Mostrar mensagens com a etiqueta Grandes poemas para viagens pequenas. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Grandes poemas para viagens pequenas. Mostrar todas as mensagens

segunda-feira, 10 de maio de 2010

grandes poemas para viagens pequenas

Nos Transportes Urbanos de Braga, este mês, pode-se ler:


a beleza

a beleza não me faz bem

mas faz-me falta

a beleza não me faz bem

mas faz-me

a beleza não faz

a beleza não faz bem

a beleza falta-me

a beleza dizima criaturas

dá-lhes a imortalidade de quem não sabe que está a morrer

a beleza mostra-nos o que quase fomos

a beleza ensina-nos a cartilha do fracasso

a beleza mostra-nos o melhor lado para nos deixar com o outro a

[seguir

a beleza não é uma pessoa

a beleza é todas

a beleza não dá nada

a beleza só oferece

a beleza quer-se aos poucos

a beleza ofusca

a beleza está nas reentrâncias de todos os corpos

a beleza está em algumas canções

a beleza está nos ouvidos das canções

a beleza nunca se ri

a beleza é imparcial

a beleza faz-nos chorar mais

a beleza não é para todos

a beleza é só para alguns

a beleza é democrática

a beleza não é coerente

a beleza é relativa

a beleza ou está ou não está

a beleza morre a cada segundo

a beleza nasce sempre

a beleza faz desenhos no vidro embaciado

a beleza dá-se bem com toda a gente

a beleza não quer nada com algumas pessoas

a beleza está em todo o lado

a beleza está a todo o momento

a beleza existe

a beleza

a beleza

a beleza é deitares-te comigo no preciso momento em que eu existo

[para podermos olhar-nos durante o fim do resto dos dias

a beleza faz-me compreender a efemeridade e a falta de inteligência

[do sofrimento

a beleza é simples

a beleza usa os invólucros como pessoas

a beleza permanece no momento em que vai e vem

a beleza é a procura

a beleza é só a procura

a beleza só é a procura

a beleza a sós procuras

a beleza gosta do vento

a beleza não usa cabelo

a beleza foi feita por quem?

a beleza foi descoberta

a beleza impede-me de sentir as mãos no Inverno

não          isso é o frio

a beleza usa-me

a beleza usa-me e eu gosto

a beleza usa-me e eu não gosto

a beleza queria que o mundo fosse de determinada maneira mas o

[mundo teima em ser de determinada maneira

a beleza é a nossa mãe

a beleza é as nossas mães

a beleza usa camisolas de gola alta

a beleza não está na moda

a beleza não está decorada

a beleza?

ninguém a sabe

a beleza ofusca

suga

serve

santa

sina

sede

some

segue

a beleza é o equívoco

a beleza é a maneira que arranjámos de dizer que vale a pena lavar

[os dentes

arranjar as unhas

tomar banho

tratar dos filhos

passar fome

passar a ferro

malhar o ferro

correr com bolhas

lavrar com calos fora dos sulcos

viver dois dias para além do tempo

ir para a cama com o patrão

andar de eléctrico

saltar de um penhasco

seguir um líder

fazer um brinde

criar o gado

rasgar o céu

limpar o soalho

dar um tempo

trabalhar para o Estado

seguir um ideal

fazer um jogo

dar lá um salto

ser funcionário das finanças

arremessar um calhau para longe

puxar os cabelos a um pulha

comer a sopa

ir por um atalho

conhecer o príncipe

ir àquele concerto

calhar bem

sentir o cheiro do outro

calhar mal

casar por dinheiro

merecer a prenda

levar a melhor

subir na vida

lavar escadas

o toiro pelos cornos

a pata na poça

o brilho da manhã

e começar de novo

a beleza é começar de novo

a beleza é começar de novo

a beleza é começar de novo


in "a verdade dói e pode estar errada", de João Negreiros

sábado, 6 de fevereiro de 2010

grandes poemas para viagens pequenas

Nos Transportes Urbanos de Braga, este mês, pode-se ler:


o nadador


foi visto um burocrata morto por não saber nadar

a boiar de bruços com a cabeça enterrada na água

a exercitar as guelras do ar podre que lhe construiu as palavras sinceras com

[que enganou quem conheceu ao longe          da janela do avião

e          de longe          acenou a todos os que conhecia levando na mão a mala

