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domingo, 22 de março de 2015

a invenção da água

o rio a saber a sabão tem o teu nome e soletra-o quando os peixes morrem
as árvores dão pernas às raízes para darem frutos ao pé de ti
as larvas fizeram um intervalo na fruta podre e rastejaram até à tua beira
e tu caíste por mim dentro           aproximando-me dos bichos e das folhas que agora
[estão como se eu fora
a minha natureza foi feita com o que tinhas a mais
o que te escorreu pelo nariz
pelos ouvidos
pelos poros
fez um mar até mim
e eu nasci afogado porque o teu amor inventou a água
a água és tu
quem se molha tem-te
tenho saudades de mim pequenino
quando estava no que tinhas dentro a perguntar ao mundo que estava para existir se era 
[tão lindo lá fora como era lá dentro
és a mulher
fazes-me
inventaste a água
todos os imundos se lavam por ti
guardas toda a sujidade
entende-la
compreende-la
engoliste as arestas de todos os podres e devolve-los imaculados como se a água que tu
[és nos mostrasse as cores difusas dos oceanos que chorámos por ti
inventaste a água
inventaste a água
não sei nadar
fiz amizade com um peso atado aos pés e navego por ti até ao fundo
inundas-me
acolhes-me
e não respiro
mas sorrio sem saudades do ar que para mim foi mau

poema do livro "o amor és tu" de João Negreiros


terça-feira, 17 de fevereiro de 2015


Poema do livro "o amor és tu" de João Negreiros

sexta-feira, 19 de setembro de 2014

quarta-feira, 30 de maio de 2012

"amor ao Verão"



amor ao Verão

dá-me um xi-coração dos pequeninos para ninguém desconfiar que este castelo não vai aguentar muito tempo

vamos fazer um lago à beira-mar           com as mãos           para que as ondas da terceira idade venham descansar nas nossas bolachas de água e sal

a água morre por entre os dedos

arrasto-te pelos pés

os teus cabelos fazem inveja às algas

quando chegares a casa vais tomar banho outra vez

desta vez a sério

aconchega uma concha de colar           por mim           por recordação

mas se te esqueceres dela aqui não tem mal

fico cá para amanhã a contar os minutos por um relógio de lua que inventei para passar melhor a noite 

Poema do livro "o amor és tu" de João Negreiros

terça-feira, 8 de maio de 2012

"o tempo és tu a passar" de João Negreiros



o tempo és tu a passar


semanas passam como tu
a espera conta-se pelos dedos dos palmos que te vão dar

há arranha-céus que esgravataram a terra para interceder por mim
e tu nem assim foste ao túnel comigo

comi a fruta mais áspera
contraí um cancro com seu caroço para que fosses sã
e tu lambeste toda a sobremesa como se eu não tivesse direito ao que sobrou da solidão

semanas passam como tu
não dás fé do meu rosário e          no fascínio que por mim vai           chapinhaste um espelho de poças
podiam ser uma interjeição mas em vez disso são água

sou o espelho turvo que te dá em troca
perdeste a importância do amor-próprio por não perceberes que só somos o que os outros amam

semanas passam como tu
o tempo és tu a passar

Poema do livro "o amor és tu" de João Negreiros, 
à venda em livrarias e em http://www.saidadeemergencia.com

segunda-feira, 9 de abril de 2012

"redondo como um quase perfeito" - poema musicado



redondo como um quase perfeito


trocar tudo por ti
como se te pertencesse
trocava tudo por ti
o que tenho e o que viesse

dava-me sem o pudor da vergonha
roía-me a pele para te tricotar um baile
dava-te tudo       ficava com a peçonha
e o que tenho de bom podias usar num xaile

leva-me os dedos do pianista
e as mãos da construção civil
rouba-me do cabelo a crista
e           já que João           leva-me o til

sem te ver fico bruto e fero
partes levando-me carne sincera
as virtudes sozinho são o que não quero
tenho uma sala só para a tua espera

e se não te vir nunca mais
nunca mais a mim me vejo
sou pequeno e nem chego aos pedais
mas escalo por ti para um beijo

cego orado como monge
dei-te pernas que levaste a correr
braços meus treparam-te o alto que é longe
e esqueci como se ia aí ter

mas fica-me a dor
a dor mantém-me vivo
é que morrer só de amor
não é bem um castigo

e podia terminar redondo
mas o melhor é o que escondo
ainda trago um gole de saliva
e palavras rudes como expectativa

resta o que nunca se espera
sem saber deste-me a paixão
o carinho verte-me da mão
e vale mais que a carne sincera

e é soro que me alimenta os dias
e sou belo           belo           belo           só com o que tu não querias

magnífico como só o enjeitado
perfeito como o que sobrava
o pasto ama mesmo o gado
porque lhe lambe a erva brava


Poema do livro "o amor és tu" de João Negreiros, 
à venda em livrarias e em http://www.saidadeemergencia.com

segunda-feira, 2 de abril de 2012

"sabes" - poema musicado




sabes


sabes a dor       não tens sabor
sabes à mão      não tens coração
sabes o amor
não tens calor?
sabes a sal mas não tem mal
sabes as cores sem teres louvores
sabes o tempo certo mas nunca estás perto
sabes       as árvores tremem por ti
                como a chuva quando ri
sabes       os mastros que quebram no mar
                é na pressa de chegar
sabes       o gozo que com ti tenho
                é o meu único empenho
sabes       parou ontem o meu corpo
                foste o último sopro

Poema do livro "o amor és tu", de João Negreiros, 
à venda em livrarias e em http://www.saidadeemergencia.com

sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

o cão do atrelado - musicado



Amostra do espectáculo de lançamento do livro "o amor és tu" no dia 11 de Fevereiro, às 22h, na Fnac do Norteshopping.

o cão do atrelado

sou teu cachorrinho
com língua a pedir água
falta-me o carinho
e então lambo a mágoa

dou-te a patinha
e o resto de mim
a dor afocinha
o uivo é assim

e vivo esquecido
a lembrar a dona
é este o gemido
da água sem tona

no deserto de treva
deixaste teu cão
mas brinco na relva
do teu coração

Poema do livro "o amor és tu", de João Negreiros, à venda em livrarias e em http://www.saidadeemergencia.com

terça-feira, 17 de janeiro de 2012

o doce da serrilha


Pequeno vídeo para celebrar o lançamento d`"O amor és tu" com um dos poemas de amor que integram o livro.

o doce da serrilha

ceguei a pensar em ti

e foste a última imagem que tive

nadavas como o nenúfar que bóia como quem respira

e atiraste-me as palavras que ainda guardo como único cofre

sei como eras e não sei se chegaste a ser o que querias

mas inventaste para sempre       para mim       o de hoje

à deriva tens os segredos todos

e debaixo de ti afogam-se os males

o teu corpo sabe os recônditos das curvas íngremes

e se fosses viva estudavam-te arquitectos para que pudessem dar a seus edifícios os contornos que a natureza escolherá quando fizer filhos num andaime

a água continua quando acabas

e alongas-te líquida como se soubesses contar pelos dedos o doce que lambes da serrilha da faca

Poema do livro "o amor és tu", de João Negreiros, à venda em livrarias e em http://www.saidadeemergencia.com