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domingo, 2 de novembro de 2014

a terra da verdade

eu só queria que o mundo fosse de toda a gente
de todos
dos bons
dos maus
e dos outros
gostava que o mundo pertencesse aos vivos
mas que os mortos também o pudessem visitar
não em dias marcados
mas nos dias em que lhes apetecesse aparecer
que o dia de finados é muito curto para lembrar os que foram para a terra da verdade

eu queria que o mundo fosse de toda a gente
de todos
dos belos
dos feios
e dos outros
dos outros que tu só sabes se são se os conheceres bem          até lá adivinhas-lhes a 
[beleza          espreitas-lhes a fealdade

e depois há aqueles que nos poupam o trabalho          são feios à partida ou belos 
[à partida
e aí é muito fácil           
não temos que perder tempo a ouvir o que dizem e a ver o que fazem
são bonitos e pronto
são feios e pronto

e aos bonitos damos tudo
abrimos-lhes a porta da nossa casa
as casas da nossa camisa
e          no fim          casamos com eles
e depois percebemos que já é tarde demais
e que ficaram pançudos
e perderam o cabelo e a moral
se bem que isso é um pormenor
os feios também nos poupam trabalho          mas por outro lado dão-nos muito

e quando os dizemos          dizemos eles porque são todos iguais
quando batemos          batemos neles porque são todos iguais
quando matamos          matamos neles o que é nosso
e eles depois já não voltam
vão para a terra da verdade
e quando nos perguntam se fomos nós          mentimos
e o mundo é de todos          mas tem dias
o mundo é nosso e dos outros também
e é bem melhor ser dono de alguma coisa do que também ser dono de alguma coisa
o também significa que nos deixam estar
que até nem lhes causa qualquer tipo de transtorno o facto de respirarmos
mas o facto de respirar faz-me ficar aflito porque o ar que me inunda as narinas não é 
[meu          é deles
e eles são belos e eu não
e o meu ar é emprestado
e é só por uns dias porque um dia vou ter que o devolver
e a minha vida vai ficar mais rarefeita
e vou ser um asmático no topo de uma montanha com muito frio
com muito sono
e recosto-me
e abraço o boneco de neve que me jurou fidelidade eterna
e adormeço no quente do gelo          e pronto
e agora o mundo tem dias em que posso voltar e fazer uma visita
e todos são bons para mim
e todos dizem que eu não merecia o meu destino          mas o ar está caro
o mundo devia ser de todos          mas a verdade é que foi feito apenas para os que 
[respiram
e só os outros conhecem a verdade
a verdade está e estará sempre na boca de um defunto que nunca esteve para nascer

