isto para ti, mãe… espero que gostes.
Decorei isto para ti, filha… espero que gostes.

Texto do livro "O Manual da Felicidade" de João Negreiros

domingo, 2 de novembro de 2014

a terra da verdade

eu só queria que o mundo fosse de toda a gente
de todos
dos bons
dos maus
e dos outros
gostava que o mundo pertencesse aos vivos
mas que os mortos também o pudessem visitar
não em dias marcados
mas nos dias em que lhes apetecesse aparecer
que o dia de finados é muito curto para lembrar os que foram para a terra da verdade

eu queria que o mundo fosse de toda a gente
de todos
dos belos
dos feios
e dos outros
dos outros que tu só sabes se são se os conheceres bem          até lá adivinhas-lhes a 
[beleza          espreitas-lhes a fealdade

e depois há aqueles que nos poupam o trabalho          são feios à partida ou belos 
[à partida
e aí é muito fácil           
não temos que perder tempo a ouvir o que dizem e a ver o que fazem
são bonitos e pronto
são feios e pronto

e aos bonitos damos tudo
abrimos-lhes a porta da nossa casa
as casas da nossa camisa
e          no fim          casamos com eles
e depois percebemos que já é tarde demais
e que ficaram pançudos
e perderam o cabelo e a moral
se bem que isso é um pormenor
os feios também nos poupam trabalho          mas por outro lado dão-nos muito

e quando os dizemos          dizemos eles porque são todos iguais
quando batemos          batemos neles porque são todos iguais
quando matamos          matamos neles o que é nosso
e eles depois já não voltam
vão para a terra da verdade
e quando nos perguntam se fomos nós          mentimos
e o mundo é de todos          mas tem dias
o mundo é nosso e dos outros também
e é bem melhor ser dono de alguma coisa do que também ser dono de alguma coisa
o também significa que nos deixam estar
que até nem lhes causa qualquer tipo de transtorno o facto de respirarmos
mas o facto de respirar faz-me ficar aflito porque o ar que me inunda as narinas não é 
[meu          é deles
e eles são belos e eu não
e o meu ar é emprestado
e é só por uns dias porque um dia vou ter que o devolver
e a minha vida vai ficar mais rarefeita
e vou ser um asmático no topo de uma montanha com muito frio
com muito sono
e recosto-me
e abraço o boneco de neve que me jurou fidelidade eterna
e adormeço no quente do gelo          e pronto
e agora o mundo tem dias em que posso voltar e fazer uma visita
e todos são bons para mim
e todos dizem que eu não merecia o meu destino          mas o ar está caro
o mundo devia ser de todos          mas a verdade é que foi feito apenas para os que 
[respiram
e só os outros conhecem a verdade
a verdade está e estará sempre na boca de um defunto que nunca esteve para nascer