[que tinha as esperanças que todos tinham em si

bóia um ladrão morto e o estilo é pouco ortodoxo

não mexe braços nem pernas

não respira nem ergue a cabeça

não faz rotações de tronco

não se mexe nem um milímetro

foi já ultrapassado por todos os concorrentes

e a água vai ficando escura da tinta que vai na mala          onde se escreveram

[os nomes dos que lhe confiaram as vidas

na pista sete bóia um burocrata rico que fugiu com a esperança

e ninguém se atreve a resgatá-lo

é que dá medo de olhar

dá medo de saber a expressão que levava quando percebeu que não ia ganhar

todos os nadadores já saíram da água

todos os nadadores já secaram o cabelo

todos os nadadores já receberam as medalhas

todos os nadadores já vestiram os fatinhos-de-treino

todos os nadadores já choraram a bandeira

e um chorou ranho também com o hino

ele continua lá

a piscina vai fechar

as luzes apagaram-se

e o da pista sete não tem direito a medalha

nem pode ir às olimpíadas porque já ninguém confia nele

nem sequer para conseguir os mínimos

a pista sete está a transbordar com as palavras que lhe disseram os amigos

[que ele iludiu para depois desiludir

e foi o dono de um molhe delas

um dos donos dos molhos de palavras que lhe fez a folha

que lhe levou o ar emprestado para compensar o papel

foi um deles que lhe deu as mais exigentes aulas de natação

aquelas em que é impossível levantar a cabeça e em que temos que nadar

[sempre submersos até bater com a cabeça desesperada na parede que sabe a [cloro

o burocrata bóia morto e quem o fez perder a prova foi um nome na pasta

há um nome a vermelho na pasta que está a esbater-se no mesmíssimo

[momento da culpa

o melhor amigo matou-o

o que lhe fez mais festas

o que lhe gabou mais as notas dos filhos

o que mais lhe respeitou a esposa

o que mais brindes lhe fez em delicados reveillons

o melhor amigo matou-o

o melhor amigo matou-o

foi o único que não aguentou perdê-lo

percebê-lo

conhecê-lo

era o único que não sabia

era o único que estava quase a meter os papéis para se promover a irmão

o melhor amigo matou-o porque a maior tristeza só nos pode ser dada por

[quem amamos mais          e mais          e mais          neste infinito que termina [desafiando a lógica que nos disseram os livros e os filmes de domingo à tarde [que vemos amparando meninos

o burocrata bóia morto e está na boca do mundo defunto porque levou para

[longe          numa pasta          as boas acções que se trocam agora por brinquedos [que só dão aos filhos dos pobres

o burocrata bóia morto e afoga o melhor dos amigos

in a verdade dói e pode estar errada, de João Negreiros

terça-feira, 10 de novembro de 2009

grandes poemas para viagens pequenas

Nos Transportes Urbanos de Braga, este mês, pode-se ler:




o amoral da história

o suor do lavrador faz brotar semente
a semente do lavrador faz brotar suor
na goma da camisa está a importância da cerimónia
na graça da criança está a desculpa para o adulto
a raiva acumulada dá o álibi ao pretexto
perder a razão é comum em momentos de crise
saber estar é circunstancial
viver bem despoleta invejas
voltemos atrás vivamos mal ou finjamos viver mal
estar fora da realidade é a solução para quando a realidade não serve
o que nos serve de lição pode ficar curto nas mangas a outro
um companheiro deve ser um amigo ou pelo menos não ser um inimigo
a verdade é a nossa
ao longo da vida existem momentos em que escolhemos e outros que escolhem para nós
criar é um privilégio
criar é um dever
criar é uma obrigação
criar é
criar pode ser
criar às vezes não é uma característica
dar mérito a quem não o tem é perigoso
dar mérito a quem o tem é difícil
saber o nosso lugar é uma fonte de consumições
não ter lugar pode ser a liberdade
não ter onde ficar é desconfortável
viver na escuridão faz mal aos olhos
olhar para o sol directamente também
roubar é errado
roubar está errado
a gravidade de um roubo depende do que roubamos
de a quem roubamos
de quando roubamos
de como roubamos
de porque roubamos
de se hesitamos antes e se dormimos bem depois
da falta que faz o que foi roubado a quem foi roubado
e da falta que vai fazer a quem rouba
a circunstância de passar a fazer parte do conjunto de pessoas que já roubaram poderá ser também factor de adversidade ou não
a inteligência não anda de mãos dadas com o sucesso para não cair
todos temos um objectivo
uns sabem-no
outros não
há gente que descobre quando já é tarde demais
há gente que sabe que já é tarde demais quando descobre
há gente que sabe mas que não quer descobrir
e há gente que descobre mas que não quer saber
levar um dia de cada vez pode criar-nos dificuldades em fazer planos para o fim-de-semana
estar sempre de pé atrás pode obrigar-nos a coxear
se formos cruéis para os nossos semelhantes os nossos semelhantes serão iguais
se tivermos vergonha das nossas origens vamos ter menos anos de vida
a comunicação é muito importante
falar é importante
falar é mais importante do que falar alto
falar é mais importante do que falar baixo
tocar é muito mais importante do que falar
correr sem sentido às vezes é tão útil como saber para onde se corre sempre
começar bem um projecto ou viagem é melhor que um mau começo mas quase tudo está acometido de reversibilidade
e quase nada está acometido de irreversibilidade
estar atento ao que se passa é muito útil mas pode dar-nos demasiada consciência da nossa impotência
estar apenas atento faz-nos
amorfos
apolíticos
amorais
amáveis
o estado de atenção deverá ser alimentado por uma constante e genuína vontade de intervir
essa vontade de intervir deverá ser secundada pela intervenção em si
quem quiser viver mais tempo deve evitar confusões
quem quiser viver deve meter-se nelas
fazer o que nos mandam é mau
fazer o que nos pedem pode ser bom
quem só manda é mau
quem só pede quer ser mas não consegue
os desafios servem para falhar
os desafios servem para conseguir
a coragem mede-se com uma régua imaginária que só existe quando o coração bate forte
a boca fica seca e sentimos o desmaio eminente
os heróis são homens
as guerras servem para vender armas a santos
a simplicidade é difícil de atingir só porque ninguém é simples
ninguém quer ser simples
as crianças fazem de conta que não sabem para que os pais se sintam melhor
para que os pais sintam melhor
para que os pais se sintam melhores
os significados são exclusivos de quem os compreende
as relações entre pessoas são a causa principal de grande parte das coisas boas
as relações entre pessoas são a causa principal de grande parte das coisas más
o amor não é uma invenção
se o amor fosse uma invenção funcionava
as histórias não deveriam ter moral
as histórias deveriam ter mensagem
esta história não é uma história
o fim obriga-nos sempre a parar

in "a verdade dói e pode estar errada", de João Negreiros


segunda-feira, 5 de outubro de 2009

Grandes poemas para viagens pequenas

Nos Transportes Urbanos de Braga, este mês, pode-se ler :



sexta-feira, 18 de setembro de 2009

Grandes poemas para viagens pequenas

Nos Transportes Urbanos de Braga, este mês, pode-se ler:


Não vale a idade

embala-me como se não me quisesses tirar da prateleira
deste-me um prazo          sem validade para não ter que esperar
e quando me acharam feio          foste tu quem foi provar
que estava enganado          por me achar podre por dentro

sabia que a fruta que te adoça a boca não podia ser ruim
que as ameixas que te sujam a roupa não podiam ser assim
se elas fossem mesmo más não estariam junto a mim
quando o meu lindo és tu
e se caio?
e se seco?
e se quebro antes do fim?