poema do livro "luto lento" de João Negreiros


sexta-feira, 10 de outubro de 2014

Nova teoria da evolução

Estou a falar contigo e tu não ouves porque és um imbecil. E eu continuo a falar contigo e tu finges que ouves porque és um imbecil. Parei de falar contigo e tu finges que ouviste porque és um imbecil.
Agora é a tua vez: estás a falar comigo e eu não ouço porque sou um imbecil. Continuas a falar comigo e eu finjo que ouço porque sou um imbecil.
Não nos zangamos por isso. Somos amigos e, os amigos, aqueles que são mesmo amigos, não se ouvem porque não se conhecem… e não se conhecem porque a amizade é tão profunda e tão visceral que se sobrepõe a todo e qualquer tipo de discurso, a toda e qualquer tipo de opinião porque a amizade está acima de tudo.
Se um amigo meu for um bandalho não deixa de ser um bandalho por ser meu amigo, mas a meus olhos será sempre o meu bandalho, nunca o dos outros. E tem muito mais valor o meu bandalho, o meu imbecil, do que a melhor e mais caridosa pessoa do mundo, se esta não for minha. O que quer dizer que o que nós temos é bom mesmo que seja mau… e a melhor maneira de mantermos tudo o que nos rodeia realmente bom é não conhecermos nada.
Os meus amigos são uns imbecis mas eu não sei… e por isso não são.
Eu sou um imbecil mas não sei… e por isso não sou.
A minha casa cheira a merda mas eu não sei… e por isso não cheira.
A minha namorada é um bisonte mas eu não lhe dou beijos… e por isso não sei.
O meu pai tem uma amante mas a minha mãe sabe mas, como finge que não sabe, eu também finjo que sei que ela não sabe… e a amante finge que é casada com o meu pai e eu nem sequer tenho que fingir que sou filho dela.
E o meu cão é de raça, só que é feio e está-lhe a cair o pêlo… e os vizinhos dizem que é rafeiro mas eu finjo que é arraçado, até falo com ele em inglês… e ele não percebe mas eu finjo que ele percebe e falo à mesma porque sou um imbecil… e o meu cão também tem que ser porque é meu.
O desconhecimento e a ignorância são as únicas e verdadeiras armas da evolução humana e o truque da socialização é não ouvir ninguém, à excepção da nossa voz interior que é rouca. Assim, através deste sistema de valorização pessoal, poderemos fazer de todas as pessoas que nos rodeiam seres magnânimos e perfeitos. Melhor, no dicionário colocaremos como sinónimo de magnânimo e perfeito todas as pessoas que, na realidade, são acometidas de uma dose industrial de imbecilidade.
Desta forma uma grande percentagem da humanidade poderá vir a ser magnânima e perfeita sem sequer se dar ao trabalho de evoluir ontologicamente, basta que continuem a não ouvir o que todos os outros dizem de forma a conseguirem manter-se na absoluta ignorância, o que será profundamente bom porque a ignorância é o veículo para o verdadeiro desenvolvimento e, através do verdadeiro desenvolvimento, todos nós, num futuro eminentemente próximo, poderemos vir a ser uns idiotas chapados.
Esse tem que ser o objectivo de todos pela simples razão de ser o único, o mais imediato e, diga-se de passagem, o único objectivo realmente exequível.

Poema do livro "luto lento" de João Negreiros

quinta-feira, 25 de setembro de 2014

Plástica

Ontem disseram-me que eu era bonito e eu acreditei porque dava muito trabalho dizer o contrário. Além de que, ao dizer o contrário, poderia obrigar quem o afirmou a realçar-me a fealdade. Então resolvi simplificar as coisas e aceitar o elogio como se de uma verdade absoluta se tratasse. E depois fiquei bonito com aquela plástica na auto-estima… e fiquei tão bonito, tão belo e benemérito que decidi retribuir… e disse a quem me disse que quem me disse também o era… e quem me disse ficou tão contente que me fez desconfiar.
Será que quem me disse disse-me o que me disse para eu lhe dizer a seguir? E fiquei logo mais feio, entortou-se-me o nariz, tornou-se mais amarelo o branco dos olhos… e até um dente que tenho nos fundos amareleceu com a ausência de siso e ficou podre… e eu também.
Então encostei quem me disse contra a parede, literalmente, mas como era um muro reformulo a expressão: e encostei-o contra o muro, literalmente. E quem me disse disse que sim, que era a melhor maneira, que não teríamos que ir a uma clínica.
E foi então que percebi. E passámos três meses a dizermos da beleza um do outro e, no fim, estávamos tão belos, tão cheios, tão redondos com aquela silicone emocional e com a cabeça tão leve que começámos a voar. E demos quatro ou cinco voltas ao mundo sem outros motivos de conversa a não ser de dizermos um ao outro e outro ao um que éramos mesmo muito bonitos.
Mas as pessoas lá de baixo, as pessoas pequeninas, porque eram pessoas de ver ao longe e porque eram pequeninas começaram a lembrar-nos das imperfeições com megafones pendurados nos arranha-céus, como quem lhes lava os vidros mesmo quando não se distinguem da transparência do ar.
E esses lavadores de vidros anões fizeram pairar o nosso voo, e em seguida parar o nosso voo, e agora estávamos feios e a cair de encontro ao chão, e íamos mesmo para morrer mas, de repente, um de nós lembra-se e diz ao outro:
­- Tu tens um bom coração.
E o que ouviu não entendeu como uma análise clínica, mas como uma constatação da bondade de quem voa ao nosso lado. E o de bom coração respondeu:
- Tu tens bom aspecto.
Mas não chegou porque o aspecto nunca chega, às vezes pode parecer que chega mas nunca chega.
E o do bom coração voou de novo e deu mais catorze voltas ao mundo antes de morrer de velho. E o do bom aspecto morreu mesmo ali, quando lhe disseram que o tinha, parou-lhe o coração com o susto porque não era bom.