poema do livro "luto lento" de João Negreiros


quarta-feira, 22 de outubro de 2014

O meu sonho é trabalhar por conta própria

Gostava que o meu trabalho fosse estar com as pessoas que mais gosto, que são as pessoas que me fazem bem. Gostava de trabalhar num escritório e que o meu trabalho fosse fazer nenhum. Era só ficar lá a ser amada. Muito amada. Chegava um e amava-me muito. Chegava outro e amava-me muito. No escritório que tenho houve um corte no pessoal administrativo e estou lá sozinha. Vou ter com o meu chefe e vou dizer-lhe duas. Vou dizer-lhe:
- Vou-me embora, ó boi. Despediste toda a gente, grande boi. Já não tenho amigos à beira da fotocopiadora, nem irmãos junto à máquina de café.
O meu chefe despediu as pessoas que trabalhavam comigo e nem as deixa visitar o emprego antigo. Eu estava tão bem rodeada. Sabia exatamente quem queria a meu lado. Às vezes até passava com eles o fim de semana e as horas extraordinárias e não é que o cabrão os despediu a todos. Vou dizer-lhe mais duas:
 - Quero a demissão, ouviste estúpido? Vou-me embora. Trabalha tu sozinho ou com quem não gostas. Para mim não serve. Para mim tem que ser melhor. Para mim vai ser melhor.
Estou no escritório dele. Vê-se o mar da vista dele e então percebo. Está vazio. O escritório dele está vazio.
 Saio de lá e corro pela empresa. Vou à sala de convívio e ninguém, na arrecadação as esfregonas secaram e as almofadas dos carimbos adormeceram para sempre.
 O sítio onde trabalho não tem chefe nem empregados, nem senhora da limpeza, nem assistentes, nem telefonistas, nem colaboradores, nem menina na receção.
 O sítio onde trabalho está vazio e fui eu que os despedi a todos com a preguiça de lhes pagar o salário que era só dar-lhes os bons dias e sorrir.
 Vou dizer-lhes que voltem já… e como o edifício sou eu, os escritórios sou eu e a menina da recepção sou eu entram agora amigos pelas portas de vidro com a maior das transparências.
 E o meu trabalho é este: viver ao lado de quem escolho.
 Eu escolho quem me faz bem e faz-me bem quem eu escolho porque quem eu escolho tem bom gosto.
 Não vou ter que mandar pintar, nem que mandar limpar, nem que reorganizar a estrutura da empresa.
 É uma empresa familiar porque o meu pai trabalha comigo, é uma empresa familiar porque a minha mãe trabalha comigo… porque os meus primos, os irmãos que quase tive, os amigos que quase foram e as pessoas que me deram os bons dias com esperança trabalham comigo. Trabalham comigo os que quiseram as mesmas paredes, a mesma mobília, as mesmas flores de plástico, os mesmos quadros na parede e a mesma vista. Estão comigo os que me querem e os que queriam algo melhor têm mau gosto.
 É uma empresa familiar. Trabalham comigo o meu pai, a minha mãe, o meu marido e os meus amigos. Os outros trabalham noutras empresas. É um negócio pequenino como uma enorme multinacional e grande como um elefante de plasticina. É uma empresa familiar. Trabalho com o meu pai, a minha mãe, o meu marido e os meus amigos e vai fechar quando eu quiser, quando eu quiser… e eu quero que exista para sempre.
É uma empresa familiar. Sou eu o chefe e tudo o resto. Sou eu o chefe e tudo o resto. 

Texto de "O Manual da Felicidade" de João Negreiros

domingo, 19 de outubro de 2014

Fecha os olhos como quem é sincero

Diz não ao que te faz mal já como se já fosse a hora certa para evitares fazer o que não te faz.
Há uma lista dentro da tua mente que decoraste como fizeste ao teu nome e sempre que alguém te pede algo que não está na lista tu vais lá como quem fecha os olhos e respiras fundo e sabes nesse momento se vale a pena acrescentar.
A verdade é que se não está lá é porque não devia estar.
Tu todos os dias refazes a lista e está sempre actualizada.
A lista do que queres fazer é a importância que dás a ti próprio.
Há pessoas muito boas que amam fazer coisas que te fazem mal.
Não é por te fazerem mal as coisas que te fazem mal que as coisas que te fazem mal são más mas o que te faz mal é mau para ti.
Deixa os outros serem felizes com a sua lista mas não a copies porque és bom aluno e não precisas, porque não entendes a letra e vais escrever a coisa errada e porque fechar os olhos e estares a sós contigo é encontrares-te com a tua pessoa preferida.
Diz não se tiveres um sim para fazer.
Não gastes a tinta a riscar o que está errado.
Gasta antes tinta a fazer certos no que fazes para cumprir com o destino que é o melhor que há porque o destino é a felicidade… só que ainda mais inevitável.

