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terça-feira, 29 de dezembro de 2015
domingo, 11 de janeiro de 2015
os olhos de uma luz diferente
lambe o dorso de um cavalo e
o dorsal de um triatleta
para perceberes a distância
que vai da crina ao suor
toma o corpo do jogador a
contar as ripas do banco
e ouve o hálito da
prostituta a quem veio o período
para perceberes a distância
que vai da tristeza ao purgatório
veste o sono do segurança
das horas mortas da morgue
e come a terra do cadáver
que acordou vivo
para perceberes a distância
que vai do pesadelo à falta de ar
descalça-te e sente entre os
dedos a rua pintada a sangue
depois unta-te a mel e viola
uma flor
para perceberes a diferença
entre o podre que permites e o podre que praticas
apanha um autocarro
caminha lá por dentro até
bateres no fundo
e depois volta na chuva do
regresso
para perceberes a diferença
entre o bicho que morre na jaula e o que bate com os chifres
à porta do matadouro
arranha os dias com uma
guitarra
e come um pulha ao jantar
para perceberes a diferença
entre tocares viola e tornares-te útil
arremessa pedras a uma
multidão
e em seguida faz o mesmo
contra o mar encapelado
para perceberes a diferença
entre a raiva dos homens e a natureza da tolerância
aproxima-te de um
forasteiro aquece-lhe as mãos
com as mãos que levas nas luvas
e depois chama-lhe a cor
dele com a entoação que damos quando parecemos valentes
para perceberes o tempo que
vai do carinho ao cobarde
agarra uma oportunidade e
depois inventa outra
para que distingas o
oportuno do oportunista
ameaça fazer o bem a um
homem mau e promete fazer o mal a um homem bom
para perceberes que a
diferença é mínima
dá um nome a uma cor que já
existe
e em seguida vê-a pelos
olhos de uma luz diferente
para perceberes a diferença
entre um charlatão e o Sol
arrebata um coração e
trespassa outro
e vai do amor ao assassino
poema do livro "o acaso é um milagre" de João Negreiros
quinta-feira, 25 de dezembro de 2014
Jesus além revisitado
Belém azeda como açúcar sem
cana
os reis magros estacaram
frente à cabana
a estrela perdeu-os e
confundiu-se com a Lua
o menino sem presentes mama
a verdade nua
e prostrada nas palhinhas
está a esperança que tu
tinhas
prostrada nas palhinhas
estão as tuas e as minhas
luziu tanto até ser dia
surge à noite a crença clara
faz-se gente em palha fria
e a esperança ninguém ampara
este Natal não tem ouro
o incenso paira no estrume
à vaca arrancaram o couro
e a Senhora deu luz sem lume
poema do livro "o acaso é um milagre" de João Negreiros
domingo, 21 de dezembro de 2014
a sagrada família
subi a uma rua mais alta de onde não tinha pé
e conheci os mais desconhecidos
abracei-os como irmãos
e eles fizeram de conta que me conheceram
foi a forma que arranjei de conhecer a minha família
poema do livro "o acaso é um milagre" de João Negreiros
terça-feira, 16 de dezembro de 2014
sábado, 29 de novembro de 2014
Novo livro de poesia
É o livro dos pormenores.
É o livro que fala de todas as coisas em que pensamos e que
depois esquecemos.
É o livro dos comportamentos injustos que temos para com
tudo o que nos inspira e desinspira os dias.
É um livro pensado para seres humanos com uma linguagem
quase extraterrestre porque dá ênfase ao
invisível que nos move.
É o livro da esperança e da falta dela.
O livro do amor e da falta dele e, acima de tudo, é a obra que festeja o apogeu da coincidência. O acaso é um milagre porque tudo o que acontece é para ser
celebrado.
Livro "o acaso é um milagre" de João Negreiros
quarta-feira, 8 de janeiro de 2014
"dedadas de lábios à janela"
toma o beijo da despedida como vinho do Porto
deixa-me correr ao lado da tua janela pelas águas e pelo ar como se fosses de comboio
e lanço-te os mais ardentes contra o vidro do avião
e o juntar dos lábios só perde pressão e querer com o fim do oxigénio
encosta-te ao vidro
ouve-os como o salmão a quem roubaram a nascente
e dedica-lhes o olhar da angústia
respeita os meus beijos que descolam
e faz um quase choro ciciante e fungado de quem era suposto ficar mais três meses
não te voltes logo para a voz do capitão
deixa o carrinho das sandes bolorentas
não ouças as instruções porque a emergência é agora
mais tarde vais ter memórias e vais querer mais esta para juntar
chora pelos meus beijos pára-quedistas kamikazes que soletram o teu nome à falta de ar
e pede à senhora do lado que faça um minuto de silêncio a cada intervalo do pânico
é que não sei se sabes mas os beijos que deram tanto e que se esforçaram tanto não são reutilizáveis
mesmo que os resgate cá em baixo das mãos dos telhados à volta dos aviões não posso fazer nada com eles
os beijos são inúteis como eu
os meus lábios desperdiçam-se por ti
o meu resto já o havia feito
boa viagem
espero que tenhas ficado do lado da janela
do livro "o acaso é um milagre" de João Negreiros
deixa-me correr ao lado da tua janela pelas águas e pelo ar como se fosses de comboio
e lanço-te os mais ardentes contra o vidro do avião
e o juntar dos lábios só perde pressão e querer com o fim do oxigénio
encosta-te ao vidro
ouve-os como o salmão a quem roubaram a nascente
e dedica-lhes o olhar da angústia
respeita os meus beijos que descolam
e faz um quase choro ciciante e fungado de quem era suposto ficar mais três meses
não te voltes logo para a voz do capitão
deixa o carrinho das sandes bolorentas
não ouças as instruções porque a emergência é agora
mais tarde vais ter memórias e vais querer mais esta para juntar
chora pelos meus beijos pára-quedistas kamikazes que soletram o teu nome à falta de ar
e pede à senhora do lado que faça um minuto de silêncio a cada intervalo do pânico
é que não sei se sabes mas os beijos que deram tanto e que se esforçaram tanto não são reutilizáveis
mesmo que os resgate cá em baixo das mãos dos telhados à volta dos aviões não posso fazer nada com eles
os beijos são inúteis como eu
os meus lábios desperdiçam-se por ti
o meu resto já o havia feito
boa viagem
espero que tenhas ficado do lado da janela
do livro "o acaso é um milagre" de João Negreiros
quarta-feira, 4 de julho de 2012
a família
Poema inédito de João Negreiros.