poema do livro "luto lento" de João Negreiros

terça-feira, 16 de setembro de 2014

Quais são as probabilidades?

Quais são as probabilidades de um raio me fulminar? Quais são as probabilidades se eu for para junto de uma árvore e gritar para que ele me queime? E se me cobrir de metal… ou se quiser muito? Será que é por querer muito que as probabilidades aumentam? Se calhar não, se calhar querer muito aumenta as probabilidades de se conseguir absolutamente nada porque o menino que não procura senta-se sempre em cima do ovo da Páscoa e o que procura, à chuva e ao frio, em vez do ovo vai chocar uma gripe.
E cada um tem o que merece, mas será que os que merecem têm? E se têm… o que têm é aquilo que pediram? Se calhar não porque quando pedimos nunca sabemos o que vamos ter e nunca conhecemos o que desejamos pela simples razão de nunca o termos antes. Exemplo, eu tenho fome e depois dores de barriga, eu estou sozinho e depois os que me fazem companhia apontam-me uma arma à nuca, eu tenho frio mas depois fecham-me num forno que me doura a pele e me queima os pêlos.
E o raio nunca cai no mesmo sítio, ou melhor, até pode cair mas quais são as probabilidades? E a sorte toca a todos, ou até pode não tocar a todos mas… quais são as probabilidades?
E pedimos o amor para termos alguém a instalar câmaras ocultas para ver se andamos a comer a mulher da limpeza, e quem anda à chuva molha-se porque estava seco.
E a sorte… acima de tudo imploramos pela sorte de receber aquilo que pedimos para depois não gostarmos e exigirmos antes não ter recebido… para depois querermos de novo e esperarmos que nada tivesse acontecido porque estávamos melhor no início. Mas quando estamos no início sentimo-nos sempre à espera do que nunca vem… e se vem não era bem aquilo porque o génio não paga a luz e a lâmpada está sempre submersa na escuridão… e quais são as probabilidades? Quais as hipóteses de felicidade? E o raio não vem… rai’s parta a minha vida que é esperar o que quero e não preciso, e preciso de esperar mas não quero, e gosto de ti porque tu não, e quando tu gostares vou deixar eu de te querer. E quais são as probabilidades de nos querermos os dois ao mesmo tempo? Quais são as probabilidades do nosso abraço apertado não afrouxar? Quais são as probabilidades de nos amarmos à mesma hora, nos mesmos dias, a cada segundo, como um raio que fulmina uma árvore repetidamente e que, em vez de a destruir, a faz encher-se de frutos? E quais são as probabilidades de não nos mexermos um milímetro para que o trovão nos dê voz e a luz nos encha o espírito?
E quando os dias pequenos e escuros nos trouxerem as pessoas rasteiras e sombrias que nos apontam defeitos como quem come cerejas, desfazendo-nos os brincos que usávamos só por sedução, e quando a tempestade nebulosa e sem faísca nos entorpecer de tédio e olharmos um para o outro para vermos um monstro obeso e cariado que já nem reconhecemos… o que é que vamos fazer aí? É possível continuar?
Quais são as probabilidades… quando o beijo me souber a azedo e o teu corpo me parecer de gelo… e o teu sorriso for tão magoado como o do anjo a quem não deram as asas?
E nessa altura… nessa altura vamos ter vertigens e vai ser difícil, mesmo muito difícil, porque os beijos serão mais curtos e as palavras ditas no meio do temporal serão secas… e vou esperar que sejas outra e tu… que eu não seja. E vamos estar tão desencontrados como o abraço que não queremos dar, como os lábios que resvalam para a bochecha, como o sangue que o coração bombeia por engano para os olhos que estão vermelhos de chorar. E aí tudo nos vai parecer o fim… e vamos querer continuar mas quais são as probabilidades de nos amarmos à chuva e ao frio e ao vento?
Quais são as probabilidades? Diz-me… quais são as probabilidades de um raio nos fulminar agora, aos dois, perpetuando-nos como uma estátua que o não quis ser, como uma dor mais lancinante porque foi procurada, como uma lei mais injusta porque foi feita depois do crime.
E o raio inunda-nos o corpo e os sentidos, e a chuva passa, e a trovoada chega-nos num dia de Verão em que o céu sem nuvens se enche de luz e nos ilumina a pele, e a boca, e os cabelos que voam com a electricidade estática.
E todos diziam que não… e nós também o dizíamos. Quais eram as probabilidades?
Quais eram as probabilidades do raio fulminar os mesmos dois, duas vezes, no mesmo sítio… e nem quisemos… ou até quisemos no início, mas depois não, depois não. Mas quando havíamos desistido e não o queríamos mais chegou um trovão fora de tempo que nos deu a voz das palavras doces… como as cerejas que nos roubaram e que não chegámos a comer, mas cujo sabor vamos sentir num beijo que vai durar até ao fim da morte porque só a vida não chegava.