Poema do livro "O Manual da Felicidade" de João Negreiros

sexta-feira, 10 de outubro de 2014

Nova teoria da evolução

Estou a falar contigo e tu não ouves porque és um imbecil. E eu continuo a falar contigo e tu finges que ouves porque és um imbecil. Parei de falar contigo e tu finges que ouviste porque és um imbecil.
Agora é a tua vez: estás a falar comigo e eu não ouço porque sou um imbecil. Continuas a falar comigo e eu finjo que ouço porque sou um imbecil.
Não nos zangamos por isso. Somos amigos e, os amigos, aqueles que são mesmo amigos, não se ouvem porque não se conhecem… e não se conhecem porque a amizade é tão profunda e tão visceral que se sobrepõe a todo e qualquer tipo de discurso, a toda e qualquer tipo de opinião porque a amizade está acima de tudo.
Se um amigo meu for um bandalho não deixa de ser um bandalho por ser meu amigo, mas a meus olhos será sempre o meu bandalho, nunca o dos outros. E tem muito mais valor o meu bandalho, o meu imbecil, do que a melhor e mais caridosa pessoa do mundo, se esta não for minha. O que quer dizer que o que nós temos é bom mesmo que seja mau… e a melhor maneira de mantermos tudo o que nos rodeia realmente bom é não conhecermos nada.
Os meus amigos são uns imbecis mas eu não sei… e por isso não são.
Eu sou um imbecil mas não sei… e por isso não sou.
A minha casa cheira a merda mas eu não sei… e por isso não cheira.
A minha namorada é um bisonte mas eu não lhe dou beijos… e por isso não sei.
O meu pai tem uma amante mas a minha mãe sabe mas, como finge que não sabe, eu também finjo que sei que ela não sabe… e a amante finge que é casada com o meu pai e eu nem sequer tenho que fingir que sou filho dela.
E o meu cão é de raça, só que é feio e está-lhe a cair o pêlo… e os vizinhos dizem que é rafeiro mas eu finjo que é arraçado, até falo com ele em inglês… e ele não percebe mas eu finjo que ele percebe e falo à mesma porque sou um imbecil… e o meu cão também tem que ser porque é meu.
O desconhecimento e a ignorância são as únicas e verdadeiras armas da evolução humana e o truque da socialização é não ouvir ninguém, à excepção da nossa voz interior que é rouca. Assim, através deste sistema de valorização pessoal, poderemos fazer de todas as pessoas que nos rodeiam seres magnânimos e perfeitos. Melhor, no dicionário colocaremos como sinónimo de magnânimo e perfeito todas as pessoas que, na realidade, são acometidas de uma dose industrial de imbecilidade.
Desta forma uma grande percentagem da humanidade poderá vir a ser magnânima e perfeita sem sequer se dar ao trabalho de evoluir ontologicamente, basta que continuem a não ouvir o que todos os outros dizem de forma a conseguirem manter-se na absoluta ignorância, o que será profundamente bom porque a ignorância é o veículo para o verdadeiro desenvolvimento e, através do verdadeiro desenvolvimento, todos nós, num futuro eminentemente próximo, poderemos vir a ser uns idiotas chapados.
Esse tem que ser o objectivo de todos pela simples razão de ser o único, o mais imediato e, diga-se de passagem, o único objectivo realmente exequível.

Poema do livro "luto lento" de João Negreiros

quinta-feira, 25 de setembro de 2014

Plástica

Ontem disseram-me que eu era bonito e eu acreditei porque dava muito trabalho dizer o contrário. Além de que, ao dizer o contrário, poderia obrigar quem o afirmou a realçar-me a fealdade. Então resolvi simplificar as coisas e aceitar o elogio como se de uma verdade absoluta se tratasse. E depois fiquei bonito com aquela plástica na auto-estima… e fiquei tão bonito, tão belo e benemérito que decidi retribuir… e disse a quem me disse que quem me disse também o era… e quem me disse ficou tão contente que me fez desconfiar.
Será que quem me disse disse-me o que me disse para eu lhe dizer a seguir? E fiquei logo mais feio, entortou-se-me o nariz, tornou-se mais amarelo o branco dos olhos… e até um dente que tenho nos fundos amareleceu com a ausência de siso e ficou podre… e eu também.
Então encostei quem me disse contra a parede, literalmente, mas como era um muro reformulo a expressão: e encostei-o contra o muro, literalmente. E quem me disse disse que sim, que era a melhor maneira, que não teríamos que ir a uma clínica.
E foi então que percebi. E passámos três meses a dizermos da beleza um do outro e, no fim, estávamos tão belos, tão cheios, tão redondos com aquela silicone emocional e com a cabeça tão leve que começámos a voar. E demos quatro ou cinco voltas ao mundo sem outros motivos de conversa a não ser de dizermos um ao outro e outro ao um que éramos mesmo muito bonitos.
Mas as pessoas lá de baixo, as pessoas pequeninas, porque eram pessoas de ver ao longe e porque eram pequeninas começaram a lembrar-nos das imperfeições com megafones pendurados nos arranha-céus, como quem lhes lava os vidros mesmo quando não se distinguem da transparência do ar.
E esses lavadores de vidros anões fizeram pairar o nosso voo, e em seguida parar o nosso voo, e agora estávamos feios e a cair de encontro ao chão, e íamos mesmo para morrer mas, de repente, um de nós lembra-se e diz ao outro:
­- Tu tens um bom coração.
E o que ouviu não entendeu como uma análise clínica, mas como uma constatação da bondade de quem voa ao nosso lado. E o de bom coração respondeu:
- Tu tens bom aspecto.
Mas não chegou porque o aspecto nunca chega, às vezes pode parecer que chega mas nunca chega.
E o do bom coração voou de novo e deu mais catorze voltas ao mundo antes de morrer de velho. E o do bom aspecto morreu mesmo ali, quando lhe disseram que o tinha, parou-lhe o coração com o susto porque não era bom.