esta espera que é para já
mata-me por ser agora
esta vida de tão curta
sabe sempre a uma demora



in "o cheiro da sombra das flores", de João Negreiros


segunda-feira, 13 de julho de 2009

grandes poemas para viagens pequenas

Nos Transportes Urbanos de Braga, este mês, pode-se ler :


tu messias mais


se ninguém te quiser ouvir grita

escala um arranha-céus e diz tudo

até que as entranhas se esvaiam em acordeões

até que sejas impossível de ignorar

e se te baterem bate a mais portas

e se te baterem mais usa a testa como aríete e entra-lhes nos pensamentos

tu sabes que tens razão

tu tens sempre razão

tu vais salvar toda a gente de si própria

tu sabes o segredo que lhes vai mudar as vidas

tu és o sopro que lhes falta quando assobiam

o som da trombeta

o guizo do chapéu

o rasgo do papel

o mago da magia

o marco do correio

o pico do cume

a água do dromedário

tu vieste para ajudar

tu só queres ajudar

então porque não te deixam?

porque não te sopram carinho ao ouvido e te chamam nomes feios que tu sabes não serem da tua família nem da afastada

a sociedade também foi feita para ti

um bocadinho foi

um buraquinho foi

porque não te deixam entrar lá?

porque não te deixam estar lá?

querem-te à chuva e ao frio

sem amigos

sem calor

sem pão

sem sal

não te dão nem um naco da tua própria carne

nem a luz do teu quarto

nem o silêncio da tua mente

e tu aceitas?

e tu ficas-te?

e tu não protestas?

seu banana

seu falhado

seu funcionário sem sindicato

sua mulherzinha que nunca votou

sua criancinha que limpa o prato

seu homossexual não assumido

seu cão sem pulgas

seu cabrão sem cornos

seu tronco sem pau

seu pau mandado

seu arado sem terra

seu dinossauro radioactivo sem cidade japonesa

seu lamparina sem petróleo que foi inundar uma gaivota

seu cabeça sem capacho

seu diamante

seu bruto

seu papa-açorda

seu caramelo

seu lambe-cus

seu

seu

seu

seu és tu

seu és tu ouviste

seu é contigo

seu é para ti acorda

já é noite

já foi dia

amanhã vai ser tudo isso outra vez e tu estás ao relento

não tens onde ficar

não tens lugar na terra e ninguém to vai dar se não esgravatares

procura

pede

come

ataca

implora

arrasta-te

resvala

escorrega

assusta-os

ignora-os

tu sabes que tens razão

e a tua razão é respirar

se respiras tens direito à vida

se tens direito à vida tens direito a chorar

se tens direito a chorar tens direito a voz

se tens direito a voz tens direito a que te ouçam

se tens direito a que te ouçam tens direito a dizer algo que lhes mude as vidas

se tens direito a dizer algo a que lhes mude as vidas tens direito a mudar também a tua

não peças respeito

nasce respeitado

não implores por dignidade

apregoa a dignificação do Homem

não mendigues comida

acaba com a fome

não protejas os teus filhos

protege todos os filhos

não procures uma religião

faz o que um Deus bom faria

não ouças tudo o que te dizem

ouve todos os que falam

tens direito ao teu canto

e o teu canto é o de mudar tudo

tu podes mudar tudo

tu deves mudar tudo

tu sabes mudar tudo

repara nas pessoas e muda-as para melhor se elas quiserem

aproveita para ires melhorando também

dá-te como se fosses de borla

não peças nada em troca mas dá com um sorriso mais rasgado a quem te der um beijo no fim

não tenhas medo que te interpretem mal

aliás não tenhas medo que te interpretem

aliás não tenhas medo

guarda o melhor para os outros e o pior para ti

mas não sejas cruel contigo que és o único que tens

tens que ter noção do teu papel

e o teu papel é duro como se embrulhasse pregos ou cacos que não queremos nas mãos do senhor da recolha nem nos dentes do gato vadio

o que tu vais fazer agora porque é o único tempo que te pertence é mudar

mudar até que nada fica igual

até que esteja mesmo do agrado de todos

mas se por acaso no meio do teu percurso de conflito e mudança

no meio da tua jornada de luta pelo bem encontrares algo de profundamente belo

não lhe mexas

não lhe toques

pega numa cadeira de praia monta-a e senta-te calmamente a apreciar



João Negreiros,
in "a verdade dói e pode estar errada"