poema do livro "luto lento" de João Negreiros

sábado, 6 de setembro de 2014

A beleza está nos pormenores

E a beleza está nos pormenores, e o Homem está nos pormenores, e a esperança está nos pormenores, e a felicidade está nos pormenores porque os pormenores são-no essencialmente… porque os pormenores são como as manchas que separam a borboleta do leopardo… porque os pormenores são o que nus distingue… porque os pormenores são a surpresa da diferença e a simplicidade da segurança e estão em todo o lado, mas não se vêem porque são camaleónicos, esbatem-se nas cores pardas dos lugares comuns e é preciso usar as mãos para os perceber, deixando que nos toquem como um amigo que se achava feio até lhe tocarmos a cara como fazem os cegos.
E agora vamos fazer um exercício: olhem para o vazio e digam o que vêem. Digam, digam tudo, principalmente o que vos parecer insignificante, estúpido, básico, facultativo, irrelevante porque aí estará a verdade, não por ser bela mas por ser… e ser é bem melhor do que… não… espera. Ser é bem melhor do que… não… vou tentar de novo… ser é bem melhor do que… ser é bem melhor do que… não… nem é preciso tanto porque ser é bem melhor.
Se olhares com muita atenção para os olhos de uma pessoa qualquer vais ver o vácuo, mas se olhares com muita atenção para os olhos da Helena, que leva os lábios a cair de rosa e os joanetes apertados, vais ver tudo porque lhe vais sentir os pés e os lábios à distância nesse amar remoto, desconhecido e telecomandado pela capacidade de beijar ao longe com as lentes de contacto de quem toca só para confirmar se aquela pessoa é tão linda como parece. E, neste caso, o que parece é porque o vemos com a determinação da mãe que avalia o recém-nascido em todas as suas reentrâncias só para ver se o menino é perfeitinho.