poema do livro "luto lento" de João Negreiros

domingo, 21 de setembro de 2014

O certo e o errado são uma questão de significado

o ritmo que me falta é o do meu coração
a água que me lava é exactamente a mesma que eu preciso para molhar esta limpeza
o que eu penso está certo e o que eu penso que não está certo devia estar
enganei-me no caminho e conheci pessoas boas
e acertei quando dei o meu coração a quem não o queria
o ritmo que me faz falta é o do meu coração
cuspo a humidade que tinha a mais e penso que o que é bom é só o que eu preciso
o certo e o errado são uma questão de significado
o bom e o mau dependem da edição do livro e da grossura do romance
a minha vida não depende do que eu acho dela e não quero que passe a depender
se depender cai
sou quem me segura          sou o único que me pode segurar
acredito em mim só porque existo           se deixar de acreditar em mim desaparecerei                                                     [pouco a pouco como as imagens quando mentem
há um ritmo          uma cadência neste bocadinho de ar
há um som            uma canção neste bocadinho de ar
se encaixar um som aqui neste bocadinho de ar  vou fazê-lo gritar para mim 
[exactamente como quero ouvir
está prestes acontecer uma coisa linda que só é minha por ser agora
sou um oportunista
aproveito-me de mim e de ti
aproveito-me de mim e é tão bom como eu
aproveito-me e é tão bom
aproveito e é tão bom
é tão bom
é tão bom

Texto de "O Manual da Felicidade" de João Negreiros

sábado, 20 de setembro de 2014

Direito a mãos

Comprei este mundo e o outro e percebi que não existia no outro e que neste só tinha duas mãos.
O dinheiro que perdi fazia-me falta para dormir melhor… não para fazer de penas no travesseiro mas só para dormir sem credores a tocar à campainha no badalo que leva um dos carneiros que contei.
Comprei uma coisa para ser feliz e uma coisa não me deu.
Comprei outra coisa para ser feliz e outra coisa não sou eu.
Durmo bem com pouca coisa porque com muita podia fazer montes e pilhas que cairiam em cima de mim.
Durmo tão bem com o quarto limpo.
Adormeço suave com a casa a cheirar a pouco.
Acordo cedo porque sei que nada embarrará no meu caminho.
Acordo cedo porque não estou presa em casa.
Acordo cedo porque só há coisas simples como pão e fruta para comprar lá fora e cá dentro há espaço para tudo.
Tenho espaço para tudo mas quero só o essencial porque o que é fútil tem a indelicadeza de se esticar ao comprido.
Só se pode ter na vida o que se usa muitas vezes.
O resto é para os outros: os outros também têm direito a mãos.

Poema de "O Manual da Felicidade" de João Negreiros

terça-feira, 16 de setembro de 2014

Quais são as probabilidades?

