O Noé pára a 4L, sai da 4L, avança
para o Sammy, parece que vai esbofeteá-lo, espancá-lo, deixá-lo feito em dois.
O Sammy pensa o mesmo que o que parece e encolhe-se com os braços a tapar a
cara, fazendo um choro de cotovelos. O Noé chega-se junto dele, agarra-o pelos
antebraços, ergue-o até o homem pequeno ter os pés a dançar num baloiço e
abraça-o. Não o esmaga, não o aperta, não o desfaz, não lhe parte as costelas,
não lhe tira o ar, nada, nada, enrola-o na perfeição e abraça-o… abraça-o não
como um pai faz a um filho, mas como um pai devia fazer a um filho. O Sammy
precisava daquele abraço… quase tão bom como os químicos, aquele abraço
entra-lhe nas veias e repousa-o, quase inventa imagens para lhe entreter a
cabeça, quase lhe acalma a respiração, quase lhe pára os tremores, quase lhe
devolve o equilíbrio, quase lhe repara os nervos e o humor. Aquele abraço…
aquele abraço se fosse numa agulha salvava o mundo todo de si próprio. O Sammy
não adormece mas repousa… e repousar é melhor que dormir porque quando se
repousa está-se mais perto de estar vivo do que quando se dorme. Quando
repousamos sabemos o que nos rodeia e podemos fechar a boca… se quisermos. A
Noémia desce os braços e a Carla vem à porta dar à brisa fresca rara um hálito
a mentol e batom a que aquelas terras nunca se habituarão.
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sábado, 2 de agosto de 2014
sábado, 26 de abril de 2014
Excerto d' "O Sol Morreu Aqui"
"Pedir ajuda a quem não está é a
maneira que o ser humano arranja para adiar ajudar-se a si próprio. Chamar por
alguém que não está é o que se faz quando temos batalhas interiores para
travar."
in "O Sol Morreu Aqui" de João Negreiros
segunda-feira, 21 de abril de 2014
Excerto d' "O Sol Morreu Aqui"
Há pessoas sãs que acreditam em
cada coisa! E há pessoas desvairadas que acreditam em coisas lindas e exactas.
E há pessoas sãs de cabeça e de corpo que não acreditam em nada, nem no ar, nem
nos bichos, nem nos corpos, nem em nada. Todos têm medo da estranha por estar a
começar a deixar de o ser, mas o contrário é a tristeza. É melhor a desgraça ou
a tragédia que a tristeza. Na tristeza não acontece nada. Na desgraça ou na
tragédia ainda a gente se entretém.
A Lúcia filha, que é para todos
Lu, diz juntando-se à festa:
- Se a Dona Noémia não se importa
eu não me importo e se a Vera quer tanto acho que devíamos tratar dos papéis
para termos a Dona Noémia como avó.
E agora está também a Lu senil e a
senilidade em idades tão jovens é a verdade e, por isso, todos se tranquilizam
e entram na festa apesar de só haver chá preto, bolacha Maria, bolacha torrada
e compota a compor tudo aquilo.
Excerto do livro “O Sol Morreu Aqui” vencedor do prémio literário internacional Dias de Melo de 2012.
domingo, 20 de abril de 2014
Excerto d' "O Sol Morreu Aqui"
A casa tem saudades dos que
lá estiveram mas tenta não se lembrar deles. Foi a maneira que arranjou de
evitar um sentimento que desmoronasse. A casa é
muito inteligente. Tenta encolher as arestas onde se possa esconder maldade.
Tenta arredondar bicos de mobília, tenta comer borbotos que piquem em almofadas
fofas, tenta engolir o pó que faça as pessoas tossir impropérios. A casa é muito
inteligente e faz tudo para evitar o destino, o destino é destituído e não quer
saber mas a casa há-de manter-se de pé, lutando por um futuro melhor. Se as
pessoas e os bichos e as plantas que são a vida não evitam a maldade, porque
não hão-de os objectos inanimados tentar a sua sorte? Porque não? Porque não?
Porque não? Porque não? Os colchões em roupa interior vão para as varandas já
secas e apreciam a vista que o pudor permite. A Primavera tosse um líquido
viscoso por todos os orifícios e vê-se morrer e a secar para dar lugar a algo
melhor e mais radiante. As escadas descem-se melhor sem poeiras. Tapetes feitos
de muito tempo conversam pendurados numa corda de estendal e copos de pé que
estão por decoração são lavados com o detergente a tomar as vezes do álcool.
Passarinhos pousam no recheio lá fora e tecem considerações pelo progresso não
ter vindo por aquelas bandas dar conta deles e de tudo o resto. Depois as
almofadas, lençóis, fronhas, colchas e toalhas fazem uma viagem em filas de
cestos até à lavandaria e nela conversam sobre a actualidade. Como passaram a
vida em gavetas, as conversas são curtas e inexistentes. Cheira a lavado. O
cheiro a lavado, para quem é da cidade, pode ser facilmente confundido com
Primavera, natureza, ar puro, felicidade ou algo muito bom para sobremesa.
sábado, 19 de abril de 2014
"O Sol Morreu Aqui" - romance
O romance “O Sol Morreu Aqui”
venceu o prémio literário internacional Dias de Melo de 2012. O júri,
constituído por personalidades de reconhecido mérito literário, foi unânime em
considerar a obra de João Negreiros merecedora do prestigiado galardão, tendo
decidido também apoiar a sua edição. Os membros do júri consideraram que o
romance vencedor será “um marco importante na literatura portuguesa", sendo uma obra de “inegável valor literário
muito superior à maior parte das que se vão publicando em Portugal”. “O
originalíssimo narrador auto reflexivo e subversor da própria narrativa que
controla, embora finja muitas vezes que ela se lhe escapa; o desconcertante
clima surrealista num livro de sabor realista; a lúcida dimensão ética
que assume; a forma como, a partir de várias histórias que correm em
paralelo, acaba por as tornar numa unidade narrativa; a ironia de uma eficácia
rara”; foram algumas das razões apontadas pelo júri, para declarar a
obra como vencedora do concurso.
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