Poema do livro "luto lento" de João Negreiros

 

segunda-feira, 28 de julho de 2014

para acabar de vez com a ignorância

a ignorância fascina-me porque me dá a sensação de que é sempre possível ser mais
[estúpido
e muitas vezes é na estupidez que reencontramos a nossa humanidade
é como dizeres          dei aqui um jeito que nem consigo mexer as pernas
e sem saberes estás paraplégico
e o saberes traz-te a dor que não conhecias porque não sentias as pernas         e
[agora passaste a sentir que morreram
é como quando começas a falar com palavras que não são tuas
mas que te foram emprestadas por uma cartilha ou um panfleto que te deram na rua
aí começas a esquecer o que fica do pescoço para cima e a dar a todos          menos
[a ti          a capacidade de te criarem à sua semelhança          como um Deus em [segunda mão

e moldam-nos como barro
e moldam-nos com o berro que nos recria para desrespeitar o miúdo que já fomos e que
[mataríamos sem hesitar se nos conhecêssemos há dez anos atrás

e a ignorância diverte os que têm a inteligência de a usar para o bem deles e de
[todos     menos dos outros
e os outros somos nós
os outros somos sempre nós          porque a felicidade é só para uns
a felicidade é só para um e          às vezes          nem a esse chega

e agora põe-se a questão         
agarras o panfleto que te dão na rua?         
agarras?        
agarras
podes agarrar
podes ler
e no fim de ler só porque sabes ler vais ler segunda vez só para tentar entender
e à terceira vais entender mesmo
e à quarta vais entender como os outros
e à quinta vais entender como tu
e à sexta vais-te entender tão bem que não vais precisar de ler mais nada
mas não vais deitar o papel fora
vais guardá-lo para ler de vez em quando
só para teres a certeza que ainda o podes deitar fora          se quiseres muito
e um dia vais pegar no texto de papel que já decoraste e vais gritá-lo aos ouvidos do
[rapaz que os distribui         
sabes que o rapaz que os distribui não percebeu bem o que estava lá escrito
se percebesse o que estava lá escrito não os distribuía
e tu gritas-lhe aos ouvidos a mensagem que lhe suja as mãos          mas ele não quer
[saber
e é por não querer saber que quer muito que os outros o saibam
quer muito que os outros saibam de cor como tu sabes
mas tu sabes de cor todas as cores
todos os lados
a frente e o verso
a espessura
as orelhas do caderno
o avião de papel que voa pela sala

e a luta é essa          é contra nós
não é preciso sabermos muito mais
é só preciso sabermos muito bem
muito bem mesmo
saber as reentrâncias das nossas convicções como as covinhas do rosto que
[esticamos ao espelho quando estamos numa de reflectir

para acabar de vez com a ignorância é preciso ler devagar e muitas vezes como só os
[burros sabem fazer
como só os grandes sabem fazer
como só os génios sabem fazer

poema do livro "luto lento" de João Negreiros


domingo, 29 de junho de 2014

"cesariana" - poema musicado


cesariana

preferes ser esperto ou inteligente?
esperto como toda a gente

preferes ser esperto ou inteligente?
esperto como toda a gente
para estar quase acordado
ou então nem um nem douto
para dormir descansado

preferes ser burro ou aristocrata?
burguês porque zurro
quando me põem a pata

como os pequenos
a quem vestem a bata
e não faço por menos
sou eu quem os mata


porque pequenos
temos demais
já eram pequenos
no tempo dos pais

e vamos assim
como quem não quer
não esperem por mim
depois de morrer

fico p’ra semente
de tão mentiroso
rasgo-te o ventre

e nasce um idoso

poema do livro "luto lento" de João Negreiros

quarta-feira, 2 de março de 2011

O único bem precioso

Dá-me um beijo como se fosse na boca, dá-me um beijo como se fosse na tua. Dá-me um beijo como eu te dou porque quero sentir na pele o incondicionalismo do meu amor, só para saber quanto custa o que não tem preço mas que, para ti, estará eternamente na prateleira das promoções com o desconto do infinito e uma menina a dar amostras, às quais te fazes cara para que te dê o valor. E o valor sei-o de cor como os lápis de cera que derreti à Santa, pedindo-lhe para interceder junto do teu olhar para que me visses com outros olhos, os gentis que não tinham graduação… por não serem oficiais e não precisarem de óculos.
Dá-me o virar da cara para te conhecer melhor a face esquerda. Dá-me o virar da cara para te conhecer melhor a face direita. E à terceira dás-me os lábios para que eu te mostre o que tenho andado a praticar às escondidas com as tuas bochechas.
Sabes, eu e algumas partes do teu corpo somos cúmplices e não sabes mas conheço-te como não imaginas porque te vês mal… com a rudeza de quem julga o belo como a um filme mau que era preciso ver em boa companhia, com o maior dos intervalos e com o enredo que só as carícias sabem engrossar.
E agora conheço-te completamente como o fruto que me escorrega no sumo até ao queixo, mas que eu resgato com cuidado para que nada se desperdice. É importante que o amor não se desperdice porque o amor, nos dias que correm, é o único bem precioso.