Quais são as probabilidades de um raio me fulminar? Quais são as probabilidades se eu for para junto de uma árvore e gritar para que ele me queime? E se me cobrir de metal… ou se quiser muito? Será que é por querer muito que as probabilidades aumentam? Se calhar não, se calhar querer muito aumenta as probabilidades de se conseguir absolutamente nada porque o menino que não procura senta-se sempre em cima do ovo da Páscoa e o que procura, à chuva e ao frio, em vez do ovo vai chocar uma gripe.
E cada um tem o que merece, mas será que os que merecem têm? E se têm… o que têm é aquilo que pediram? Se calhar não porque quando pedimos nunca sabemos o que vamos ter e nunca conhecemos o que desejamos pela simples razão de nunca o termos antes. Exemplo, eu tenho fome e depois dores de barriga, eu estou sozinho e depois os que me fazem companhia apontam-me uma arma à nuca, eu tenho frio mas depois fecham-me num forno que me doura a pele e me queima os pêlos.
E o raio nunca cai no mesmo sítio, ou melhor, até pode cair mas quais são as probabilidades? E a sorte toca a todos, ou até pode não tocar a todos mas… quais são as probabilidades?
E pedimos o amor para termos alguém a instalar câmaras ocultas para ver se andamos a comer a mulher da limpeza, e quem anda à chuva molha-se porque estava seco.
E a sorte… acima de tudo imploramos pela sorte de receber aquilo que pedimos para depois não gostarmos e exigirmos antes não ter recebido… para depois querermos de novo e esperarmos que nada tivesse acontecido porque estávamos melhor no início. Mas quando estamos no início sentimo-nos sempre à espera do que nunca vem… e se vem não era bem aquilo porque o génio não paga a luz e a lâmpada está sempre submersa na escuridão… e quais são as probabilidades? Quais as hipóteses de felicidade? E o raio não vem… rai’s parta a minha vida que é esperar o que quero e não preciso, e preciso de esperar mas não quero, e gosto de ti porque tu não, e quando tu gostares vou deixar eu de te querer. E quais são as probabilidades de nos querermos os dois ao mesmo tempo? Quais são as probabilidades do nosso abraço apertado não afrouxar? Quais são as probabilidades de nos amarmos à mesma hora, nos mesmos dias, a cada segundo, como um raio que fulmina uma árvore repetidamente e que, em vez de a destruir, a faz encher-se de frutos? E quais são as probabilidades de não nos mexermos um milímetro para que o trovão nos dê voz e a luz nos encha o espírito?
E quando os dias pequenos e escuros nos trouxerem as pessoas rasteiras e sombrias que nos apontam defeitos como quem come cerejas, desfazendo-nos os brincos que usávamos só por sedução, e quando a tempestade nebulosa e sem faísca nos entorpecer de tédio e olharmos um para o outro para vermos um monstro obeso e cariado que já nem reconhecemos… o que é que vamos fazer aí? É possível continuar?
Quais são as probabilidades… quando o beijo me souber a azedo e o teu corpo me parecer de gelo… e o teu sorriso for tão magoado como o do anjo a quem não deram as asas?
E nessa altura… nessa altura vamos ter vertigens e vai ser difícil, mesmo muito difícil, porque os beijos serão mais curtos e as palavras ditas no meio do temporal serão secas… e vou esperar que sejas outra e tu… que eu não seja. E vamos estar tão desencontrados como o abraço que não queremos dar, como os lábios que resvalam para a bochecha, como o sangue que o coração bombeia por engano para os olhos que estão vermelhos de chorar. E aí tudo nos vai parecer o fim… e vamos querer continuar mas quais são as probabilidades de nos amarmos à chuva e ao frio e ao vento?
Quais são as probabilidades? Diz-me… quais são as probabilidades de um raio nos fulminar agora, aos dois, perpetuando-nos como uma estátua que o não quis ser, como uma dor mais lancinante porque foi procurada, como uma lei mais injusta porque foi feita depois do crime.
E o raio inunda-nos o corpo e os sentidos, e a chuva passa, e a trovoada chega-nos num dia de Verão em que o céu sem nuvens se enche de luz e nos ilumina a pele, e a boca, e os cabelos que voam com a electricidade estática.
E todos diziam que não… e nós também o dizíamos. Quais eram as probabilidades?
Quais eram as probabilidades do raio fulminar os mesmos dois, duas vezes, no mesmo sítio… e nem quisemos… ou até quisemos no início, mas depois não, depois não. Mas quando havíamos desistido e não o queríamos mais chegou um trovão fora de tempo que nos deu a voz das palavras doces… como as cerejas que nos roubaram e que não chegámos a comer, mas cujo sabor vamos sentir num beijo que vai durar até ao fim da morte porque só a vida não chegava.

poema do livro "luto lento" de João Negreiros

domingo, 7 de setembro de 2014

parto

há pessoas que têm medo de dizer o que pensam
há pessoas que têm medo de dizer o que sentem
há pessoas que têm medo de pensar o que dizem
há pessoas que têm medo de sentir e não dizem
há pessoas que têm medo de não dizer o que não sentem
há pessoas que têm medo de falar como quem não diz
beijar como quem não ama
sorrir como quem sofre
nascer como quem chora
fugir como quem regressa
caminhar como quem dorme
chorar como quem sonha
há pessoas que têm medo
tanto medo que não conseguem caminhar
e cada passo que dão só os leva para o mesmo sítio
para o útero da mãe que é quente e confortável e tem um sofá com napperons nas 
[costas que os faz sentir quentinhos    seguros
e aí todos somos o mesmo
aí todos somos um
aí todos somos aquele que ainda não chorou mas que está quase
e quando começar já não se pode voltar para trás
e passamos toda a vida com olhos na nuca a querer voltar para casa
a querer voltar para dentro porque neva lá fora
e lá dentro é tão quentinho
deixem-me entrar
agora
depois é tarde demais
deixem-me ser o antes
quero ser o antes          que seja tarde