Realização - Tiago Ferreira Marques; Interpretação - Cátia Cunha e Silva
Co-produção de Teatro Universitário do Minho e Bolor Teatro
a família
amamos
os pais mais quando morrem
amamos
os pais mais porque foram o que nós repetimos um pouco
amamos
os pais mais na fuga para a frente
os
pais são-no na retaguarda
o
pai que se substitui ao filho é um filho
amamos
o tio mais pelo que nunca poderá sentir por nossa mãe
amamos
os irmãos mais pelo que poderíamos ter sido
amamos
um primo mais por não ser o irmão e queríamos que fosse por não ser
amamos
mais os presentes de Natal que pedimos enquanto esperávamos por outros
amamos
mais os anos bons dos álbuns que inventaram para substituir memórias
sou
um cacto da cidade
seco
porque me regam
percebo
os sinais do medo
sou
o que esperavam de mim quando me pedem
dou-lhes
partes complicadas por pudor de me perceberem
acabei
mesmo há duas horas de fritar um panado
também
comi uns ovos
não
fiz arroz nem massa
lambi
o pacote que ia a meio das batatas fritas
estavam
moles
velhas
e
já vinham frias à nascença
a
cozinha cheira mal
não
tomo banho há três dias
vou
dizer que o meu cabelo tem tendência para ser oleoso
há
mais papéis aqui do que era preciso
morreu
um pássaro na varanda
se
não recebesse tanta publicidade a vida seria melhor
acordei
depois do sol porque dormi atrasado
dói-me
tudo
acho
que ainda há chocolates do Natal
fico
contente por este ano não me terem dado dos de licor
odeio
os de licor
quando
era miúdo quase vomitei com um
senti
que tinham inventado um veneno só para mim
mas
depois a minha tia comeu o que sobrou do que quase vomitei e percebi que era mesmo
assim
tenho
uma tempestade para acalmar
a
minha miúda tem medo de trovões e por isso nunca esteve
há
lixo a mais hoje
estão
para chegar
vou
entrar em pânico por cinco minutos e depois descanso
vou
aos sovacos com desodorizante e às partes com perfume
o
bidé está muito frio
o
lavatório é lá longe e chove
a
banheira ia molhar-me todo
vai
ter mesmo de ser assim
chuto
para debaixo da cama tudo até caber
quando
cabe é porque não cabe
abro
as janelas
estava
quase para cegar mas arrependi-me porque não havia luz lá fora
vou
pôr a televisão mais longe da cama para ninguém ver que estou míope
hei-de
morrer sem óculos e com o cabelo todo para adiar o que puder na mente de todos
se
ao menos esta louça fosse de papel
se
ao menos tivesse comido da sertã a escorrer
se
ao menos o bolor do frigorífico fizesse algumas concessões
luto
contra tudo o que tenho contra mim e estou a perder
amamos
os que amamos mais por obrigação
hoje
ficaram de vir
a
casa cheira a mijo
ainda
bem que não consigo ter um cão
vou
vestir a roupa por cima do pijama
se
ao menos o aquecedor estivesse por dentro da roupa
há
um jantar de família à minha espera
devia
descongelar qualquer coisa por caridade mas as pegas são só para o fogão
amo-os
tanto e não sei dar-lhes de comer
não
tenho nada no frigorífico que não os mate num ápice
há
coisas para escorregar por todo o lado
vou
ficar sem família e dar meu corpo para adopção
a
campainha tocou
dispo-me
eles
merecem que me dispa
com
a vontade de chorar não lhes digo que esperem
dispo-me
mais
dispo-me
mais ainda
líquido
no chuveiro
eles
merecem
estou
a morrer com esta chuva
não
há gel de banho
vou
à deriva ao outro lado buscar o sabonete do bidé
volto
eles
merecem
amo-os
porque merecem
tenho
a família à espera
lavo-me
tenho
a família à espera
seco-me
tenho
a família à espera
visto-me
tenho
a família à espera
calço-me
tenho
a família à espera
tenho
a família à espera
tenho
a família à espera
chego
à porta
abro
a porta
fecho
a porta
já não estão
poema do livro "o acaso é um milagre" de João Negreiros
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