Poema do livro "luto lento" à venda em livrarias e em https://www.buknet.pt/?op=pesquisa&pesquisa=jo%E3o+negreiros&t=2


sábado, 20 de fevereiro de 2010

As coisas pequenas



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As coisas pequenas
Há dias em que as coisas pequenas se te atravessam no caminho e, por serem pequenas, tu achas que, mais cedo ou mais tarde, elas vão acabar por desaparecer. Mas as coisas pequenas são as únicas que nunca desaparecem pela particular razão de serem quase invisíveis.
Não percebes, pois não? Eu explico: tens uma chave, e tens uma porta, e a compor a porta tens uma casa que tem um recheio... sem creme, mas muito doce.
Tens uma chave e uma porta, e à volta uma casa, e queres entrar mas a chave, que é pequena, está torta e tu não dás conta, e colocas na ranhura, e rodas a chave mas metade dela parte-se lá dentro do recheio, e agora metade da chave está lá dentro, a impedir que tu entres.
Ainda não percebeste, pois não? Eu explico: tens todo o carinho acumulado dentro do teu corpo e já escolheste exactamente a pessoa a quem o queres dar… e essa pessoa existe mas depois, lá está, as pequenas coisas, a pessoa existe mas está dentro de casa e tu continuas fora, e agora vais ter de substituir o canhão… mas é feriado e não há quem te faça o serviço, e perdes a paciência, e arrombas a porta mas ela, que estava junto à maçaneta, a espreitar a ver se te via fica debaixo, e quanto mais procuras mais pisas, e quando dás por ela já estragaste tudo, e ela parte com a rapidez de um estalo que te aquece a cara que logo de seguida é refrescada pelo relento de estar dentro de casa com a porta pelo chão, e queres-te vingar, e vais buscar o martelo, e espatifas o canhão e a chave de fora, e a chave de dentro, e a porta, e partes tudo, e arremessas o recheio pelas janelas deixando que os gulosos te levem o doce. E recriminas-te muito mas a culpa não é tua, foi um pequeno duende que te entortou a chave… que pediu que ela espreitasse. Um duende pagão que inventou um feriado religioso para tramar um agnóstico e tu, que não acreditas em nada a não ser na tua capacidade de atingir objectivos, estás constantemente fodido porque pensas que as grandes coisas que fazes têm algum tipo de correlação directa com o que vai acontecer… mas acredita que as pequeninas coisas são tudo, são elas que fazem girar o mundo.
E a entrevista de emprego vai sempre ficar para outro por causa da caneta que estourou no bolso da camisa branca, ou dos fiapos de caldo verde que se penduram nos teus dentes, ou do corante do gelado que te deu à língua um tom esverdeado quando dizias palavras sábias. E vais sempre ficar preso no elevador porque faltou a luz… porque não vais chegar a tempo… porque era importante… e não podes fazer nada. E vais sempre perder o autocarro, apesar de muito grande e de dois andares, porque o duende apoia os grevistas… e porque o mecânico amigo te mudou o óleo do carro para um óleo da fritura das batatas que ficaram negras daquele jantar que correu mal.
E são sempre as pequenas coisas, tão pequenas que são ainda mais invisíveis que as coisas que tu não vês. Porque a fé tu não vês mas, se te esforçares, é possível. O amor também não vês mas, se te esforçares, é possível. O ódio… bem… o ódio não serve de exemplo, vê-se demasiado bem, tão bem como as letras garrafais de um escândalo de prostituição que está na primeira página… porque o senhor ministro deixou a carteira em casa e não tinha nada para pôr na cómoda da menina
e a menina, dona da cómoda, ficou tão incomodada que foi à porta dos jornais, a que estava entreaberta porque a senhora da limpeza a deixou assim para arejar.
E são sempre as pequenas coisas, aquelas que tu não vês, as que tu nem sequer conheces.
E o cansaço pode-te fazer cair devagar. E a tristeza pode-te fazer cair devagar. Mas os cordões desapertados fazem-te cair depressa.
E é humanamente impossível prever porque o doente do duende fá-lo com magia e a magia não se vê, a não ser na televisão ou pagando bilhete e, como ninguém aprende nada com o que vê na televisão e só queremos bilhetes se forem oferecidos, nunca vemos a magia.
E são sempre as coisas pequenas. E às vezes há partenaires gordas que já andam nisto há muitos anos que nos avisam antes de cair, mas nós… pronto, achamos que só acontece aos outros como nos lugares comuns… por isso o melhor é não dar grande atenção a seja o que for. O que tem que acontecer já aconteceu e o que nós queremos que aconteça vai acontecer, mas noutra altura, noutro sítio e, provavelmente, a outra pessoa.
in luto lento, de João Negreiros

