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segunda-feira, 7 de julho de 2014

Dose da fatia de um doce

Dá-me um bocadinho do teu amor          todos os dias
Não mo dês todo hoje            que amanhã vou precisar dele outra vez
eu sei            conheço-me bem
e nesse aspecto            sou exactamente como o resto da humanidade
preciso de ser amado todos os dias
só espero não morrer muito velhinho                        para que o teu amor me dure até ao fim da vida


poema do livro "o cheiro da sombra das flores" de João Negreiros

domingo, 6 de julho de 2014

O que a humanidade precisa

Na luta diária de me compreender faço grandes esforços para não me levar a mal a crueldade de me achar pior que o resto da população mundial           que é uma horda de imbecis

que ainda assim          de uma forma ou outra            são melhores que eu       muito melhores que eu

até eu que sou eu          sou melhor que eu
por isso é fácil perceber a peçonha que a minha identidade encerra
eu sou o pior ser           o que quase não foi
devia competir com outras espécies numa prova físico-atlético-emocional             para ser humilhado por uma barata      uma tainha      uma amiba

sim          porque até um ser unicelular tem uma célula melhor que qualquer uma das minhas
que sou a vergonha da cara de todos os mal encarados           os que se envergonham por minha causa

e quando cantam sozinhos à noite porque o rádio avariou é por minha causa
e  quando a mãe lhes nega o leite porque secou junto com as lágrimas é por minha causa
e quando não podem falar porque deixaram que alguém dissesse que não tinham voz é por minha causa

e quando se espancam                       para depois se arrependerem                        e se espancarem de novo           e se arrependerem de novo          e se espancarem de novo        e se arrependerem de novo         e se espancarem de velho              e se arrependerem de velho          e espancarem um morto        e por aí fora
é por minha causa
é por minha causa
quando lhe falta causa é por minha causa
e se lhes pergunto porquê só sabem duas respostas
porque sim           e matam-me a sangue frio
e porque não            e matam-me a sangue frio
que as injecções letais ficam para quem se porta bem e não faz perguntas
mas eu pergunto
pergunto apesar de saber
mas quero ouvir-lhes a voz
quero conhecer a cara do meu assassino antes de morrer
como o cego que apalpa o rosto de um mudo para o poder ouvir
quero beijar-lhe a boca e dizer que o amo          para que algum do fel adoce
talvez lhe lembre um namorado antigo que se vestiu de espanhola pelo Carnaval
talvez lhe lembre a casa dos avós
os pombos na praça
talvez o quebre um pouco
talvez o afrouxe
o que a humanidade precisa é disso          é de afrouxar um pouco
e acima de tudo           de me tratar melhor
de me ajudar a atravessar a rua
de me dar canja quando estou doente
e de me deixar fazê-la quando estiver bom
o que todas as pessoas necessitam urgentemente é de me tratar com carinho
e como eu sou qualquer um de vocês
como eu sou o homem           a mulher           a criança          e o velho

todos nós        e todos vocês              vamos ser            felizes

poema do livro "o cheiro da sombra das flores" de João Negreiros


terça-feira, 1 de julho de 2014

O calendário da barbearia

Um dia vou fazer a cama todos os dias
só não sei como vou meter todos os dias dentro de um dia só
talvez no Verão
quando os dias forem maiores
eles verão quando os dias forem melhores
que vai estar fofa e a cheirar bem
e até a fronha de que ninguém gosta vai ter a pele macia
como o rabo de um velhinho que não arrancou os meses do calendário      porque fazia colecção
e porque a folha que vinha antes do Outono trazia uma menina nua que ele queria para si
só gostava daquela
não queria uma data delas
queria a que estava naquela folha
despida e em top less
ela nova e antiga
ele velho e sedoso

naquele dia longo que nunca vai acabar
porque o sol nunca se põe
            o sol nunca se põe
            está feito com eles

poema do livro "o cheiro da sombra das flores" de João Negreiros

terça-feira, 24 de junho de 2014

O copista de uma palavra só

Às vezes quero-te nas entrelinhas
não me ouças a voz
nem me sigas os gestos
para não ser subtil vou fazer um rodapé néon que diz

amo-te

e vou caminhar sobre ele           para sentir os passos mais seguros
depois doarei meu corpo à caridade    
e serei apenas o que interessa

o pombo que voa pela mensagem
o índio agarrado à vida por uma máquina de sinais de fumo
a legenda de um filme búlgaro          que se apanhou a meio           e que ninguém traduziu
mas no fim           quando as luzes se acendem


não percebi nada           mas acho que ele a amava


poema do livro "o cheiro da sombra das flores"


sexta-feira, 13 de junho de 2014

Razão de gueixa

Dorme bem
melhor
dorme melhor
no ninho
só?         não
soninho
cama
ama
e o menino?
deixas ser o teu menino?
ó deixa
óó
óó
óó deixa
é a tua deixa
gueixa


poema do livro "o cheiro da sombra das flores" de João Negreiros


terça-feira, 10 de junho de 2014

O emprego das palavras

gosto de trabalhar
faz bem
a mim e aos outros           que também trabalham            até que se apaixonam

as pessoas gostam de paixão no trabalho
pena que não trabalhem com paixão


mal empregado amor


poema do livro "o cheiro da sombra das flores" de João Negreiros

domingo, 2 de maio de 2010

A mãe


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A mãe
Quando crescer quero ser a mãe
só p’ra ser a minha
e me dar carinho sem ter que mo pedir
quero morrer p’ra ser a mãe de alguém
mas com as mãos          a voz         e o cheiro          da minha
mãe
és a minha mãe
antes não fosses
antes fosses a mãe de todos
p’ra que todos fossem felizes
se fosses a mãe do mundo o mundo era melhor
e eu não existia
mas acredita que não me importava
porque haveria de viver no som dos teus beijos
no fresco da tua mão contra a testa febril
no olhar que encontra o brinquedo
na luz que me apaga o medo
haveria de viver no teu coração como um filho que não nasceu
e que morre todos os dias          para provar que sempre te amou

in "o cheiro da sombra das flores"