poema do livro "a verdade dói e pode estar errada" de João Negreiros

sábado, 6 de setembro de 2014

A beleza está nos pormenores

E a beleza está nos pormenores, e o Homem está nos pormenores, e a esperança está nos pormenores, e a felicidade está nos pormenores porque os pormenores são-no essencialmente… porque os pormenores são como as manchas que separam a borboleta do leopardo… porque os pormenores são o que nus distingue… porque os pormenores são a surpresa da diferença e a simplicidade da segurança e estão em todo o lado, mas não se vêem porque são camaleónicos, esbatem-se nas cores pardas dos lugares comuns e é preciso usar as mãos para os perceber, deixando que nos toquem como um amigo que se achava feio até lhe tocarmos a cara como fazem os cegos.
E agora vamos fazer um exercício: olhem para o vazio e digam o que vêem. Digam, digam tudo, principalmente o que vos parecer insignificante, estúpido, básico, facultativo, irrelevante porque aí estará a verdade, não por ser bela mas por ser… e ser é bem melhor do que… não… espera. Ser é bem melhor do que… não… vou tentar de novo… ser é bem melhor do que… ser é bem melhor do que… não… nem é preciso tanto porque ser é bem melhor.
Se olhares com muita atenção para os olhos de uma pessoa qualquer vais ver o vácuo, mas se olhares com muita atenção para os olhos da Helena, que leva os lábios a cair de rosa e os joanetes apertados, vais ver tudo porque lhe vais sentir os pés e os lábios à distância nesse amar remoto, desconhecido e telecomandado pela capacidade de beijar ao longe com as lentes de contacto de quem toca só para confirmar se aquela pessoa é tão linda como parece. E, neste caso, o que parece é porque o vemos com a determinação da mãe que avalia o recém-nascido em todas as suas reentrâncias só para ver se o menino é perfeitinho.

Poema do livro "luto lento" de João Negreiros

 

sexta-feira, 5 de setembro de 2014

Texto de "O Manual da Felicidade"

Se eu te deixar falar vais dizer o que quero ouvir?
Se eu te der um sítio vais sossegar?
Se eu te der um livro vais fazer-lhe orelhas nas pontas?
Se eu gostar de ti vais gostar de mim?
Respeitar-me?
Aceitar-me?
Perceber-me?

Eu sou especialista em deixar falar, especialista em deixá-los dizer ao que vêm, o que são, o que querem.
Gostava tanto que me levasses a sério.
Porque é que as pessoas não me levam a sério?
Eu gostava de ser séria.
Quando falo brincam comigo e eu não gosto.
Não gosto.
Quero respeitinho.
Silêncio!
Ouviram? Silêncio que estou a falar!!!

Porra… isto agora não correu bem.
Isto do respeitinho não é nada respeitoso.
Ficou o sítio que fiz limpo como o detergente.
Neste silêncio quando falam dizem o que achava que queria ouvir mas… afinal não quero… antes queria outra coisa.
O livro está intacto como a ignorância que nunca mexe no que está quieto.
Respeitas-me?
Aceitas-me?
Percebes-me?
Não sei. Estás assustado.
Tenho saudades tuas a gozar da minha cara e do resto do meu corpo.
Sinto a falta do barulho de quem anda à deriva nos intervalos da procura.
Às vezes o amor disfarça-se de confusão e parece que não funciona mas… funcionava.
Porra! Funcionava! Funcionava tão bem!
Todos se riam de mim… mas riam-se.
Todos gozavam comigo… mas gozavam.
Todos discutiam comigo… mas tinham coragem.
Agora sérios, agora sem prazer, agora bem comportados nem os sei.
Onde estão?
Estou sozinha como os ditadores e não gosto de ser ditador é muito solitário por isso…
Por isso…
Volto agora a ser o louco da aldeia, a senhora que leva revistas para o farrapeiro, o bombo da festa e os confetes pelo ar das bolinhas de cuspe festejam o meu regresso como quem viajou pelo Mundo em busca de aventuras para perceber que estava muito bem no seu reino.
É este o meu reino. O povo é rebelde, a plebe só faz asneiras e os aldeões invadem-me o palácio todos os dias, mas eu… mas eu… mas eu não quero saber e abro-lhes as portas porque tenho espaço.
Há espaço para todos.

Vá lá! Façam barulho!
Vá lá! Façam barulho!
Tinha tantas saudades.

Texto de "O Manual da Felicidade" de João Negreiros