sexta-feira, 1 de janeiro de 2010

ontem estive no inferno


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--> --> --> -->ontem estive no inferno
sabes o que me assustou mais?
foi não ter dado por nada
ontem estive no inferno e não dei por nada porque o que existe lá é o mesmo que existe aqui
ontem estive no inferno e estive mesmo para te chamar
mas achei que não ias querer ver
não tinha nada de novo
e o novo que tinha não era mau o suficiente
era talvez um pouco melhor
um pouco pior
um pouco diferente
mas na essência era o mesmo
o mesmo cheiro
o mesmo sabor
o mesmo som
o mesmo sujo
o mesmo ar
a mesma gente
só que diferente
com roupas rasgadas e esgares de dor
não
espera
o esgar de dor era igualzinho
as roupas
sim
eram diferentes
não
espera
que ontem vi um homem que estava
pois
pois é
nem as roupas
ontem estive no inferno para depois poder contar a todos como é
mas acabei por perder a viagem porque não tenho nada para contar
e o inferno continua
e está a arder nos meus olhos e nos teus também
e nos teus também
e um dia vamos lá parar todos
mas felizmente não vamos sofrer com a diferença
e vamo-nos sentir todos em casa porque a nossa casa é toda a mesma e está a cair como um baralho de cartas que nunca chegou a castelo

ontem estive no inferno e perdi-me lá dentro
e continuo lá
e sei que não vou dar com a maçaneta da porta
e se der não a vou saber rodar
e se a rodar um muro vai tapar a saída
e se o derrubar vai haver um guarda
e se matar o guarda vai haver um homem
e se rasgar o homem vai haver um papel
e não vou ter tesoura
e se tiver tesoura vai aparecer o demónio
e se beijar o demónio na boca e ele me deixar passar para que não conte a ninguém que o amei vai haver um Santo com a inocência ao colo
e não vou ter como o afastar
mas se o Santo perder a inocência e fugir para a procurar eu vou continuar em frente até à próxima barreira que és tu
que eu quero por seres a última
e vou tirar-te à vida devagar
deliciosamente e sem esforço por seres a única e última coisa viva que me impede de encontrar o fim do mundo que é vazio
e magro
e débil
e negro
e seco como o último galgo da corrida
o cão cego que só ganharia se tacteasse o coelho que está no infinito à espera
ontem estive no inferno
ontem estive no inferno
estava lá tudo
estavam lá todos
tu não
tu não
tu não
se estivesses não seria a mesma coisa
in luto lento, de João Negreiros